PEDRO A. SANTOS

Os aniversários da Revolução de Outubro e da União Europeia vão balizar um ano em que vários países europeus poderão optar por mudanças drásticas de política.

Duas celebrações de dimensão transnacional, ainda que em diferentes quadrantes políticos, estão já agendadas para o 2017 que agora começou: os 100 anos da revolução russa e os 60 anos da União Europeia. Cada uma representa um projecto distinto de vida para os povos que em si abarca – mas qualquer deles está posto em causa pelos “desvios” ao projecto original.

Há exactamente 100 anos, no dia 8 de Março, os mencheviques russos derrubaram o Czar e sonharam com a instauração de uma democracia pluralista e próspera. Não tiveram sorte: tal como no PREC português de seis décadas depois, os comunistas estavam à espreita, e no dia 8 de Novembro (é chamada a “revolução de Outubro” pois os russos usavam então o velho calendário juliano) tomaram o poder na Rússia, abrindo caminho para a fundação de uma das ditaduras mais cruéis do século XX: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este ano, os vários movimentos marxistas, muitos a recuperar força, vão celebrar a data, um pouco por todo o mundo.

Esta mania de unificar nações em blocos federais não terminou aqui, como se vê bem pelo Tratado de Roma, cuja assinatura, há 60 anos, também será motivo para celebração em 2017. Datado de 25 de Março de 1957, este documento estabeleceu a Comunidade Económica Europeia, a organização antecessora da actual União Europeia. Na altura ainda se acreditava que respeitaria as soberanias das nações aderentes – isto é, que não se transformaria num projecto federalista –, e Portugal, ansioso por estar com “os grandes”, juntou-se à festa em 1986. Mas em 1992, derrotado o outro projecto aglomerador de nacionalistas, a URSS, os federalistas retiraram os termos “comunidade” e “económica” do projecto, e adicionaram “União” de facto consumado. Não vai ser um aniversário feliz: os britânicos planeiam entregar os papéis do divórcio em cima desta data.

É também a favor ou contra esta “União” que quatro dos seis povos fundadores de todo o projecto vão votar em 2017. A primeira prova de fogo para Bruxelas é no dia 15 de Março, quando os holandeses forem às urnas, possivelmente para dar uma vitória ao conservador Partido pela Liberdade, que se assume pela defesa dos valores europeus face ao avanço do islão radical, e deseja fazer um referendo à permanência da Holanda na União. Caso este partido seja o mais votado, o que é provável face às sondagens, então o seu desejo poderá tornar-se uma realidade em 2018.

Os burocratas europeus não vão ter muito tempo para se recomporem deste “Março Horribilis”: as eleições presidenciais francesas estão marcadas para o dia 23 de Abril, com a segunda volta a decorrer no dia 7 de Maio. É quase certo (e se não houver entretanto alterações de fundo) que nessa segunda volta participarão dois candidatos extremamente conservadores, anglófilos, e que defendem boas relações com a Rússia de Putin, tudo valores que não se dão bem com a UE.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.
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