EUA: mais um país partido ao meio

Depois do Brasil, os Estados Unidos da América: metade de esquerda, metade de direita. À hora de fecho desta edição, confirmava--se a vitória dos conservadores do Partido Republicano na Câmara dos Representantes (o parlamento norte-americano), mas o Partido Democrata mantinha uma posição de força no Senado (a câmara alta).

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Joe Biden, que evitou uma derrota humilhante da esquerda, pôde declarar que “foi um dia bom para a democracia e para os Estados Unidos”. E Donald Trump, o líder republicano, resumiu a situação ao afirmar que para a direita os resultados foram “de certa forma decepcionantes”, mas também “um triunfo”. Não há contradição nas declarações: apenas a constatação de um “empate” que poderá, no fim de contas, prejudicar as aspirações do próprio Trump a uma nova candidatura à Presidência dos Estados Unidos.

Estado a Estado, estas eleições intercalares trouxeram algumas novidades. Por exemplo, os eleitores rejeitaram o uso recreativo de cannabis no Arkansas, Dakota do Norte e Dakota do Sul, mas aprovaram-no em Maryland e Missouri, o que significa que o apoio à legalização está a crescer gradualmente, mesmo em regiões conservadoras do país. Até agora, 21 Estados norte-americanos já aprovaram o uso recreativo de cannabis. Os defensores das chamadas drogas leves consideram que os resultados enviam uma mensagem aos legisladores em Washington sobre o apoio em todo o país à legalização.

O processo das eleições intercalares desta semana está, no entanto, longe de concluído. Os candidatos ao Senado pelo Estado da Geórgia terão de defrontar-se ainda numa segunda volta a realizar em 6 de Dezembro. A informação foi avançada por Gabriel Sterling, do gabinete do Secretário de Estado local, à CNN. O anúncio foi feito quando faltava contar dez mil votos, um número insuficiente para permitir que qualquer dos candidatos – o republicano Herschel Walker e o democrata Raphael Warnock – chegue aos necessários 50%.

No Estado do Nevada, a contagem dos votos poderá demorar ainda vários dias, uma vez que muitos eleitores escolheram votar por correio e esses votos ainda estão a chegar. As autoridades eleitorais apelaram à paciência dos eleitores, mas não foram capazes de fazer uma previsão quanto à divulgação dos resultados finais.

No Alasca, Sarah Palin, A ex-governadora e candidata do Partido Republicano à Câmara dos Representantes levantou dúvidas sobre o processo eleitoral e rejeitou qualquer colaboração com a administração Biden. 

O eleitorado aproveitou estas intercalares para “corrigir” o voto expresso nas últimas eleições. Por exemplo, no Estado do Kansas, onde em 2020 os conservadores de Trump haviam assegurado uma vitória de 51% para 41%, os democratas recuperaram a sua anterior vantagem e elegeram Laura Kelly contra o procurador republicano Derek Schmidt (49,2% contra 47,7%, segundo a France Press. No Wisconsin sucedeu o oposto: em 2018 o democrata Biden venceu o Estado, mas agora o republicano Ron Johnson conquista um lugar no Senado.

Portugueses eleitos

Vários candidatos lusodescendentes e luso-americanos saíram vitoriosos das disputas eleitorais na costa leste dos Estados Unidos nas intercalares de terça-feira. Com 84% dos votos apurados, a democrata Lori Loureiro Trahan, cujas raízes remontam ao Porto e aos Açores, conseguiu 62,3% dos votos contra 37,7% do republicano Dean Tran e foi assim reeleita para um terceiro mandato na Câmara dos Representantes norte-americana pelo 3.º distrito congressional de Massachusetts.

Já o advogado de origem portuguesa Jack Martins, que concorria pelo Partido Republicano para o 7.º Distrito do Senado Estadual de Nova Iorque, venceu a rival democrata Anna Kaplan, regressando assim a um cargo que já ocupou.

Também a democrata Lisa Boscola, filha de emigrantes minhotos, conseguiu o seu 7.º mandato como senadora estadual na Pensilvânia, tendo derrotado o republicano John Merhottein.

O resultado das eleições foi frustrante para o Partido Republicano e mais frustrante ainda para o antigo Presidente Donald Trump. Este esperava uma vitória muito mais clara na Câmara dos Representantes e, eventualmente, uma vitória no Senado. Na opinião de muitos observadores, o escrutínio foi “um balde de água fria” e poderá levar Trump a reconsiderar a sua intenção de voltar a candidatar-se à Presidência do país.

Potenciais candidaturas

À espreita está Ron DeSantis, agora reeleito governador do Estado da Florida e potencial candidato à nomeação republicana como concorrente às presidenciais. Trump não tem poupado nos ataques a DeSantis. Em entrevista ao ‘News Nation’, o ex-presidente dos Estados Unidos tentou desacreditar DeSantis e capitalizar a vitória alcançada pelo governador, que cada vez mais se perfila como um dos favoritos do partido à nomeação. Segundo Trump, se não fosse o seu apoio em 2018 DeSantis nunca tinha chegado onde chegou: “Consegui-lhe a nomeação. Ele não a recebeu, eu consegui-lha. Ele não era suposto ser capaz de ganhar. Fiz dois comícios, tivemos 52.000 pessoas em cada um e ele ganhou. Pensei que ele podia ter sido mais agradecido, mas isso é lá com ele”.

Agora que DeSantis constitui uma ameaça ainda maior à sua nomeação, Donald Trump ameaça contar segredos do rival se ele tentar nomeação republicana. Numa viagem de avião com jornalistas, Trump afirmou: “Se ele concorrer, vou contar-vos coisas sobre ele que não serão muito lisonjeiras. Sei mais sobre ele do que qualquer outra pessoa a não ser talvez a sua esposa, que é quem está a dirigir a sua campanha”. Se tudo correr como previsto, Trump apresentará a sua candidatura à nomeação como candidato republicano já no próximo dia 15, mantendo assim o seu rival sob pressão para se decidir e sem lhe dar tempo para conquistar apoios prévios dentro do partido. 

Entretanto, analistas ouvidos pela agência Lusa consideram que, perante os resultados conhecidos das eleições intercalares, “Joe Biden poderá preparar, se assim o entender, uma recandidatura para 2024”, explicou Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Ainda assim, como disse à Lusa Felipe Pathé Duarte, professor e investigador da Nova School of Law, a previsível futura maioria republicana na Câmara dos Representantes poderá ser um obstáculo difícil para Biden. «O controlo de qualquer uma das câmaras permitirá que os republicanos bloqueiem a agenda governativa de Joe Biden, pelos próximos dois anos, incluindo um potencial bloqueio da ajuda à Ucrânia – basta lembrar a posição do líder da minoria republicana da Câmara [dos Representantes], Kevin McCarthy», lembrou à Lusa Pathé Duarte.