Joaquim Jorge: “Já basta de PS no poder!”

Fundador do célebre Clube dos Pensadores, o biólogo e professor Joaquim Jorge lançou-se há dois anos na criação de uma alternativa política para a Câmara de Matosinhos, dominada há quatro décadas pelos socialistas. Com as autárquicas marcadas para Setembro/Outubro de 2021, Joaquim Jorge faz o balanço do trabalho já feito e perspectiva os desafios do futuro.

0
745

Foi o mentor do movimento “Matosinhos Independente” (MI), já há quase dois anos. Como começou tudo?

Estava na hora de tentar pôr em prática as ideias que sempre defendi no Clube dos Pensadores. Matosinhos carece de uma elite pensante, é governada pela mesma ideologia há 44 anos. Matosinhos funciona por “pedinchas”, aquilo a que eu chamo os “meninos do orçamento”. Matosinhos precisa de uma mudança de atitudes e comportamentos. Eu prontifiquei-me a assumir esta responsabilidade numa onda cívica, para os matosinhenses terem mais uma alternativa, e não sempre os mesmos do PS.

Tem dado a entender que há quem queira silenciar a sua voz. O exercício da cidadania incomoda?

Parece que sim. Até costumo dizer que tenho uma relação difícil com a verdade [risos]. Quem tem um cargo público pensa que está do alto do seu pedestal e que lhe passa tudo por baixo. Todavia, a história recente mostra-nos que qualquer um cai, e quanto mais alto julga estar, maior é o estrondo.  Um cargo público existe para servir as pessoas, não para se servir e fazer “joguinhos” e engendrar “sucessões”. Acho que as pessoas se começam a cansar deste tipo de gente e com esta mentalidade. 

O futuro do Matosinhos Independente?

Vai fazer dois anos em Outubro, estamos numa posição muito melhor do que há um ano. Todavia, este projecto depende das pessoas, não depende só de mim. Eu apercebo-me que estão a aderir. É preciso “voluntários cívicos” que nos ajudem na angariação das assinaturas. A Covid-19 veio prejudicar muito tudo o que estávamos a fazer.

Pediu uma audiência a Marcelo Rebelo de Sousa. Porquê?

Com esta pandemia, uma candidatura independente precisa de recolher assinaturas e dar-se a conhecer, tem a sua vida muito dificultada. É latente a falta de tratamento jornalístico isento, adequado e equilibrado. Deve-se equacionar a diminuição do número de assinaturas, pois pede-se o distanciamento físico. Como é possível alguém assinar um documento a dois metros de distância? Esta recolha não se pode fazer pela Internet, ao género de uma petição. Preocupa-me sobremaneira que Conselhos de Ministros descentralizados sejam aproveitados para propaganda aos autarcas do partido do governo de forma dissimulada. A data das eleições autárquicas de 2021 será marcada em meados de 2021. A partir da marcação das eleições autárquicas pelo Presidente da República, é proibida propaganda política.

Que mensagem gostaria de deixar aos matosinhenses?

Que procurem estar informados e atentos. Quando acham que têm razão, não deixem de o manifestar com argumentos, de uma forma educada, mas pertinente e assertiva. Sigam o vosso voto e o que ele faz. Não chega votar e depois não ligar nenhuma. Comecem a pensar que Matosinhos pode mudar. Têm que escolher entre o mal que conhecem e o bem que devem conhecer.

Acha que o movimento Matosinhos Independente vai ter sucesso?

Se não tentar, não sei. Agora, também sei das dificuldades, mas não é impossível. Estou muito tranquilo e sereno. Se der, deu; se não der, volto para casa. Não dependo de cargos públicos para viver, toda a minha vida tive uma profissão de que me orgulho muito, apesar de andar pelas ruas da amargura. Ser docente, actualmente, é um acto de heroicidade. Na minha vida nunca dou o meu tempo em cidadania por mal empregue. Posso sempre no futuro apresentar um trabalho científico e de investigação sobre o que estou a fazer no Matosinhos Independente e fiz no Clube dos Pensadores. Parafraseando Lavoisier: “na política nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Como define a actual Câmara de Matosinhos?

Uma das marcas desta Câmara de Matosinhos é nunca estar à hora certa no local certo para resolver os problemas. Esta Câmara tem um comportamento erróneo quanto às infra-estruturas do concelho. Deve-se, como prioridade, zelar por tudo o que é público, para a maioria da população poder usufruir. Matosinhos, pela falta de liderança, está enxameado de “casos”: Hotel, Escultura, Realidade Social, Ralf Park, Lar do Comércio, Matosinhos Sport, permuta de terrenos, número elevado de infectados de Covid-19, subsídios atribuídos sem critérios transparentes, entre outros. Matosinhos tem de se afirmar como um concelho preponderante da Área Metropolitana do Porto e não andar a reboque de outros concelhos. E deixar de ser notícia com casos que estão a ser averiguados pela justiça. Isso é péssimo e dá uma má imagem.

O que faria, se fosse presidente de Câmara?

Pouco e bem feito. Não prometer o que não possa cumprir. Matosinhos deve ter um dia-a-dia com qualidade de vida: pagar menos IMI, pagar menos pela água, ruas limpas e sem buracos, recolha de lixo eficiente, protecção policial, zonas verdes e jardins limpos e asseados, transportes públicos capazes. Para além disso, escolas em boas condições para acesso a todos. Um bom ensino público esbate as desigualdades e permite o acesso de quem tem menos posses. A saúde, nos tempos que correm, tem de ser uma prioridade. Só depois as festas. Não é possível na nossa casa andarmos a fazer bailaricos e faltar-nos coisas essenciais para vivermos! Matosinhos é o município com as taxas mais altas, onde não se aplica o IMI familiar e não se contempla desconto no IRS. Matosinhos não se pode transformar numa comissão de festas e comité eleitoral. Tem uma mobilidade horrível. O pior cartão de visita de Matosinhos é a Rotunda dos Produtos Estrela. O melhor cartão de visitas é o mar e as suas praias, os restaurantes. Ao fim de 44 anos, já chega de poder PS.

E o Clube dos Pensadores – acabou?

O Clube dos Pensadores, nos moldes em que se realizava, acabou. Porém, tem havido muitos pedidos insistentes para retomar. Estou a pôr a hipótese de retomar, mas de forma diferente e noutros moldes. Isso vai depender de vários factores e circunstâncias, mas essencialmente da minha disponibilidade física e mental. Vamos ver… ■