“Não haverá maiorias de direita sem o CHEGA”

André Ventura é directo quando questionado sobre as suas relações com os outros partidos da área da Direita no arco do Parlamento: “Penso que todos já perceberam que tentar silenciar-me a mim ou ao CHEGA não vai funcionar. E também já interiorizaram que não haverá maiorias de direita sem o CHEGA, pelo menos nos próximos anos”. Em resposta a um questionário d’O DIABO, Ventura faz um balanço positivo da sua prestação no hemiciclo. E afirma: “O que mais gozo me dá é meter o PCP e o Bloco de Esquerda no devido lugar, algo que faltava na cena parlamentar portuguesa. Diziam o que queriam e como queriam sem que ninguém lhes fizesse frente… Isso acabou. E podem ter a certeza de que, enquanto eu ali estiver, a extrema-esquerda não vai ter a vida fácil”. Quanto às presidenciais, revela que sairá para a estrada, em campanha, “daqui a pouco mais de uma semana”. E não resiste a comentar: “Para mim é fantástico… é aí que gosto de estar. É nos comícios e no contacto com a população que melhor me sinto como político”. Nas suas declarações, André Ventura denuncia ainda que “a cor do cartão partidário continua a ser muito importante nos governos socialistas” e que, por isso mesmo, o CHEGA propôs uma comissão de inquérito para apurar as aparentes irregularidades nos muitos milhões gastos na aquisição de equipamentos de saúde para fazer face à actual pandemia de Covid-19.

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Em seu entender, Portugal reagiu bem na luta contra o Covid-19?

Reagiu tardiamente e com demasiadas meias verdades e algumas mentiras. Se tivéssemos encerrado as fronteiras no momento em que o CHEGA o propôs, provavelmente tínhamos evitado o crescendo da pandemia e algumas vidas perdidas, provavelmente, ter-se-iam salvo. Acresce que a promessa de falar verdade aos portugueses também não foi cumprida: nos ajustes directos, na revelação de informação, enfim… numa série de aspectos relevantes

O dinheiro aplicado na resposta à pandemia foi bem gasto?

Era fundamental flexibilizar as restrições orçamentais e, por isso, viabilizámos essa flexibilização. Entendemos, no entanto, que continuam muitos mistérios por perceber em alguns negócios que mais parecem negociatas de amigos e antigos companheiros de partido. A cor do cartão partidário continua a ser muito importante nos governos socialistas. Por isso mesmo, o CHEGA propôs uma comissão de inquérito para apurar as aparentes irregularidades nos muitos milhões gastos na aquisição de equipamentos de saúde. Isto não pode passar impune.

Nos lares de idosos a resposta não foi muito tardia?

Imensamente tardia. Passou a ideia de irrealismo e descontrolo. Mostrou que o Governo socialista nem sequer tem ideia de como funcionam e quais as principais características da maioria dos lares de idosos a operar em Portugal. Foi bastante triste, mas revelador do Governo que temos…

O que poderia ter sido feito de diferente?

Deveríamos ter lançado imediatamente um grande programa de apoio e fiscalização aos lares de idosos, visto que já chegavam notícias de fora que apontavam para situações gravíssimas e sistémicas nestas instituições. Deveríamos ter articulado a resposta entre os vários Ministérios com intervenção directa no combate à pandemia, e isso também tardou a ser feito. Quem mais sofreu e continua a sofrer com isto são os próprios idosos e as suas famílias…

Depois de meses em que a situação da pandemia do Covid-19 era pior na zona Norte, agora é a zona da Grande Lisboa que está a ter, há vários dias, mais de 90 % dos novos casos. Teme que a situação se descontrole?

Estamos com mais casos em Lisboa do que tivemos durante o pico da pandemia. Isso é preocupante e alguém tem de dar uma resposta ao que se passa. Este contínuo sacudir de responsabilidades do Governo do PS não é nada positivo… Penso que teremos de assumir o problema e preparar um plano específico para a região da Grande Lisboa, que garanta um desconfinamento seguro e ao mesmo tempo a retoma da actividade económica, igualmente fundamental.

Originou uma grande polémica quando defendeu um cerco sanitário aos ciganos de Moura. Hoje voltava a defender a mesma medida?

Voltava. Só não percebeu quem não quis, e aqueles que vivem de alimentar continuamente o ódio e o racismo no debate político. Verificou-se uma série de problemas relacionados com a comunidade cigana que derivam, essencialmente, de alguns tipos de comportamento-padrão específicos. O que defendemos foi que deveríamos ter um plano específico para lidar com as especificidades desta comunidade, para evitar a propagação do vírus e a protecção de todos. O que é que isto tem de racismo? Ainda esta semana o autarca do PS da Azambuja defendeu algo parecido numa determinada zona do seu Concelho, mas como é do PS a coisa passa mais inofensiva. É a política reles que temos em Portugal.

Entre várias minorias, a sua posição em relação à etnia cigana tem sido contestada. Muitas pessoas, e isso vê-se nas redes sociais, criticam a sua postura e dizem não saber o que o move contra os ciganos. Quer explicar?

Não tenho nada de pessoal contra os ciganos. Acho que há em Portugal um problema com a comunidade cigana, e esse problema tem de ser enfrentado e não ignorado. O que fizemos nestas últimas décadas foi ignorar e já vimos que não funciona. Quer no comportamento maioritário que revelam em sociedade, quer nas questões de género e igualdade, a comunidade cigana ainda não interiorizou – na sua maioria – algumas das componentes do Estado de Direito. E isso é um problema que tem de ser resolvido.

O CHEGA aparece centrado em si, e muitas vezes aparece como um partido de um homem só, sem outras personalidades. Tem uma equipa com peso?

Tenho um conjunto de dirigentes partidários e colaboradores de que me orgulho muito. O partido de um homem só era incapaz de ter apresentado cerca de 100 propostas de alteração ao Orçamento de Estado para 2020, ou de apresentar novas medidas legislativas ou projectos de resolução praticamente todos os dias. É fruto de uma equipa que, com mais ou menos peso político, tem revelado uma enorme entrega e capacidade de trabalho. Veja o que se passa nas redes sociais, ou na Chega-TV (um canal com a ‘televisão’ do partido) e em outras plataformas. As pessoas não percebem como estamos a crescer tanto…

Tem tido grande actividade parlamentar. Até ao momento, o que mais gostou de fazer como deputado?

Os grandes debates de ideias são o que me motiva e o campo onde gosto de estar. O que mais gozo me dá é meter o PCP e o Bloco de Esquerda no devido lugar, algo que faltava na cena parlamentar portuguesa. Diziam o que queriam e como queriam sem que ninguém lhes fizesse frente… Isso acabou. E podem ter a certeza de que, enquanto eu ali estiver, a extrema-esquerda não vai ter a vida fácil.

E o que considera o seu seu momento menos feliz nestes meses de trabalho na Assembleia da República?

Alguns debates quinzenais com o Primeiro-Ministro deixam-me frustrado, quer pela escassez de tempo, quer porque não consegui desmontar como gostava as falácias e as tretas dos socialistas. Mas o povo português tem de saber isto, porque mais cedo ou mais tarde a factura vai chegar: estamos a ser inundados de tretas socialistas. Daqui a alguns anos dar-me-ão razão!

Como tem sido a sua relação com os partidos de Direita no Parlamento?

Tende a normalizar. Penso que todos já perceberam que tentar silenciar-me a mim ou ao CHEGA não vai funcionar. E também já interiorizaram que não haverá maiorias de direita sem o CHEGA, pelo menos nos próximos anos. Costumo dizer-lhes para se habituarem, que custa menos!

Tem havido alguma espécie de colaboração no Parlamento com os outros partidos da ala Direita?

Não queria avançar muito neste campo, mas posso dizer que tenho mantido contactos, sobretudo com o PSD, no sentido de encontrar caminhos políticos que permitam implementar medidas que apoiem as famílias, as empresas, os trabalhadores e os pensionistas. Nunca falei com o Dr. Rui Rio de coligações. Ele e o Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS-PP, é que insistem em falar publicamente sobre isso.

Mas pode dizer-se que se sente mais próximo do PSD, de que foi militante durante anos?

Em termos pessoais sim, conheço razoavelmente bem a maioria dos deputados do PSD que foram eleitos na actual legislatura. Em termos políticos, cada vez mais distante. Mas isso não me incomoda: vim para o Parlamento para defender a verdade e ser a voz do cidadão comum, mesmo que isso por vezes cause dissabores. Não vim para fazer amigos…

Será que tem hoje mais afinidades com o CDS e a Iniciativa liberal?

Uma relação absolutamente normalizada com esses dois partidos, mas temos diferenças substanciais que dificilmente serão ultrapassadas. Apesar de tudo, são partidos de regime. Nós defendemos – como eu disse no 25 de Abril – outro regime, com uma nova caracterização jurídico-constitucional. Queremos a IV República… e isso torna difícil, por vezes, criar pontos de aproximação.

Defende uma geringonça de Direita para um futuro governo?

A resposta já está parcialmente dada no âmbito da última pergunta, mas há um elemento a acrescentar: o CHEGA nunca será muleta de nenhum partido. É importante que os partidos do sistema tenham noção disso!

As sondagens dão ao CHEGA resultados em crescendo. Apesar de faltar muito tempo, qual é a sua fasquia para as legislativas?

Queremos ser, nas próximas eleições, a terceira força política nacional, ultrapassando o Bloco de Esquerda, como já indicam algumas sondagens. Nas seguintes queremos ser Governo e ser o partido mais votado em Portugal. Anunciei isso mesmo logo na noite eleitoral das últimas legislativas e muitos riram-se. Agora, quando olham para as sondagens, talvez já não tenham tanta vontade de rir.

O CHEGA já está a preparar as próximas eleições autárquicas de 2021?

Sim, e esperamos um resultado notável a nível nacional, com algumas zonas do país onde seremos o primeiro ou o segundo partido mais votado.

Foi o primeiro candidato presidencial a avançar, em finais de Fevereiro, em Portalegre. Desde aí a sua candidatura a Belém tem estado parada. O que aconteceu?

A pandemia do Covid-19 obrigou a restrições e limitações que toda a gente compreende. Como poderia andar a fazer campanha presidencial quando lutávamos contra um inimigo desconhecido e o futuro dos portugueses estava ameaçado? Acima de qualquer candidatura está a lealdade que devemos aos portugueses. Agora sim, estamos prontos para avançar. Vamos para a estrada já daqui a pouco mais de uma semana. Para mim é fantástico… é aí que gosto de estar. É nos comícios e no contacto com a população que melhor me sinto como político.

Defendeu recentemente que as eleições presidenciais deviam ser adiadas um trimestre por causa de a pandemia ter monopolizado a actividade política. Que receptividade teve?

Ainda não falei com Marcelo Rebelo de Sousa sobre isso com alguma profundidade. Espero fazê-lo ainda em Junho. É preciso fazer uma avaliação séria e objectiva sobre as condições existentes. O importante é estarem reunidas todas as condições de campanha eleitoral e votação para que todo o processo decorra com normalidade.

Se a data de Janeiro de 2021 se mantiver, quando vai ‘dar gás’ às presidenciais?

Como atrás disse, já este mês voltaremos para a estrada. Estarei no Açores este fim de semana, na Convenção Regional do Partido, e de seguida voltamos à campanha e aos comícios (com limitações e muitos cuidados por causa da pandemia do Covid-19).

Conta ter outros candidatos da área da Direita a concorrer a Belém?

Sinceramente, pouco me importa. Acredite que não o digo com hipocrisia ou menosprezo das outras eventuais candidaturas. Mas sinto que as pessoas já perceberam que, à direita ou à esquerda, só haverá um verdadeiro candidato anti-sistema. Se se revêem no objectivo de inaugurar um novo sistema político, então só podem votar em mim. Se quiserem manter as coisas como estão, votarão em Marcelo Rebelo de Sousa, que é a cara e a história deste sistema. Penso que vai ser uma grande surpresa e que teremos uma grande segunda volta. A Europa e o Mundo ficarão surpreendidos com a força que revelaremos nas urnas. A minha passagem à segunda volta será o princípio do fim deste sistema decrépito e corrupto em que vivemos.

Que tipo de campanha presidencial vai fazer?

Só sei fazer um tipo de campanha eleitoral: na rua, junto das pessoas, e com comícios populares. Sou um político que quer ser a voz das pessoas comuns. É ao lado delas que gosto de estar e fazer política. As presidenciais não serão excepção. Serei popular, Marcelo será populista! Os portugueses que escolham o que pretendem para Portugal.

Foi divulgada esta semana a existência de uma petição, com cerca de 18 mil assinaturas, a pedir a abolição do CHEGA, afirmando que este defende a ideologia fascista. Como encara esta iniciativa?

Como uma atitude verdadeiramente anti-democrática: não nos conseguem vencer nas urnas, vão tentar na secretaria. É a velha estratégia da esquerda sectária: não importam os meios, mas sim os fins. Não conseguirão. O CHEGA é já um partido do arco parlamentar português e representativo de centenas de milhar de portugueses. É impossível tornar este partido uma organização clandestina.

A revista ‘Sábado’ referiu numa edição de há alguns meses que dirigentes e militantes do CHEGA passaram por movimentos e partidos de extrema-direita. Nessa altura disse que ia retirar a confiança política aos dirigentes do partido que tenham estado ligados a movimentos extremistas. Já foi feito?

Decorrem vários processos no conselho de jurisdição a propósito destes assuntos. Tenho de respeitar os ‘timings’ e os processos: no final, a Direcção Nacional tomará as suas medidas. Para mim, este é o princípio fundamental: o partido nunca pode deixar de se identificar com as regras do jogo democrático nem ficar próximo de movimentos violentos ou subversivos. Para nós, em nome dos portugueses, é no jogo democrático que se fazem as mudanças.

Mantém então (palavras suas) que, “enquanto for líder do Chega, nenhuma possibilidade haverá de que o partido seja conotado, envolvido ou associado com quaisquer movimentos extremistas, subversivos ou racistas”, pois “essa posição não é admissível numa Democracia e num Estado de Direito”?

Absolutamente, conforme acima referi. Quero que o CHEGA fique associado a um grande movimento nacional que veio regenerar a Democracia portuguesa e não acabar com ela. ■