Ódio desconfinado

Com a Grande Lisboa numa situação muito complicada em termos de falta de controlo da pandemia, a manifestação “contra o racismo” decorreu sem qualquer respeito pelas regras de segurança profiláctica e com chocantes apelos ao ódio. A PSP foi particularmente visada: num dos cartazes empunhados por manifestantes lia-se “polícia bom é polícia morto”!

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A Directora-Geral da Saúde alertava no próprio dia para os riscos das manifestações na propagação do Covid-19. Em cima da hora, Graça Freitas comentava, visivelmente preocupada: “Acabei de ver imagens de manifestações e movimentos na cidade de Lisboa. O controlo da doença depende do comportamento das pessoas. Seja em festas ou manifestações no exterior, não nos podemos juntar, mesmo com máscaras”, afirmou a Directora-Geral da Saúde.

As manifestações “contra o racismo”, que sob o lema “Vidas Negras Importam” se realizaram em Lisboa e noutras cidades do País, tentavam replicar em Portugal os protestos que ocorrem nos Estados Unidos, na sequência da morte do cidadão afro-americano George Floyd, que morreu em 25 de Maio depois de um agente da Guarda o ter manietado pressionando-lhe o pescoço com um joelho durante vários minutos, numa operação policial em Minneapolis, no Minnesota, no passado dia 25 de Maio.

Em Lisboa, e segundo dados da PSP, a manifestação contra o racismo teve entre cinco e sete mil participantes. Noutras cidades, com destaque para o Porto e Coimbra, também se realizaram manifestações com igual motivação, mas com um número menor de aderentes.

Entretanto, a Associação Sindical dos Profissionais de Polícia apresentou uma queixa no Ministério Público contra manifestantes que apelaram ao ódio (ver peça em caixa). À hora de fecho desta edição, a PSP havia já identificado várias pessoas responsáveis por um cartaz que incitava directamente à violência contra polícias. 

Apoio da extrema-esquerda

O único partido que apoiou a manifestação em Lisboa foi o Bloco de Esquerda. A iniciativa pertenceu à associação SOS-Racismo, a que se juntaram outras organizações da extrema-esquerda e outras da raiz anarquista. Enfim, um caldo de cultura perigoso onde só a excelente gestão da polícia permitiu contornar os incitamentos ao ódio, evitando qualquer desacato.

O apoio dos bloquistas foi explícito. De tal modo que, à passagem pela sede do BE, quase a chegar ao Martim Moniz, os manifestantes saudaram Catarina Martins com palmas e gritos de “o povo unido jamais será vencido”. Da varanda do edifício, Martins acenou. Entre outros dirigentes do BE, a deputada Beatriz Gomes Dias esteve também no desfile.

O caso da manifestação chegou ao Parlamento. Aí, o BE ficou isolado, sendo o único a defender que as manifestações contra o racismo foram “ordeiras e pacíficas”, apesar de admitir que o número de pessoas foi “muito superior” ao previsto pela organização. “Não podemos dizer que as regras não foram respeitadas”, afirmou a deputada do BE Beatriz Gomes Dias, em resposta a críticas das bancadas do PSD, do CDS e do Chega, que consideraram que as manifestações não cumpriram as regras de distanciamento social recomendadas devido à pandemia. Uma falta de cumprimento que ostensivamente pôs em risco a saúde pública.

Direita contesta manif

A Direita reagiu com força à falta do cumprimento da distância social na manifestação. O presidente do PSD, Rui Rio, criticou o Governo e questionou o critério para “permitir ajuntamentos” em tempos de pandemia do Covid-19, na sequência das “manifestações de esquerda”. 

Numa publicação no Twitter, Rio faz a pergunta e dá uma resposta em tom irónico: “Qual será o critério para o Governo permitir ajuntamentos? Funerais, futebol, missas, discotecas, desporto em geral, não! Comícios e manifestações de esquerda, sim! Esperemos que o vírus entenda aquilo que mais ninguém consegue entender”, lê-se no ‘tweet’.

Mais tarde, em entrevista à TVI, Rui Rio foi ainda mais directo ao afirmar que, se dependesse dele, não teria autorizado a manifestação. E adiantou: “Foi promovida por forças de esquerda, apesar de todos sermos contra o racismo. Ainda entendo na América, onde aquilo aconteceu; agora aqui, em Portugal, mas a que propósito? Ainda ficamos é racistas, com tanta manifestação anti-racista. Não noto isso na sociedade portuguesa, não há racismo na sociedade portuguesa”.

Também o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, considerou que existem “dois pesos e duas medidas” quando o Governo autoriza manifestações que “não cumpriram as regras de saúde pública” e, ao mesmo tempo, as empresas têm limitações devido ao Covid-19. “Este fim de semana assistimos a manifestações que foram autorizadas, e que não cumpriram as regras de saúde pública e sanitárias que foram decretadas, ao mesmo tempo que os ginásios têm que obedecer escrupulosamente às regras de limitação de espaços, que os restaurantes continuam a ter que garantir que essas normas sanitárias são cumpridas, que os nossos filhos não podem ir à escola nem praticar desportos colectivos, que as escolas estão fechadas”, afirmou.

O líder do CDS considerou que “o Governo começa a criar algumas divisões e fracturas na sociedade, que não são nada benéficas num período em que se esperava estabilidade e um aumento da confiança dos consumidores para que essa retoma da actividade económica se desse”.

Já André Ventura, líder do CHEGA, considerou uma “vergonha nacional” a “dualidade de critérios” do Governo, ao “proibir eventos públicos, alguns deles culturais e desportivos”, devido à pandemia, enquanto autoriza “manifestações, geralmente mais associadas à esquerda, a quem tudo é permitido e a quem nada é proibido”. ■