A China tornou-se a maior prisão de jornalistas do planeta

Hoje, se sabemos alguma coisa sobre o que verdadeiramente se passa na China, devemo-lo aos heróis desconhecidos que arriscam a sua liberdade, e por vezes a própria vida, para denunciarem ao mundo um dos mais ferozes regimes concentracionários de cor vermelha. Perseguidos, presos, torturados e “desaparecidos”, são os mártires anónimos da liberdade no “paraíso” podre do presidente Xi. Infelizmente, o Ocidente vem fechando os olhos ao que ali se passa – e em muitos casos os interesses falam mais alto, acabando o “mundo livre” por silenciar quem denuncia o horror chinês.

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O Dr. Li Wenliang, que morreu em consequência do novo Coronavírus em 7 de Fevereiro, foi repreendido pelo governo chinês, juntamente com sete outros médicos, por ter soado o alerta sobre o surto, logo em Dezembro de 2019. Wenliang foi acusado de “espalhar falsos rumores” e de “perturbar a ordem social”, e por conta das suas corajosas iniciativas foi detido e interrogado.

Três activistas chineses que actuavam na Internet “desapareceram” e tudo leva a crer que foram detidos pela polícia, acusados de guardar artigos que tinham sido apagados da Internet pelos censores chineses. Chen Mei, Cai Wei e a namorada de Cai “desapareceram” em 19 de Abril.

Poucos dias antes, o professor aposentado Chen Zhaozhi foi formalmente preso pela polícia de Pequim por “armar confusão e provocar distúrbios” ao proferir um discurso sobre a pandemia. O ex-professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim postou comentários na Internet afirmando que “a pneumonia de Wuhan não é um vírus chinês, mas sim um vírus do Partido Comunista Chinês”. 

Wang Quanzhang, advogado chinês defensor dos direitos humanos, que cumpriu uma pena de prisão de mais de quatro anos por “subversão contra o Estado”, ao deixar a penitenciária foi imediatamente colocado em “quarentena” – o que significa, pura e simplesmente, preso de novo.

Eles são apenas alguns dos mais recentes casos de dissidentes chineses que ousaram manifestar a sua apreensão quanto ao vírus que teve origem em Wuhan, marco zero da pandemia do Covid-19. De uma maneira ou de outra, todos “desapareceram”. 

Ou melhor: as autoridades comunistas chinesas fizeram com que “desaparecessem”, porque se tinham tornado demasiado incómodos ao divulgarem a verdade sobre o que aconteceu e sobre os esforços do regime chinês para esconder os factos.

Frances Eve, directora adjunta de pesquisas do grupo Chinese Human Rights Defenders, com sede em Hong Kong, empenhada na defesa dos direitos dos cidadãos, comentou: “Todo aquele que desaparece corre altíssimo risco de ser torturado com vista a forçá-lo a confessar que as suas actividades tinham cunho criminoso ou que ele tinha a intenção de causar danos à sociedade. Depois, a exemplo de casos anteriores, as pessoas desaparecidas são apresentadas e forçadas a confessar perante as câmaras da TV estatal chinesa”.

O jornalista chinês Li Zehua reapareceu recentemente, após ter “desaparecido” por dois meses enquanto investigava o encobrimento do Coronavírus de Wuhan. O regime chinês tornou-o dócil e silenciou-o. Contrastando com o tom de suas reportagens de Wuhan, o novo vídeo de Zehua mostra-o a tecer elogios ao regime que o deteve: “Ao longo de todo o processo, os polícias agiram civilizada e legalmente, deixando que eu repousasse e me alimentasse bem; eles cuidaram bem de mim; eu fazia três refeições por dia, sentia-me seguro diante dos guardas e assistia ao noticiário todos os dias”. O vídeo mostra a trágica consequência da repressão chinesa.

Nos seus relatos sobre Wuhan na véspera de ser preso, Zehua tinha um tom muito mais agressivo em relação às autoridades: “Não quero continuar calado ou fazer vista grossa e não dar ouvidos. Eu podia ter uma vida tranquila, com mulher e filhos, mas decidi denunciar o que se passa porque tenho a esperança de que os mais jovens possam como eu erguer-se contra a actual situação”.

Esses jornalistas chineses sabem que terão de pagar um preço terrível. Pequim acaba de condenar o jornalista Chen Jieren a 15 anos de prisão por «difamar o Partido Comunista Chinês», depois de a imprensa estatal ter divulgado a sua «confissão». A China, que se tornou a maior prisão de jornalistas do planeta, é hoje acusada de ter iniciado uma «era de censura total».

O «paciente zero» da repressão chinesa foi o Dr. Li Wenliang, oftalmologista, que soou o alerta do Covid-19 e que morreu aos 34 anos, aparentemente em virtude do vírus. Começou por ser detido pela polícia em Wuhan por «espalhar falsos rumores»; como insistisse em dizer a verdade, foi forçado a assinar um documento segundo o qual tinha «publicado mentiras». Horas depois de falecer, os Médicos pelos Direitos Humanos observaram que «censores do governo retiraram da Internet chinesa qualquer menção à sua morte».

Ai Fen, outra médica de Wuhan, chefe do Pronto-Socorro do Hospital Central daquela cidade, era outra das denunciantes que fez soar o alarme sobre o vírus em Dezembro de 2019. «Desapareceu» misteriosamente depois de ter criticado a censura às notícias sobre a epidemia. Desde o início de Abril que não é vista e ninguém ouviu falar mais sobre ela.

Chen Qiushi, jornalista que reportava de Wuhan, também está “desaparecido” desde Fevereiro. «Estou com medo, estou com o vírus na minha frente e atrás de mim está a polícia chinesa», assinalou Chen num vídeo datado de 30 de Janeiro. «Mas não esmorecerei enquanto estiver vivo, e continuarei com as minhas reportagens nesta cidade. Não tenho medo de morrer. Porque haveria de ter medo do Partido Comunista?».

Fang Bin, vendedor de roupas de Wuhan, cometeu o crime de contar «muitas» vítimas do Coronavíris embrulhadas em sacos de plástico. «É além da conta, são tantos mortos», salientou Bin num vídeo de 40 minutos sobre o surto do vírus. Também ele “desapareceu” de seguida. Bin filmou corpos empilhados num crematório. Dois meses depois, o mundo descobriu que a China havia mentido sobre o número de vítimas em Wuhan. Bin estava certo e Pequim teve de aumentar o número oficial de mortes por Coronavírus em Wuhan em 50%.

Zhang Wenbin, estudante universitário em Shandong, pediu publicamente ao presidente Xi para que renunciasse. «Quando vejo a coragem com que Hong Kong e Taiwan enfrentam o Partido Comunista, quero que a minha voz também seja ouvida», salientou ele. «Peço a todos que olhem para as reais intenções do Partido Comunista e se unam no sentido de derrubar esse muro». Também Zhang Wenbin “desapareceu”.

Ren Zhiqiang, magnata do sector imobiliário em Pequim, também “desapareceu” após descrever o presidente chinês Xi Jinping como «palhaço» e sugerir que o ataque do Partido Comunista à liberdade de expressão foi responsável pela propagação da epidemia.

A escritora Wang Fang, natural de Wuhan, vencedora do prestigioso Prémio Literário Lu Xun, tem sido alvo de toda a sorte de intimidações e ameaças de morte por ter publicado no Ocidente um diário sobre o que aconteceu na sua cidade natal. A China de hoje a lembra da Revolução Cultural, quando Mao Tsetung impôs o fanatismo e a obediência absoluta ao país e quando os dissidentes eram humilhados em público, mortos por uma espécie de esquadrão da morte ou forçados a cometer suicídio no meio da rua – afirma Lu.

Xu Zhangrun, professor de Direito na Universidade de Tsinghua, também está sendo investigado depois de ter publicado um texto com críticas à repressão do regime do presidente Xi. «Eu não sei o que farão a seguir», dasabafou o professor Xu. «Venho-me preparando mentalmente para isso já há muito tempo. Na pior das hipóteses, acabarei na prisão». No seu ensaio, Xu tece duras críticas a Xi Jinping e ao Partido Comunista. «A epidemia do Coronavírus revelou a podridão no núcleo central da governação chinesa», escreveu o professor, salientando ainda que o sistema chinês agora «valoriza o medíocre, o retardado e o cobarde» e que o pandemónio causado pelas autoridades que encobriram os primeiros sinais do vírus em Wuhan «infectou todas as províncias. A podridão aponta directamente para Pequim».

Amigos dizem que a partir do momento em que esses comentários foram publicados, a conta na rede social do professor Xu foi suspensa, o seu nome retirado da Weibo (plataforma chinesa de blogs) e que agora somente artigos de sites oficiais aparecem no maior motor de busca do país, o Baidu.

O destacado autodidacta, professor universitário e advogado de direitos humanos Xu Zhiyong, que pediu a Xi Jinping para que renunciasse (afirmando com coragem: «você não é suficientemente inteligente») também foi preso.

O activista pró-democracia Ren Ziyuan foi mandado para uma prisão administrativa por criticar a gestão do governo em relação à epidemia, segundo a Freedom House. 

Tan Zuoren, activista na Internet e ex-prisioneiro político, foi visitado inúmeras vezes pela polícia e teve a sua conta congelada na plataforma de rede social WeChat. 

O ex-professor Guo Quan também foi preso depois de publicar artigos sobre o surto, acusado de «incitar à subversão».

Todos estes corajosos dissidentes mostraram o quão perigoso é o regime comunista chinês. O PCC “é o maior e mais grave vírus de todos”, avisa o activista cego e dissidente Chen Guangcheng, agora refugiado nos Estados Unidos. «Já está na hora», salientou ele, «de reconhecer a ameaça que o Partido Comunista Chinês representa para toda a humanidade. O PCC reprime e manipula informações para se manter no poder com mais força ainda, independentemente do número de mortos». Ao que tudo indica, também, independentemente do número de vítimas por esse mundo fora.

Numa carta aberta divulgada no Ocidente por parlamentares, académicos, juristas e dirigentes políticos pode ler-se: “Como grupo internacional de personalidades públicas, analistas de políticas de segurança e observadores da China, solidarizamo-nos com os corajosos e conscienciosos cidadãos chineses, incluindo Xu Zhangrun, Ai Fen, Li Wenliang, Ren Zhiqiang, Chen Qiushi, Fang Bin, Li Zehua, Xu Zhiyong. e Zhang Wenbin, só para citar alguns dos verdadeiros heróis e mártires que arriscam suas vidas e a sua liberdade por uma China livre e aberta».

A carta foi assinada por Judith Abitan, directora executiva do Centro de Direitos Humanos Raoul Wallenberg; Lord Alton, da Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha; o historiador francês Jean-Pierre Cabestan, da Universidade Baptista de Hong Kong; Irwin Cotler, professor emérito de Direito na Universidade McGill e ex-ministro da Justiça e procurador-geral do Canadá; e Giulio Terzi di Sant›Agata, ex-ministro das Relações Exteriores da Itália, entre outros.

No passado, muitas pessoas no Ocidente achavam que a União Soviética era um paraí
so. Foram também necessários uns quantos heróis por detrás da Cortina de Ferro para nos informar sobre os gulags, a polícia secreta, a fome e a repressão, em suma, para nos mostrar que o céu, afinal, era um inferno. Entre esses heróis figuram o escritor checo Václav Havel, o cientista nuclear Andrei Sakharov, o escritor russo Alexandr Soljhenitsyn ou o físico alemão Robert Havemann, só para citar alguns. Eles pagaram a sua coragem com a prisão e o exílio, e até com as próprias vidas, como o filósofo checo Jan Patočka, que morreu após ser interrogado.

Analogamente, se hoje também sabemos algumas coisas perturbantes sobre a China, devemo-lo aos heróis “desaparecidos”. Infelizmente, na maioria dos casos, optamos por abandoná-los. Pouquíssimas pessoas no Ocidente livre criticam abertamente as autoridades chinesas e pedem a libertação desses grandes homens e mulheres. Pela sua indiferença de hoje, o Ocidente pagará muito caro no futuro.

A Universidade de Queensland, na Austrália, que tem relações estreitas com a China, está neste momento tentando aplicar medidas disciplinares (incluindo a possível expulsão académica) ao estudante Drew Pavlou por ele tecer críticas a Pequim. Será que já estamos no Ocidente a fazer o jogo de Pequim reprimindo a dissidência?

A Bloomberg News censura artigos que porventura possam irritar a China e revelar ao mundo a fortuna pessoal do presidente Xi. Desde há algum tempo, a União Europeia vem aplicando paninhos quentes sobre as críticas à China. Por exemplo, quando um recente relatório sobre as graves responsabilidades das autoridades comunistas chinesas na ocultação de informações sobre a pandemia foi “abafado”, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, foi obrigado a confessar que a China havia «pressionado» Bruxelas.

«Nós somos praticamente os últimos resistentes», lamentou Liu Hu, jornalista detido por quase um ano por investigar políticos corruptos. «Por este andar, não vai sobrar ninguém para contar a verdade”. Até parece que a liberdade de pensamento é mais valorizada entre os ousados dissidentes da China do que em muitos círculos do Ocidente.

GIULIO MEOTTI
Jornalista e Escritor, Editor de Cultura do diário italiano ‘Il Foglio’© GATESTONE INSTITUTE