Agora, um pouco de política
Perante a grandeza do que está em jogo, as questiúnculas da política partidária ficam reduzidas à sua verdadeira dimensão: apenas cortinas de fumo por detrás das quais se movimentam os principais actores. Ainda assim, é pela política que podemos ler os sinais do que realmente se passa nos bastidores.
O “memorando de entendimento” entre a Frelimo e a Renamo estipulou o cessar-fogo (sobretudo na província de Sofala, onde os guerrilheiros têm o seu quartel-general), a concessão de uma amnistia para “acções criminosas” (já concedida, para não se perder tempo), a admissão de observadores militares estrangeiros para monitorizar o processo de integração das tropas da Renamo nas forças armadas e na polícia e, finalmente, o estabelecimento de uma trégua que permita preparar as próximas eleições simultâneas de 15 de Outubro: de uma assentada, os moçambicanos elegerão o presidente da república, os deputados ao parlamento e os representantes provinciais.
As eleições legislativas realizam-se pela quinta vez em Moçambique desde que, em 1990, a aprovação de uma Constituição multipartidária pôs oficialmente fim ao regime de partido único.
Um macua contra um ndau
Os resultados eleitorais, valendo o que valem, só serão interessantes como indicador da força negocial relativa dos dois maiores partidos, Frelimo e Renamo, embora exista também expectativa quanto ao desempenho do MDM. As poucas sondagens até agora conhecidas indicam uma tendência para a vitória da Frelimo, mas são inconclusivas quanto à capacidade da Renamo e do MDM para aumentarem o seu eleitorado.

Para já, a Renamo obteve um pequeno trunfo no sorteio da disposição dos partidos nos boletins de voto: tanto nas presidenciais como nas legislativas, o “partido da perdiz” surgirá ao cimo do boletim, no primeiro quadrado em que a mão incerta dos eleitores terá tendência para inscrever a cruz do voto.
Os resultados são imprevisíveis, tanto mais que, para além da Renamo, da Frelimo e do MDM, 27 outros partidos, coligações e grupos de cidadãos disputam as eleições, o que poderá pulverizar excessivamente o voto. No entanto, apenas os três principais partidos estão em condições de disputar o escrutínio em todos os 13 círculos eleitorais.
A Frelimo já anunciou o seu candidato às presidenciais: Filipe Jacinto Nyusi, um maconde de 55 anos oriundo da região de Mueda que estudou engenharia mecânica na Checoslováquia (mas também no Reino Unido), ensinou na Universidade de Nampula e trabalhou na Índia, na África do Sul, nos Estados Unidos e nos Caminhos de Ferro de Moçambique antes de se tornar ministro da Defesa e membro do comité central do partido governamental.
Afonso Dhlakama, o candidato da Renamo, nasceu há 60 anos em Sofala, numa família importante da etnia Ndau. Foi soldado do Exército Português, militou na Frelimo e ascendeu à presidência da Renamo, de que foi co-fundador, após a morte do primeiro líder da organização, André Matsangaíssa, caído em 1979 num confronto com a Frelimo.
Chefes
Quem conhece a sociedade moçambicana tradicional sabe que, em muitos aspectos, o comportamento das populações depende do carisma dos chefes. Por isso, o processo de pacificação em curso será inevitavelmente condicionado pelas palavras e pelos actos dos dois principais protagonistas políticos: Armando Guebuza e Afonso Dhlakama.
O presidente Guebuza apresenta-se, para já, com o discurso paternal e indulgente do grande chefe que perdoou com magnanimidade e espera agora o reconhecimento devido ao “pai da paz”. Mas as crescentes ligações entre o círculo do poder e os potentados económicos britânicos, norte-americanos e sul-africanos aconselham moderação e pragmatismo: inimigos, inimigos, negócios à parte.
O líder da Renamo, sempre desafiante e provocador, já anunciou que não irá a correr a Maputo para ser fotografado com Guebuza no flagrante da reconciliação: “por razões de segurança, isso não será possível”, disse Dhlakama, falando por videoconferência da mata da Gorongosa. Mas já vai preparando o seu regresso, se possível triunfal: “Quando chegar a altura certa, entrarei num carro e irei a Maputo, Inhambane, Nampula, Xibabava ou Beira”. E o seu discurso é o do chefe poderoso a quem basta levantar um dedo para pôr Moçambique outra vez em pé de guerra, se a música não lhe agradar.
Mas, também aqui, Dhlakama terá de sobrepor o pragmatismo à quimera política. Os informadores d’O DIABO em Maputo assinalam as pressões que os tradicionais aliados da Renamo (em Itália, na Alemanha e nos Estados Unidos) vêm exercendo sobre o líder rebelde para que seja razoável e permita o desenvolvimento de negócios de que também acabará por beneficiar. Se se portar bem, claro.




