Publicado a 27 de Janeiro

Os extremistas rejubilam: o partido “Coligação das Esquerdas Radicais”, mais conhecido como Syriza, venceu as eleições do último Domingo na Grécia. Mas em breve serão confrontados com as duras realidades da vida…

Como se previa, os eleitores gregos escolheram o Syriza para os governar nos próximos anos. Mas muitos dos extremistas que hoje cantam vitória vão ficar, a breve trecho, desiludidos com a escolha: o governo de “bloco de esquerda” que elegeram vai ter de transformar-se, inevitavelmente, num “partido socialista” obrigado a negociar com Bruxelas. A verdade é que o Syriza não poderá pôr em prática aquilo que pregava até há poucos dias. E tem plena noção disso.

A Grécia vive momentos de horror económico. O desemprego permanece no valor catastrófico de 27%, os ordenados estão em queda, o tecido social está a desagregar-se rapidamente. O PIB grego não pára de cair desde o dealbar da “grande recessão” e o país vai agora no seu sétimo ano consecutivo de profunda depressão.

A economia grega perdeu 14% do seu valor total só entre 2011 e 2012, mas o governo pró-alemão de Atenas, inábil, só soube atirar mais achas para a fogueira com um programa de austeridade que sufocou a economia e agravou a crise.

Os radicais do Syriza, partidários do “quanto pior, melhor”, esfregaram as mãos e encheram as ruas com manifestações. O deficit de 2013 chegou aos 12,2% (em comparação, Portugal ficou-se pelos 4,9%) e a dívida atingiu 176% do PIB em 2014.

A crise grega ultrapassa, em muito, a crise europeia. Ficou a dever-se, antes de mais, à irresponsabilidade dos governantes do “centrão” que falsificaram constantemente os dados económicos do país.

A primeira grande fraude consistiu em mascarar os números da dívida e do deficit para permitir a entrada do país no Euro. Depois de apetrechados com a nova moeda, os políticos gregos puderam contrair dívida a preços muito baixos e, tal como em Portugal, houve uma festa de esbanjamento que culminou com a organização das caríssimas Olimpíadas de Atenas.

A irresponsabilidade foi escondida por métodos “criativos” de contabilidade, razão pela qual o deficit de 2009 foi revisto várias vezes, descobrindo-se que na verdade não era de 6%, mas sim de 15%.

Quando os gregos mais precisavam do Estado, concluíram que ele estava falido. Iludidos pela mensagem utópica da esquerda, os gregos deram então uma maioria absoluta ao “Movimento Socialista Pan-Helénico”, mais conhecido em Portugal por PASOK, ou seja, o “PS” grego.

O problema é que o “PS” grego só sabia usar a táctica adoptada pelos partidos socialistas e social-democratas europeus durante o tempo das “vacas gordas”: prometeu mundos e fundos, esperando contrair dívida para pagar os votos.

Só que o crédito externo secou, e tanto Berlim como Bruxelas adoptaram uma postura firme, levando a que os socialistas locais não conseguissem cumprir quase nada daquilo que prometeram em 2009.

Foram aniquilados nas eleições de 2012, onde perderam quase todo o seu eleitorado para os conservadores do “Nova Democracia” e para os radicais do “Syriza”, uma espécie de “Bloco de Esquerda” grego. Agora, em 2015, os radicais de esquerda colhem os frutos nas urnas. E tudo indica que seguirão o caminho do PASOK: muitas promessas, a mesma governação de sempre.

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Promete agora, nunca cumpras

“First we take Manhattan, then we take Berlin” (primeiro tomamos Manhattan, depois tomamos Berlim). Foi com este excerto de uma canção de Leonard Cohen que o líder do Syriza convidou o líder do “Podemos” Espanhol a subir ao palco durante o último congresso pré-eleitoral do partido grego.

A mensagem que queriam passar ao público era clara: “votem em nós e nós faremos frente à Alemanha”. O problema é que a União Europeia não se resume à Alemanha: os restantes países da União Europeia poderão ter pouco interesse em apoiar uma mudança de rumo tão radical como o Syriza deseja.

Este partido quer a imediata renegociação da dívida de forma a não pagar metade do valor que o país ainda deve. Este é um negócio extremamente prejudicial para os Estados cumpridores, como Portugal.

O nosso país foi obrigado, tal como todos os outros, a contribuir com uma parcela para os vários resgates financeiros gregos; agora, se o novo governo de Atenas decidisse não pagar, Portugal seria penalizado, no próximo ano, com um buraco-extra de 1,2 mil milhões nas suas contas.

No total, a Grécia deve 254 mil milhões de euros aos Estados da União Europeia, e o Syriza quer apenas pagar metade dessa verba. Se assim acontecesse, o calote grego praticamente alcançaria a dimensão de toda a nossa economia nacional. Estarão os vários países europeus dispostos a abdicar de tanto dinheiro?

Aqui, as opiniões dos técnicos dividem-se. Há quem pense que um “perdão” parcial da dívida grega não é admissível, dada a possibilidade de risco sistémico que um “default” grego acarreta. Mas há também quem considere que, para além do dinheiro emprestado pelos vários Estados (cuja metade pode já estar perdida), não existe risco suplementar, uma vez que ao longo dos últimos anos os bancos e as empresas europeias foram-se livrando da dívida e património que detinham na Grécia.

No caso português, em 2009 os nossos bancos podiam perder 9,8 mil milhões de dólares em caso de uma bancarrota grega; hoje, a perda seria de “apenas” 403 milhões.

Um valor pesado, mas não catastrófico para as entidades envolvidas. O responsável pela estratégia de dívida do gigante financeiro Alemão Commerzbank, David Schnautz, considerou mesmo que Portugal poderia ser quase imune aos efeitos da possível irresponsabilidade radical.

Austeridade, sim, mas de esquerda…

Assumindo que a União Europeia aceitaria o calote, mesmo dentro do Syriza há quem acredite que Tsipras nunca conseguirá colocar todo o seu programa utópico em funcionamento. Giannis Dragasakis, o nome mais consensualmente apontado como provável ministro das Finanças, admite que, mesmo com a renegociação da divida ou com um calote parcial, as reformas estruturais exigidas pelos credores teriam de continuar.

Note-te que aqui já temos uma mudança de narrativa: o que há dias era “austeridade desumana” já passou a “reformas estruturais”…

O problema é clássico: ao aperceberem-se de que vão ser chamados a governar, a assumir responsabilidades, vários dirigentes do Syriza começam a admitir que as contas do programa do partido não fazem sentido. Tsipras prometeu restaurar todos os subsídios e pensões para os níveis de 2008, algo que iria custar ao país mais de 12 mil milhões de euros.

Infelizmente, o deficit continua fixo nos 12%, logo não há qualquer margem orçamental para cumprir a promessa. Políticos como Dragasakis sabem-no, como o sabe Tsipras, possível futuro primeiro-ministro.

A inevitável “domesticação” do Syriza não é apenas uma possibilidade: já está em curso. Há escassos meses, o partido ainda defendia a pés juntos a saída da Grécia da União Europeia e do Euro e a recusa absoluta de pagamento da dívida. Quando perceberam que provavelmente seriam governo, os dirigentes do Syriza recuaram: a pureza ideológica, pelos vistos, está reservada para quando se é oposição.

Hoje, essa saída (apelidada nos mercados mundiais como “Grexit”, mistura de “Greece” e “exit”) parece quase impossível, sobretudo depois de Mário Draghi ter carregado no botão da “bazuca” dos incentivos monetários. Certamente que os radicais não irão recusar o bom e suculento dinheiro europeu que aí vem.

Muda o disco, toca o mesmo.

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