O processo de nomeação dos candidatos à presidência dos Estados Unidos está praticamente concluído. Donald Trump, o controverso magnata de Nova York, vai disputar o cargo mais poderoso do mundo com a antiga primeira-dama, Hillary Clinton. Os meios “bem pensantes” continuam a dizer que Trump vai ser esmagado no dia da eleição. É possível. Mas tudo está ainda em aberto.

Trump não parte de uma situação fácil. Segundo as sondagens, caso as eleições se realizassem hoje, Hillary Clinton venceria facilmente. No entanto, os Media portugueses estão a traçar um cenário muito mais negro do que o revelado por essas mesmas sondagens. Neste momento, Trump conseguiria 191 votos eleitorais, mais do que os alcançados por John McCain em 2008 e, contrariamente ao que tem sido propalado, nem seria das piores derrotas eleitorais da história eleitoral dos EUA. Mas Trump não deixa de estar longe dos 270 votos eleitorais necessários para vencer a eleição, e o caminho para diminuir essa diferença não se afigura fácil.

Trump é impopular com o público em geral: quase dois terços do eleitorado têm uma opinião desfavorável do candidato republicano. No entanto, Hillary Clinton é quase tão impopular como Trump: mais de 55 por cento dos americanos têm uma opinião negativa da antiga secretária de Estado. É também pouco referido que Trump tem subido constantemente nas sondagens. Em 2015, a diferença entre o empresário e Clinton ainda era de 20 pontos percentuais, hoje está nos 6 pontos percentuais.

No entanto, Trump terá de determinar de uma vez por todas qual é a sua mensagem, visto que o candidato já defendeu determinados pontos de vista e o seu contrário com poucos dias de diferença. Aliás, Donald Trump já foi um democrata que em tempos apoiou a sua adversária. Para vencer uma eleição geral terá de conquistar uma parte dos 42 por cento dos americanos que se declararam “independentes” no registo partidário, mas o programa de Trump é vago e muitos comentadores consideram que se baseia apenas no que o candidato considera que lhe concede mais atenção.

Após a convenção do seu partido, em Junho, Trump vai receber um ‘briefing’ dos serviços de informação dos EUA para conhecer a situação política e económica detalhada do país que poderá vir a liderar, e talvez aí comece a especificar melhor as suas ideias, sob pena de ser arrasado por Clinton, que tem uma experiência de governo muito mais extensa.

Problema latino

A proposta de proteccionismo económico de Donald Trump é muito mais popular nos EUA do que é divulgado por terras lusitanas. Embora historicamente os dois principais partidos (Republicano e Democrático) tenham concordado com o comércio livre e globalizado, mais de 65 por cento dos norte-americanos apoiam restrições às importações para salvaguardar empregos nos EUA e 82 por cento afirmam que prefeririam pagar mais por um produto feito nos EUA.

Um estudo realizado pelo grupo “Working America”, associado ao sector laboral, revela que existem níveis de apoio muito elevados a Trump entre a classe trabalhadora, no que é chamado “a cintura da ferrugem”, o antigo centro industrial dos EUA, onde muitos dos empregos anteriormente bem remunerados foram enviados para a China. Embora as circunscrições da “cintura” tenham votado de forma fiel no Partido Democrático nas últimas eleições, se Trump conseguir virar estes Estados para o seu lado conquistará um grande número de votos, devido à grande concentração demográfica.

Mas a falta de apelo do candidato entre os latinos é um problema que lhe pode impedir o caminho para a Casa Branca. Apenas 12 por cento dos hispânicos têm uma opinião positiva de Trump, o que coloca Estados muito importantes, como a Florida, possivelmente fora do seu alcance caso não consiga inverter essa tendência. A proposta de construção de um muro na fronteira com o México, país que o candidato descreveu como estando repleto de “violadores”, não ajuda a sua causa.

Caso consiga melhorar as intenções de voto em apenas 5 por cento, Trump conseguirá não só vencer a Florida, como também a Carolina do Norte e o Ohio, ficando a apenas 17 votos eleitorais de se tornar Presidente. No total, Trump terá de conseguir uma melhoria de 10 pontos percentuais nas sondagens para alcançar a vitória. Esse resultado dar-lhe ia a vitória em Estados de grande dimensão como a Virginia e a Pensilvania, num total de 305 votos eleitorais. Mas, para tal acontecer, o candidato republicano tem de apelar a um público muito mais diverso do que aquele que já conquistou nos últimos meses.

Partido dividido

A questão é: estará o seu próprio partido disposto a dar-lhe todo o apoio de que ele precisa, caso mantenha o seu actual projecto de governo? Um grande segmento da direita americana considera a ideia de Trump de deportar 11 milhões de pessoas em apenas 2 anos como sendo irrealista (embora não falte quem não goste da ideia apenas porque, para conseguir concretizar o seu objectivo, Trump teria de contratar mais 160 mil funcionários públicos). O impacto total nas contas publicas seria de milhares de milhões de dólares, mas Trump prometeu baixar impostos e diminuir o défice, o que, segundo os conservadores, se afigura como uma proposta que não faz sentido face a um aumento tão brusco de despesa.

O famoso muro que Trump deseja construir também teria um custo económico bastante elevado. Além disso, os republicanos não querem afastar os hispânicos, que culturalmente são conservadores (os descendentes de cubanos foram em tempos dos maiores apoiantes da direita norte-americana) e poderão determinar se o Partido Republicano perde ou mantém o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes. Hillary Clinton, uma candidata centrista, certamente irá tentar atrair os republicanos moderados para o seu lado, possivelmente com sucesso.

Tanto Bush pai como Bush filho, os únicos dois ex-Presidentes dos EUA do Partido Republicano que ainda estão vivos, recusaram liminarmente apoiar Trump, bem como os anteriores candidatos à Presidência e vários congressistas e senadores republicanos. O Presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, também ainda não lhe concedeu o seu apoio, que será essencial para mostrar que o possível novo Presidente teria capacidade para trabalhar com o poder legislativo. No entanto, Paul reuniu-se recentemente com Trump e afirmou que a reunião correu de forma positiva.

O precedente de Reagan

Não seria, no entanto, a primeira vez que um candidato vencia as primárias nos EUA com uma proposta política que depois suavizaria durante a campanha eleitoral propriamente dita. Em vários aspectos, Trump poderá estar a tentar copiar Ronald Reagan, cujo lema de campanha também era “Let’s Make America Great Again”.

Em 1980, Ronald Reagan era igualmente considerado um extremista de direita, mas eventualmente moderou as suas posições, e até aprovou uma das maiores amnistias de sempre em relação à imigração ilegal. No início da eleição desse ano, também estava com 10 pontos percentuais de desvantagem em relação ao então Presidente Jimmy Cárter. E acabou por vencer com quase 500 votos eleitorais (o total de votos disponíveis é 538)…

O magnata de Nova York ainda tem um percurso para a Casa Branca, e os democratas fariam mal em menosprezá-lo, tal como fizeram os oponentes de Trump nas primárias.