João Havelange: o pai do futebol que passou das multidões para os mil milhões

O futebol desde os anos 1930 é considerado o desporto das multidões, dominando e empolgando especialmente os povos latinos. A importância como atracção e o poder de propaganda levaram o Duce a promover em 34 a Taça do Mundo em Itália, onde o país foi campeão.

Mas a transformação num negócio bilionário, envolvendo muito dinheiro ao redor do mundo, deve-se a um brasileiro, João Havelange, que dirigiu a Confederação Brasileira de Futebol – depois Desportes – por 14 anos. A ele, mais do que ninguém, o Brasil deve o tricampeonato conquistado durante a sua gestão.

Este brasileiro, filho de belgas, viveu cem anos. Foi campeão de futebol juvenil no “Fluminense” e atleta olímpico em 1936, como nadador, e em 1952, no pólo aquático. Foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique, por Portugal e pela Suécia.

Empresário, foi director executivo da Viação Cometa, que fazia a ligação rodoviária entre Rio, Minas e São Paulo nos primeiros autocarros de luxo, ainda importados dos EUA. A empresa hoje pertence a outro grupo, mas talvez seja a marca de maior prestígio no sector.

Mas o sucesso não se perdoa. A sua relevância pessoal e presença social, empresarial e no desporto mundial incomodaram os frustrados e ressentidos. Talvez o seu erro tenha sido a permanência por muito tempo em altos cargos. Na liderança do futebol brasileiro ficou 17 anos e ao assumir a FIFA, em 1975, manteve-se em funções por 24 anos, tendo, ao sair, sido nomeado presidente de honra da entidade.

Justamente no ocaso da vida foi alvo de um livro de um jornalista americano que o acusava de corrupção, dando argumentos aos que queriam apagar seu longo reinado no futebol, quando o desporto se tornou um grande negócio para clubes, jogadores, técnicos, “media” em geral e fabricantes de material desportivo. Uma das acusações sofridas foi em função de sua amizade com a família detentora da marca “Adidas”. Agora, um documentário procura envolver o grande senhor em corrupção. Certamente houveram casos, mas não uma organização com este fim como é apresentado. Inveja do realizador, do líder, do homem vitorioso e de muita categoria pessoal.

Havelange foi por 40 anos membro do COI, um dos dois únicos brasileiros a ocupar este cargo. O outro foi Carlos Arthur Nuzman, a quem o Brasil deve por ter sediado as Olimpíadas de 2016. Na mesma linha de não se perdoar o sucesso, Nuzman também sofreu ataques e acusações em que a grande vítima foi o desporto e não ele.

Na Selecção Brasileira, por exemplo, apenas quatro jogadores ganham menos de um milhão de euros por ano de salário. Uma Taça do Mundo passou a movimentar muitos mil milhões. Isso não ocorria antes da gestão de João Havelange, que certamente fez por merecer 24 anos no comando da FIFA. Já os seus detractores usam de sua grandeza para ter uns minutos de glória. O futebol tem problemas em todo mundo, o noticiário é rico em escândalos. Mas Havelange foi diferente, pois fez muito pelo desporto em todo mundo.

Mas o mundo pode ser cruel. Havelange morreu aos cem anos, em 2016, durante as Olimpíadas. Nenhuma palavra, nenhum minuto de silêncio em sua homenagem.

Como diz o jornalista Vicente Limongi, “Havelange recebeu injusta ingratidão”.

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