Um Adolfo Casais Monteiro, por Agostinho da Silva (III)

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Sendo que, logo de seguida, Agostinho da Silva assinala uma diferença de percursos entre os dois: “Nisto nos dividíamos, eu e Casais. O indo-europeu e mau conselheiro político — embora fosse a República a deusa de Teixeira Rego —, talvez, por outro lado andasse eu muito sob a influência de Goethe, coisa de que me curei depois, e prezasse sobre tudo a Ordem, com muita impaciência perante as fraquezas e os compromissos dos políticos e as injustiças que a cada momento via praticadas, o que já não era muito goetheano; o nosso poeta e crítico temia principalmente a ditadura que se aproximava e que, apesar de tudo, era apenas militar, quando o que realmente ameaçava o País era o obscurantismo coimbrão e o mesquinho espírito do quintal das couves. Quando tudo se decidiu, fiquei eu com a tropa, ele com a Constituição. Menos de um ano depois, entrei na Seara Nova, e tive o gosto de ser demitido do serviço público ainda antes de Casais Monteiro; onde iria o Goethe!/ Com Espanha, França e outras aventuras, perdi de vista Casais, que entrara na Presença, andava ensinando e fazia política (…).”.

Já no Brasil – para onde Agostinho da Silva partiu em meados da década de quarenta e Adolfo Casais Monteiro uma década mais tarde –, recorda Agostinho a presença de Casais na Universidade da Bahia: “Casais chegara para ensinar na Faculdade de Filosofia, na Cadeira de Hélio Simões, e na Escola de Teatro da Martim Gonçalves viera eu propor a Edgard Santos que se fundasse aquele Centro de Estudos Afro-Orientais que iniciou a política africana do Brasil e que talvez tivesse feito o mesmo com o Oriente — se trabalhou com o Japão e os Árabes – se o Presidente Jânio [Quadros], que tão bem entendeu o Centro, não tivesse, por outro lado, deixado de reconduzir o Reitor no cargo de que jamais deveria ter sido apeado. Em 59, porém, só o Reitor me acompanhou na ousadia e praticamente se trabalhou a ocultas da Universidade, que talvez derrubasse o Centro se o tivesse sabido a funcionar; o escritório era no subterrâneo da Reitoria e, para disfarçar a minha presença, inventaram-se na Escola de Teatro aulas de filosofia, não sendo esta a última vez em que havia de ensinar o que não sei; coisa muito útil, porque se aprende muito estudando com aluno.”.

E acrescenta, de forma particularmente impressiva: “Aí aprendi ainda a conhecer a generosidade humana de Casais, o seu entusiasmo por poder ajudar os escritores locais, o seu gosto de relações, a real identificação com que no Dois de Julho acompanhava, com as autoridades e o povo, o cortejo cívico dos Caboclos, muito admirado — mas não tinha de quê – de que um catedrático português, por esse tempo em Salvador, considerasse a festa como ofensiva para os seus brios de patriota dilecto do regime, não das Musas. A todos, alunos ou não alunos, animava e ajudava Casais, empresa em que naturalmente, como sempre sucede, gastava às vezes óptima cera com péssimos defuntos. Quando vinha a desilusão, que muito o feria, ou ficava dois ou três dias de papo para o ar, estendido na cama, meditando nas injustiças do mundo, e assim o encontrou Jorge de Sena, que tanto admirava Casais, quando em 59 desembarcou no Brasil (…)./ Depois o vi cansar-se de tanto folclore bahiano (…), enquanto abalava para o Sul, a buscar seu jornal, ou Faculdade ou editor (…) naquele exílio que era, simultaneamente, forçado e de gosto; não suportaria Portugal e lhe era difícil viver sem Portugal. Entre os contrários balançava, sem que tivesse chegado a alcançar que se unem as várias geometrias naquela que não tem dimensão alguma.”.

Com Votos de um Bom Natal a todos os compatriotas lusófonos…