Lições do Coronavírus

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Esta surpreendente pandemia que assola o mundo, inimaginável de acontecer nestas proporções em pleno século XXI, serve de lição para as elites dirigentes mundiais, sejam públicas ou privadas. Prova que o económico, o social e o sanitário andam de mãos juntas. Paga-se, com alto risco, as negligências com o saneamento básico, na Ásia, África e América Latina, por exemplo, considerando que boa parte da população destes continentes não é servida por água e rede de esgotos de qualidade. Terreno fértil para as doenças, que custam caro aos Estados já fracos economicamente.

Na Europa, serviu para mostrar a importância de políticas públicas para a saúde e o papel fundamental da medicina privada para aliviar a rede pública e até a socorrer em momentos difíceis. E dos laboratórios de pesquisas, nas universidades e indústria farmacêutica, na busca de vacinas e medicamentos apropriados para situações adversas. Esta pandemia não respeitou classes sociais nem países. Pelo contrário, vem marcando presença nas camadas mais altas dos países, sem poupar mandatários e herdeiros, como na Inglaterra.

O debate sobre conciliar as medidas restritivas com a manutenção mínima da actividade económica foi outro dado positivo. Pandemia é estado de guerra, e numa guerra se sabe que o combate eficiente não isenta de perdas de vidas. O desembarque na Normandia, decisivo na última guerra, custou milhares de vidas aos americanos, o que já estava previsto quando do planejamento da operação.

Percebe-se neste debate, lançado pelos presidentes Trump e Bolsonaro, forte conteú-
do ideológico nas críticas. E naturalmente vindas da esquerda, que vê nesta oportunidade a chance de minar o capitalismo, quebrando empresas e provocando inflação, em nome de uma preocupação humanitária.

Na verdade, as quarentenas precisam ter prazo. No Brasil, por exemplo, são quarenta milhões de trabalhadores informais, motoristas de táxi e aplicativos, manicures, cabeleireiros, chaveiros, funcionários do pequeno comércio, costureiras, garçons de restaurantes, vendedores ambulantes e outros. Ou seja, muita gente para poucos recursos a serem distribuídos. Nas profissões liberais, advogados, médicos, dentistas, psicólogos, arquitectos e professores particulares formam um forte contingente nas classes médias. A quarentena não pode, portanto, ser indefinida no tempo. Além de existirem, na maioria dos países, áreas não atingidas pelo vírus de maneira preocupante.

No mais, o colapso na mobilidade, na indústria e na agricultura, leva ao desabastecimento e ao mercado negro, que, como sempre, pune os menos favorecidos. Neste momento, o álcool gel, que andou sendo vendido por preços abusivos, não prejudicou nenhuma família rica, que paga o que for pedido. A cadeia produtiva é ampla, chega à logística e à ponta nas ruas das cidades. Logo, os dois presidentes não são, como certa imprensa e certos políticos tentaram fazer crer, dois irresponsáveis. O brasileiro peca pela forma pouco hábil de abordar os assuntos, belicoso por natureza, mas isso não retira os fundamentos do que defende.

Por fim, essa crise toda serviu para despertar nas pessoas a solidariedade. São comuns os casos de ajuda a idosos, aos pobres, num mutirão de solidariedade que andava faltando num mundo consumista, e viu surgir uma nova classe de privilegiados, com recursos de origem espúria na manipulação dos orçamentos públicos e em actividades criminosas.

A humanidade vai sair melhor do que entrou nessa pandemia. ■