Lisboa, a capital da esquerda brasileira

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Os esquerdistas brasileiros são pragmáticos. Veneram os países bolivarianos, mas preferem os latinos de bom clima e boa qualidade de vida. Chico Buarque de Hollanda, entusiasta do 25 de Abril e que vem de receber o Prémio Camões, usufrui de sua fortuna, oriunda dos direitos autorais sobre livros e composições musicais, em Paris e em esporádicas passagens por Lisboa, onde tem público cativo. Declarou sua satisfação de receber, mesmo que virtualmente, o prémio de cem mil euros no dia 25 de Abril, quando Portugal teria se libertado da ditadura. Curiosa ditadura que nunca confiscou bens, não fechou fronteiras nem reprimiu cultos religiosos. Manteve apenas discreta censura, mas nunca ao ponto de impedir a entrada de publicações do estrangeiro. Coisas de que a burguesia finge não ter conhecimento.

Outro que se autoexilou em Portugal foi o talentoso actor, humorista, cineasta Pedro Cardoso, muito solidário ao proletariado, mas que preferiu demonstrar sua solidariedade à causa obreira em Cascais. O actor foi dispensado da Globo, depois do sucesso por anos de um programa humorístico líder de audiência.

Já o caso de Fafá de Belém é diferente, pois tem dupla cidadania, vive entre Portugal e Brasil e tem real amor aos dois países. Militante de esquerda, teve a coragem de apoiar Tancredo contra os radicais e sofreu na mão das patrulhas ideológicas. Acredita-se que hoje seja uma democrata de centro. Colocou seu talento a serviço do civismo, sendo a primeira cantora popular a cantar o Hino Nacional, no enterro e nas comemorações subsequentes às homenagens a Tancredo Neves, seu admirador. A tal ponto que fez de um irmão ministro de Estado para a Reforma Agrária, onde deu prosseguimento a envolvimentos suspeitos desde que foi director do Banco do Pará. Aliás, instituição que, ao que consta em investigações, sofreu prejuízos na gestão do pai e recentemente de um sobrinho, todos ligados aos políticos Barbalho, pai e filho. 

Caetano Veloso, hoje mais militante do que artista, com quase 80 anos, não abre mão de vindas anuais a Portugal, agora com os filhos, para facturar e falar mal do Brasil, que elegeu um presidente com 57 milhões de votos e que ele e seus companheiros acusam de não ser democrata.

Antes, nos anos 1960, foi a vez de curiosa viagem de Erico Verissimo a Portugal, acompanhado da mulher e do filho Luis Fernando, um jovem adolescente, narrada no seu excelente “Solo de Clarineta”. No livro, ele se apresenta como um bravo guerreiro promovendo palestras em Portugal contra o então regime, vigiado pela polícia política, durante um mês, em mais de dez cidades, sem, no entanto, ter sido molestado em nenhum momento. Verissimo, na ocasião, era o autor brasileiro mais vendido em Portugal. Contou as maravilhas da viagem a bordo do BMW do seu editor, sem, entretanto, narrar um facto de coação ao seu proselitismo de oposição. Nunca imaginou se esta excursão seria possível na então Cortina de Ferro.

Bem diferente de outros notáveis da cultura brasileira, viagens de puro amor a Portugal foram as de Ivon Curi, quase 20, em que o cantor, humorista e actor se apresentou, inclusive no Casino do Estoril, e acabou se casando com uma portuguesa, em Sintra. Era Ivone Freitas, com quem teve três filhos. Encontra-se belas canções e filmes de Ivon Curi no Youtube. E, claro, é sempre bom lembrar o grande Gilberto Freyre, que, inclusive, viajou pelos estados ultramarinos a convite do governo português e lançou o chamado luso-tropicalismo. 

Estranho um governo acusado de ser contra as mulheres e ter duas ministras; de ser contra os pobres e ter feito o maior projecto de protecção na pandemia, a quase 60 milhões de pessoas, de ter criado o décimo terceiro salário para os atendidos no programa social Bolsa Família – que atende a 12 milhões de brasileiros. Bolsonaro fala mal dos jornalistas, mas nunca processou nenhum deles, e é apontado como homofóbico quando isentou de impostos os remédios importados para o combate a SIDA. 

Pode não ser o melhor dos presidentes, mas certamente não está entre os piores. É honesto e pragmático. Não começou nenhuma obra, preferindo completar o estoque de governos anteriores, que passam de mil no país. Mesmo assim, não merece uma linha de simpatia nos Media locais e internacionais. Pode? ■