Pandemia do coronamarx

0
1301

A história sempre foi surpreendente. Só mesmo os marxistas para manterem a certeza do “determinismo histórico”, como registos do último século. Muitos factos que não seriam previsíveis; equívocos que podem ser atribuídos até a Deus, como o erro de Hitler de invadir a Rússia e repetir o drama napoleônico de pouco mais de cem anos antes. Caso não tivesse tido este gesto de loucura e ousadia, a Europa democrática e cristã poderia ter sucumbido ao nefasto regime que hipnotizou o povo alemão de maneira inexplicável. Berço de génios e benfeitores da humanidade, o país seguiu docilmente um verdadeiro monstro.

O notável pensador, intelectual, diplomata e político brasileiro Roberto Campos previu, durante décadas, que a União Soviética iria ruir em função da falência económica e da qualidade de vida de seu povo, e não pelas armas nem pelos apelos da democracia. E ficava impaciente com a demora.

Foi o que aconteceu a partir da derrubada do Muro de Berlim, em que a diferença gritante não era a falta de liberdade nem a repressão brutal, mas sim a constrangedora comparação com a vida dos que viviam do outro lado do Muro. Tivesse a Berlim Oriental um regime forte, uma ditadura, mas com a pujança económica e serviços que tinha o lado livre, não haveria ninguém querendo fugir para o outro lado.

Vivemos agora um outro momento surpreendente. A Cortina de Ferro foi derrubada, ressurgiram nações que passaram 70 anos dominadas, foi restaurada a liberdade de ir e vir e de empreender. Tudo parecia indicar um novo mundo, mais moderno, mais leve, menos tenso, em ambiente de paz e progresso. Mas não é o que tem acontecido, como se sabe.

O mais curioso é que o cerne da diferença entre aqueles dois mundos em confronto estava na economia, na liberdade de empreender, no mercado como regulador da qualidade e dos preços, no mérito como instrumento de ascensão profissional com igualdade de oportunidades. Sem carreiras construídas na militância partidária. Parece ponto pacífico que o mundo seria mais próspero e justo com menos intervenção do Estado, que já era forte no ocidente pelo trabalho incessante dos socialistas, que dominavam o mundo académico e cultural, deformando o pensamento das novas gerações. Vivemos a época em que o socialismo só seria abandonado aos 30 anos, três ou quatro anos após o período universitário, pela realidade do mundo capitalista, mais rico de oportunidades e mais voltado para o mérito do que as imposições do aparelhamento político do Estado ou de heranças que garantiam sucesso à incompetência.

Por causa do lado progressista e democrático do capitalismo é que, no pós-guerra, houve a mudança de mãos do dinheiro, que chegou ao novo milénio com um percentual mínimo de fortunas de terceira geração. Em todos os países, entre as maiores cem fortunas, a maioria já é de ‘self-made men’. Por outro lado, o acesso aos grandes centros de estudo foi alargado e a ascensão social se acelerou.

Mas em paralelo, inesperadamente, um significativo bloco de cidadãos, especial e curiosamente nas classes médias, permanece agarrado aos velhos dogmas e resiste, tendo como trincheira os ‘Media’ e a demagogia dos políticos que só pensam na próxima eleição e manipulam a desinformação popular.

Não se entende que tantas pessoas bem-intencionadas defendam empresas estatais, que se tornam ilhas de privilégios, gastos inconsequentes, casos de corrupção e de prejuízos que acabam sendo cobertos pelo povo em geral. Surpreende mais ainda que a sociedade de países com eleições livres não proteste pela inversão de salários, hoje superiores na função pública, na qual a produtividade é afectada pela “estabilidade”, que não acontece no setor privado. A crise da pandemia manteve servidores públicos com renda intocável, enquanto o cidadão comum, que não pertence a esta casta, viu o salário diminuir ou o emprego desaparecer. Ou, o pior, o seu pequeno negócio fechar as portas.

É preciso pensar nessas coisas. Vamos atacar o coronamarx. ■