Pandemia e guerra mudam economia

0
505

É muito bonita a evolução da informática, o sucesso das “startups”, as inovações na indústria. Mas a actividade rural, o campo, continua a ser vital para alimentar e gerar riqueza.

Os acordos Ucrânia-Rússia, em guerra, em torno da passagem da produção agrícola em direcção aos portos, mostram que sua importância está acima da guerra. E mais, na agricultura estão algumas das soluções para os combustíveis, como o etanol e os biocombustíveis, já em uso em boa parte do planeta.

A perda de importância política, por o eleitorado hoje ser mais urbano que rural, esconde um pouco a agricultura do noticiário e das avaliações económicas. Mas o preço da alimentação actualmente é um custo político de todos os governos e em todo mundo. Pouco se sabe, entretanto, sobre as potências que abastecem o mundo de produtos essenciais, apesar do impacto da guerra mais relevante estar na questão do suprimento energético para a Europa.

Uma curiosidade é que a produção de grãos no mundo está muito concentrada nos BRICS – que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, em que quatro dos cinco maiores produtores estão entre eles.

Os maiores nesse sector do mundo são a China, 600 milhões de toneladas de grãos este ano, sendo que mais de 200 milhões de arroz; Brasil, com cerca de 280 milhões de toneladas; EUA, com 230; Rússia, 130 e Índia. A Ucrânia tem boa presença, mas deve colher este ano pouco menos de 80 milhões de toneladas. Só de arroz, China, Índia e Indonésia, Malásia, Vietnam e Tailândia concentram boa parte da produção. Países como o Brasil e Portugal consomem quase tudo o que produzem de arroz no mercado interno. As frutas é que estão distribuídas em todo mundo actualmente, umas sazonais outras regionais. 

O Brasil, com um agronegócio robusto, através da sua empresa de tecnologia agrícola – Embrapa –, uma boa iniciativa do período militar, vem tendo sucesso nas experiências de plantar trigo em áreas tropicais, sendo que, neste ano, deve satisfazer metade das necessidades do mercado e espera ser auto-suficiente em dez anos.

Com estes anos de pandemia e guerra, outro sector em transformação é o dos fármacos. Verificou-se a dependência, com produção concentrada na China, Índia e Coreia do Sul, região com instabilidades e distante dos grandes centros consumidores. Os EUA já invertem a situação num programa fortemente apoiado com recursos públicos. As vacinas são a prova. E, claro, a dependência de “chips” de Taiwan, onde a tensão é permanente, não se justifica mais.

A observação que se impõe é a de que as agriculturas de maior produtividade e receita no mundo estão em países em que o Estado intervém pouco, limitando-se a facilitar o empreendedor com acessos logísticos e impostos razoáveis. Nos países de impostos altos e sem transporte de acesso aos mercados e a baixo custo o negócio torna-se inviável, o campo fica deserto e as cidades sobrecarregadas. No Brasil estão contratados mais de dez mil quilómetros de ferrovias pelo sector privado – caso não haja retrocesso político que afecte o ambiente para investir.

Os povos supostamente interessados e que precisam de estimular a criação de receita e emprego deveriam pensar duas vezes antes de votar.

Não parece ser hora para greves, diminuição de carga horária de trabalho, onerarão da folha de salários com mais impostos e taxas. Plantar mais, taxar menos! ■