Portugal na vida da elite brasileira

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As relações verdadeiramente fraternas entre Portugal e Brasil continuam mais sólidas na integração cultural, na literatura, na música, no destino turístico nas duas direcções do que nas políticas dos dois governos. A própria CPLP é um exemplo, pois, nestes anos todos, tem vindo a atrasar a integração económica, mesmo que lenta e gradual, que só agora foi levantada na cimeira de Luanda. Os presidentes José Sarney e Itamar Franco, do Brasil, e Mário Soares, de Portugal, foram os únicos a prestigiarem a criação deste órgão agregador dos povos de língua portuguesa.

Por um lado, Fernando Henrique, pela sua vaidade, não queria consolidar o que não foi sua criação e, por outro, havia um grande ressentimento com Mário Soares, pois este actuou junto à Internacional Socialista, social-democrata, para que o partido (PDT) de Leonel Brizola representasse o Brasil e não o seu PSDB. Soares também se queixava de FHC por não ter apoiado uma articulação que estava a fazer no sentido de eleger o embaixador José Aparecido, o entusiasta brasileiro da CPLP, como secretário-geral.

E, claro, justifica a CPLP a vontade dois povos que se identificam e estimam, desde as camadas mais humildes às suas elites, que se identificam independente dos governos, que fazem a integração real. E com relações afectivas e solidárias com a parte africana.

Na história da diplomacia – e da cultura – uma personalidade pouco lembrada, mas importante, foi Heitor Lira, que esteve três vezes em Lisboa na carreira, sendo que a última vez, em 1955, como embaixador. Heitor Lira, depois de reformado, escolheu Portugal para viver e morrer, em Abril de 1978. Lira foi um escritor e historiador importante, autor de uma biografia de D. Pedro II, filho de D. Pedro IV de Portugal, em três volumes. A obra, escrita em 1940 – parte da qual com pesquisas em Lisboa, onde o jovem diplomata integrou o grupo que veio para a Exposição do Duplo Centenário –, só não é a mais completa, uma vez que regista apenas como rumores o longo caso de amor entre o Imperador e a Condessa de Barral, título francês que ela acumulava com o brasileiro de Condessa de Pedra Branca. O romance só se tornou inquestionável com a entrega no final dos anos 1940, pela família da condessa de mais de 300 cartas trocadas entre eles, ao longo de mais de vinte anos.

Heitor Lira foi autor ainda de um livro sobre Eça de Queirós e o Brasil. O grande escritor, popular no país desde sempre, colaborador de jornais brasileiros, entretanto nunca teve oportunidade de conhecer o país. Mas o Brasil está presente na obra e brasileiros, como Eduardo Prado, entre os amigos mais chegados.

A exemplo de Heitor Lira, outros diplomatas brasileiros optaram por Portugal quando reformados, como os casos de Nemésio Dutra, Dário Castro Alves e, agora, de Fernando Fontoura, embaixador que terminou a carreira no Consulado Geral do Brasil em Lisboa. José Aparecido, quando vencido por grave doença, preparava-se para dividir seu tempo entre os dois países.

O abrigo em Portugal em momentos difíceis marcou a vida de personalidades como Plínio Salgado, líder dos integralistas brasileiros, que viveu oito anos em Portugal, e Juscelino Kubitscheck, que não apenas viveu, mas casou a filha mais velha, Márcia, e onde recebeu o seu até então adversário Carlos Lacerda. E a ligação integral de Negrão de Lima, que acolheu Marcelo Caetano quando de sua ida para o Rio e teve numa portuguesa, Fernanda Pires da Silva, o grande amor de sua vida.

Enfim, já estaria mais do que na hora dos governos seguirem o natural esforço comum de integração, a que não estariam excluídos os antigos estados ultramarinos, que poderiam com a maior aproximação recuperarem das perdas com os anos de guerra civil inspirada pela então União Soviética, representada pelos comunistas portugueses e os regimes corruptos instalados, depreciando a qualidade de vida de seus habitantes. ■