Problemas do dinheiro velho no Brasil (I)

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A questão do dinheiro, infelizmente, divide famílias, desperta disputas. Nem todos são previdentes a ponto de deixar tudo bem explicado. 

João Carlos de Almeida Braga, falecido ano passado, por exemplo, deixou tudo muito bem definido e arrumado e, ao morrer, aos 92 anos, nenhuma rusga entre seus filhos e a segunda mulher, sua companheira nos últimos 22 anos. 

João Carlos trabalhou praticamente até o fim da vida, tendo criado o melhor empreendimento imobiliário na região serrana do Rio, Quinta do Lago, em Itaipava. 

Viveu bem entre Rio, Itaipava, Lisboa e Miami, mas sem exageros. Antônio Carlos, que está vivo, mas doente, e vivendo entre sua Quinta da Penalva, em Sintra, e o Rio de Janeiro, parece que não foi muito claro ao deixar registrado que a partilha feita há mais de 30 anos, no divórcio com a primeira mulher e mãe de quatro de seus filhos, era definitiva e assistida pelos melhores advogados do Rio de Janeiro. 

Agora, depois de décadas sabendo viver bem, usufruindo da fortuna em casas no Rio, Quinta em Sintra, casa nas Bahamas, apartamento em Nova York, usando muito de aviões privados em deslocamentos, o dinheiro deixando de render e as despesas altas, ficou de caixa baixa, como se diz.

Para surpresa geral, sua segunda mulher, com mais de 35 anos de casada, mãe de duas de suas filhas, reivindica agora uma nova divisão para si e as filhas do casal. É que a primeira mulher e filhos ficaram com os negócios, que souberam fazer crescer em décadas de trabalho; e ele com uma grande soma, que, segundo consta, seria superior a 75 milhões de dólares, em 1985, e mais as propriedades, além de uma retirada mensal como acionista do Banco Icatu. 

Antônio Carlos, conhecido como Braguinha, soube viver, se dedicar a acompanhar o esporte, comparecendo aos grandes torneios de ténis, aos eventos de automobilismo – era grande amigo e conselheiro de Ayrton Senna – e, em todas as Copas do Mundo, esteve nos jogos da Seleção Brasileira. 

Generoso com os amigos, sempre teve convidados em suas temporadas nas belas residências. No Verão europeu, tinha sua mesa cativa no Gigi, na Quinta do Lago, no Algarve. 

Não percebeu que o mundo estava mudando, que o dinheiro deixou de render juros, não diminuiu o padrão de vida e viu a verba acabar. Segundo consta, os filhos pagam todas as suas despesas e teriam até feito uma doação às irmãs do segundo casamento, mas não uma partilha, que, segundo advogados, não teria nenhum sentido sob o ponto de vista jurídico. E muito menos moral. ■

[conclui na próxima edição]