Receita socialista-populista argentina

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As manchetes em todo mundo continuam dedicadas ao que ocorre no Afeganistão, ápice de um drama previsto e conhecido. A prioridade serve para ocultar o que acontece no mundo, que deixa mal a nova esquerda, órfã da URSS e disposta a acabar com o capitalismo e a democracia liberal, para depois ver como é que as coisas ficam. Uma esquerda que não tem programa que não seja o de destruir, provocar crises económicas e sociais.

O que se passa na América Latina é revelador desse fenómeno de nações, com experiências sofridas no populismo de esquerda, reincidirem no erro e contarem com o aplauso ou o silêncio de segmentos teoricamente cultos.

A Argentina, por exemplo, a crise económica agrava-se, com o governo Alberto Fernandez repetindo fórmulas que nunca deram certo. O país é o maior devedor ao FMI, com 46 mil milhões de dólares. A inflação chega aos 50%, com igual desvalorização da moeda nos últimos 12 meses. O governo ao invés de apoiar, assusta o sector privado.

País riquíssimo, que teve a maior classe média da América Latina, próspera e instruída, autossuficiente em energia e de com um forte sector agropecuário, vive dificuldades, salvo pelos preços dos seus produtos agrícolas, como a carne, a soja, o trigo e as frutas. É o terceiro produtor mundial de soja, cujos preços atingem recordes. Actualmente, um terço da população é pobre e o desemprego ultrapassa os 15 por cento.

O país, que viveu um mandato de governo liberal, estava tão comprometido pelo passado irresponsável que provocou a volta ao poder de um grupo reconhecido como populista e corrupto. Hoje, deve mais de 100% de seu PIB e a sua dívida é quase toda em dólares.

Para administrar a crise, o superávit de 11 mil milhões de dólares, previsto para o ano, não é suficiente e a atractividade para negócios está situada por volta do 80º lugar no mundo. Não tem crédito, não estimula o investimento, não inspira confiança. Depois de cair 11% em 2020, este ano pode perder mais 7%.

As negociações com o FMI são curiosas, pois o país, que há décadas não paga compromissos internacionais, quer renegociar de novo e com taxas menores e prazos maiores. Um precedente perigoso para a instituição. O governo ainda gasta reservas numa tentativa de melhorar os seus índices de aprovação para as eleições de Novembro. A Argentina deve ao peronismo ser dos quatro países do mundo que ficaram pobres nos últimos cem anos. O populismo, muitas vezes disfarçado de socialismo, acabou com a  forte classe média que existia na Argentina. E assim pode acontecer em alguns países europeus com pouca atractividade económica. 

O Uruguai tem beneficiado do drama vivido pelo empresariado argentino, pois tem recebido mais de 50 mil argentinos nos últimos 18 meses, com domiciliação fiscal, as suas poupanças, que procuram um porto seguro no país que tem um regime especial para receber investimentos de fora. No Uruguai, o prazo de permanência anual é pequeno e a primeira entrada de recursos para investimento, atractiva. Os grandes bancos internacionais estão presentes em Montevidéu. O brasileiro Itaú tem uma boa rede de balcões. O presidente Lacalle Pou é um caso de sucesso.

A cortina de silêncio dos “media” substitui a de ferro dos anos da URSS, e esconde o que se passa com os bolivianos, em termos de desordem económica e crise social, como são ainda os casos da Bolívia e, agora, do Peru. Os protestos ocorridos no Chile tiveram repercussão internacional, mas o sucesso na luta contra a pandemia é omitido.

Dívida alta, impostos que estimulam fuga do capital, privilégios aos sindicatos são receitas conhecidas e de resultados lamentáveis. Mas ainda há quem as defenda! ■