Essa história de que nas relações entre países não existe amizade, afinidade, identidade e sim interesses ou alianças políticas, não é bem assim. As relações de países, de certa maneira, são como as pessoais. Não se tem amigos apenas por interesses profissionais ou sociais, existem amizades sinceras, que ignoram diferenças ideológicas, muitas delas chamadas de amizades de família, por terem origem em gerações anteriores.
O Brasil é claro que tem relações especiais com alguns países fundamentais na formação da nacionalidade, do nosso povo. A começar por Portugal, ao qual devemos a língua, a religião, a exemplar miscigenação.
No Médio Oriente, é óbvio que temos ligações com os libaneses, presentes em famílias espalhadas em todo o país, assim como os sírios. Os libaneses cristãos já fizeram de São Paulo a maior cidade do Líbano, nos anos 1950. E, claro, Israel, com forte contribuição na riqueza nacional pela criatividade e capacidade de trabalho e estudo de um povo presente entre nós desde o século XIX e, antes, pelos chamados marranos, oriundos da Península Ibérica. Os brasileiros de origem judaica estão entre nossos grandes médicos e empresários, alguns na lista dos maiores, como os Safra, Klabin, Lafer, Steinbruch, Birmann, Peres, Feffer. Nada mais natural que sejamos solidários com estes povos que, ao longo do tempo, nos têm distinguido. Os dois mais importantes hospitais do Brasil são o Einstein e o Sírio-libanês, em São Paulo.
O General Perón, quando governante da Argentina, socorreu a Espanha franquista com remessas sucessivas de navios com cereais e carne para atenuar a crise que a Espanha vivia, assim como o General Franco nunca deixou de manter as ligações comerciais e aéreas com a Cuba de Fidel Castro, independentemente das divergências ideológicas entre os dois governos. O líder conservador Fraga Iribarne, que esteve à frente da Galiza até o fim da vida, passava temporadas anuais em Havana, como hóspede oficial.
Não fossem as ligações com a Inglaterra, os EUA não teriam participado na guerra na Europa, limitando-se a reagir a agressão japonesa.
Na história da diplomacia brasileira tivemos apenas um momento infeliz, no não menos infeliz governo Jânio Quadros, quando votamos na ONU contra Portugal na questão dos territórios ultramarinos. Mas nunca reclamámos por a França manter a Guiana sob sua administração.
Mas o que não faz sentido é criticar, ironizar, fazer insinuações maldosas contra países com importância no comércio. É o caso do Brasil com a China. Antes de criticar, devemos pensar no peso do país no nosso comércio exterior e nos seus investimentos aqui, já significativos.
Neste momento, vivemos um efeito psicológico fruto da pandemia, pode-se supor, que é debater vacinas pela origem, quando a pior vacina é a que não chega a Maomé. Também não avançamos na atracção de investimentos estrangeiros, mantendo um ambiente hostil ao empreendedor, inclusive nacional, sem progredirmos na simplificação tributária, na simplificação da legislação de trabalho, na segurança jurídica. Enfim, vivemos num verdadeiro culto ao atraso. O tempo passa, fala-se muito e tudo fica como antes.
O povo brasileiro e sua história não mereciam este deprimente quadro, que trouxe a pequena a tão falada democracia. Talvez, por isso cresce nas classes médias do ocidente certa simpatia pelas monarquias. ■




