Educação e indústria

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Talvez os leitores não se tenham apercebido, mas o primeiro-ministro António Costa, por vezes, também diz a verdade. Foi o que aconteceu recentemente num dos debates. Quando pressionado pelo seu opositor de que os países da antiga “Cortina de Ferro” produzem mais riqueza do que nós portugueses e fazem crescer mais do que nós o rendimento das famílias, António Costa respondeu que isso acontece porque esses países têm um nível de educação superior ao nosso. É verdade, de facto é o que tenho dito e escrito há anos.

Infelizmente, António Costa não retirou as consequências necessárias dessa realidade durante os últimos seis anos e nada no seu programa eleitoral mostra que compreendeu o desafio. Por exemplo, não é começando a construir o edifício da educação pelo telhado, privilegiando o ensino superior e reduzindo as propinas, em vez de aceitar começar pelos alicerces que são as creches e o pré-escolar. Criando para o efeito edifícios onde as crianças pobres se sintam tão bem como as crianças das melhores famílias nas suas casas, com bons educadores, boa alimentação e o desejado transporte. Porque é essencial que todas as crianças cheguem ao ensino oficial aos seis ou sete anos com iguais níveis de desenvolvimento e não como agora acontece, em que os filhos das famílias mais pobres chegam a essa fase da vida com enormes atrasos no seu desenvolvimento, o que compromete o seu aproveitamento escolar posterior e reduz o seu acesso futuro ao ensino universitário.

Este é o nó górdio do nosso processo de desenvolvimento e a razão de os outros povos nos passarem à frente. As famílias mais pobres e mais ignorantes produzem crianças mais pobres e mais ignorantes do que as famílias com melhores condições económicas, que são geralmente as que tiveram acesso a melhor educação, crianças que vivem em casas onde há livros, aprendem a nadar, por vezes música e fazem desporto. É aqui que o Estado deve intervir, retirando de forma disciplinada as crianças pobres das suas famílias durante grande parte do dia, para as colocar num ambiente físico e educativo de grande qualidade, num meio semelhante ao das famílias ricas, para que quando essas crianças chegarem à juventude não queiram ser pobres.

Presentemente, as crianças das famílias mais pobres não têm livros nas suas casas, não vão à natação e não aprendem música, não vão com os seus pais ao cinema ou para férias e, quando muito, passam o dia em frente à televisão, que os pais das famílias das classes média e alta fazem o possível por evitar. Sendo assim, como pensam os leitores que essas crianças se sentirão quando chegarem ao primeiro ano de escolaridade e forem confrontadas com os seus colegas, com aquilo de que eles falam e com tudo o que eles conhecem?

Repito, esta é a grande medida que o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) deveria estar a construir e não está, porque esta é a única medida que pode interromper o ciclo vicioso da pobreza e de ignorância, cuja inexistência faz com que alguns povos permaneçam atrasados em relação aos outros, como acabou por aceitar António Costa. Também porque é um investimento que se faz apenas uma vez, porque depois essas crianças, quando adultos, tomarão boa conta da educação dos seus filhos.

Esta é uma medida que leva uma geração a produzir resultados e que é reprodutiva para todo o sempre, como aconteceu quando foi assumida na Dinamarca no século XIX. 

Temos, entretanto, de assumir outra medida complementar com efeitos a mais curto prazo, a industrialização. Vejamos as razões: a indústria é o único sector da economia que pode absorver grandes quantidades de trabalhadores com baixas qualificações escolares, que é a maior necessidade da economia dual portuguesa na sua metade não competitiva. Porque apesar da indústria moderna necessitar de muitos trabalhadores com elevadas qualificações, emprega também em funções repetitivas da produção trabalhadores não qualificados, como nas montagens, embalagens, armazéns e nos transportes, trabalhadores que fazem a sua formação no local de trabalho. Trabalhadores que sobrevivem hoje na metade mais pobre da economia, uma economia sem futuro de empresas muito pequenas de todo o tipo de pequenos negócios do mercado interno, empresas com salários muito baixos. Digamos que se trata da metade da economia portuguesa que cumpre uma função meramente social e não contribui para o crescimento da economia e para o equilíbrio das nossas contas externas, nem para permitir uma qualidade de vida decente a quem lá trabalha.

É esta dualidade da economia portuguesa de que ninguém fala e menos de todos o Governo de António Costa, dualidade que faz com que nos atrasemos relativamente aos outros países europeus da nossa dimensão, que têm um nível de exportações muito superior. Com a nota de que o turismo é parte dessa economia de baixo valor, dado empregar muitos trabalhadores com baixas qualificações e baixos salários. Um turismo de baixo custo para os estrangeiros que nos visitam, apesar da qualidade dos serviços que lhes são prestados ser elevada.

Educação e industrialização são os dois factores que podem mudar o panorama da economia portuguesa, fazer crescer as exportações, com melhores salários e melhores rendimentos médios das famílias. Que é aquilo que o PRR não fará, dividido por inúmeros objectivos, por vezes contraditórios entre si e que, sabemo-lo bem, se prestam a todo o tipo de amiguismo e de corrupção.

Teremos eleições em breve e o PSD é o único partido que pode contribuir para a mudança necessária ao vencer o PS de António Costa. Um Partido Socialista que se afastou da sua raiz moderado de esquerda, ou da social democracia de Mário Soares, para assumir durante os últimos seis anos as políticas colectivistas e autoritárias da antiga União Soviética, cujos resultados todos temos a obrigação de conhecer. Também no nosso tempo, as ditaduras de Cuba e da Venezuela, que mostram bem como funciona o ideal político do PCP e do Bloco de Esquerda.

Os países profundamente democráticos do norte da Europa, como aliás a Irlanda, devem constituir o modelo a seguir, como Rui Rio pretende para Portugal. Para isso precisamos de melhorar muito o nível educativo médio dos portugueses, melhorar a produtividade do trabalho, mas também do capital, porque sem capital, sem o dinheiro que paga as novas tecnologias, equipamentos e processos e sem melhorar a organização do Estado, é apenas continuar o empobrecimento do país dos últimos seis anos sob a direcção pouco qualificada de António Costa e dos seus ministros, escolhidos por razões de fidelidade política e não por competência. Aliás, é espantoso que durante seis anos nenhum ministro ou secretário de Estado se tenha salientado por ter ideias próprias ou discordado, por pouco que seja, da batuta do primeiro-ministro. O PS é hoje um partido acomodado ao poder, dedicado a proteger os interesses e os empregos da grande família socialista, criada, pouco a pouco, desde os tempos de António Guterres. Uma família que vive bem a iludir os problemas sentidos pelos portugueses e a fazer promessas ideológicas sem conteúdo na vida de todos nós e que nos afastam cada vez mais do nível de vida dos outros países europeus. Foi um anterior ministro das Finanças do PS que há dias afirmou que ao ritmo actual precisamos de 280 anos para alcançar o nível de vida dos países mais avançados da União Europeia. Ele sabe bem do que fala. ■