Houve um tempo em que o professor entrava na sala e o silêncio acontecia. Não por medo, mas por reconhecimento. Hoje, entra e precisa de o conquistar.
A autoridade tornou-se suspeita. Confundimo-la com autoritarismo e, na tentativa de proteger a liberdade, fragilizámos o limite. O problema é simples: sem limite não há liberdade, há apenas ruído.
A escola transformou-se no espelho da sociedade — e o reflexo não é confortável.
Vivemos numa cultura que valoriza a opinião acima do conhecimento. O “eu sinto” passou a ter o mesmo peso que o “eu sei”. A exigência é vista como pressão. A frustração como trauma. O erro como falha do sistema.
Entretanto, o professor deixou de ser apenas professor. É mediador emocional, gestor de conflitos, técnico de inclusão, produtor de relatórios, operador de plataformas e, se houver tempo, ensina.
Ensinar — esse verbo quase subversivo.
Há pais que fiscalizam cada nota como se fosse uma ameaça ao futuro do filho. Outros delegam completamente e esperam que a escola faça o que a família não estruturou. Entre a hipervigilância e a ausência, a autoridade dilui-se.
E depois surge o grande dilema contemporâneo: inclusão ou exigência?
A inclusão é uma conquista civilizacional. Mas quando incluir significa nivelar permanentemente por baixo, deixamos de estar a proteger os mais frágeis e passamos a fragilizar todos. Adaptar não pode ser sinónimo de simplificar indefinidamente. Diferenciar não pode significar abdicar de padrões.
Educar implica exigir. Exigir concentração num mundo de distração permanente. Exigir esforço numa cultura de imediatismo. Exigir responsabilidade numa sociedade que terceiriza culpas.
E talvez seja precisamente isso que incomoda: exigir tornou-se impopular.
A isto junta-se a burocracia — o inimigo silencioso. Relatórios, planos, grelhas, evidências. A escola precisa provar tudo o que faz, exceto aquilo que mais importa: que está a formar adultos capazes.
Pergunta-se frequentemente se os alunos mudaram. Talvez a pergunta mais honesta seja outra: nós mudámos enquanto adultos. Hesitamos em impor limites. Receamos o conflito. Preferimos consenso à coerência.
Educar é ainda possível?
Sim. Mas não se quisermos uma escola sem desconforto, sem exigência e sem autoridade. Não se quisermos professores populares em vez de professores firmes. Não se quisermos resultados sem esforço.
A escola não pode substituir a família. Não pode resolver todas as fraturas sociais. Não pode ser simultaneamente inclusiva, terapêutica, burocraticamente perfeita e academicamente irrepreensível sem que algo ceda.
E quando tudo cede, o que fica?
Talvez o verdadeiro risco não seja a perda de autoridade dos professores. Talvez seja a perda da coragem coletiva de assumir que educar implica dizer “não”.
E sem “não”, não há estrutura.
Sem estrutura, não há crescimento.
Sem crescimento, não há futuro.
Patrícia Raposo Sousa







