Quando a política invade o ventre

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Quando uma mulher anuncia uma gravidez, espera-se quase sempre a mesma reação: alegria, ternura, esperança.
Mas nas redes sociais dos últimos dias, até um ventre pode tornar-se campo de batalha ideológico.

A notícia era simples: uma fotografia, um sorriso, a promessa de uma nova vida a caminho. Um daqueles anúncios que normalmente arrancam corações desenhados, palavras doces e a inevitável frase: “Que venha com muita saúde.”

Mas desta vez não foi assim.

Talvez porque a mulher em causa tenha opiniões políticas que incomodam muita gente. Talvez porque, no nosso tempo, as ideias tenham passado a pesar mais do que a própria condição humana. O certo é que, em vez de felicitações, surgiram ironias, ataques e até comentários que desejaram mal a uma criança que ainda nem sequer nasceu.

E é aqui que a história deixa de ser sobre política.

Podemos discordar profundamente de alguém. Podemos criticar ideias, desmontar argumentos, combater discursos. Isso faz parte da vida democrática e até da saúde das sociedades livres.

Mas existe uma linha invisível — e essencial — que separa o debate da desumanização.

Quando essa linha se perde, algo se quebra. Não no adversário político, mas em nós próprios.

É curioso observar como certos valores tantas vezes proclamados — empatia, solidariedade, sororidade — parecem, por vezes, depender da identidade de quem está do outro lado. Como se a dignidade humana fosse um princípio com cláusulas de exceção.

Uma mulher grávida deveria ser, antes de tudo, apenas isso: uma mulher grávida. Um corpo que transporta uma promessa de vida, um instante universal que atravessa ideologias, partidos e trincheiras digitais.

No entanto, o nosso tempo parece ter dificuldade em reconhecer territórios neutros. Tudo precisa de ser classificado, julgado, atacado ou defendido. Até a alegria simples de anunciar um filho.

Talvez o problema não esteja apenas nas ideias que nos dividem, mas na forma como deixámos de olhar para o outro antes de ver o rótulo que lhe colamos.

Porque quando até um ventre se transforma em campo de batalha, talvez não seja a política que esteja doente.

Talvez sejamos nós.

Patrícia Raposo Sousa