Guterres deixou-nos o pântano em que ele próprio se deixou atolar

0
1180

Depois de Mário Soares, os governos do Partido Socialista de António Guterres, de José Sócrates e de António Costa têm sido os coveiros da democracia portuguesa. Enquanto Mário Soares lutou contra o anterior regime de Salazar, ganhou a batalha pela democracia ao PCP em 1974 e 1975, levou a cabo a descolonização nas condições possíveis e abriu a porta de entrada de Portugal na União Europeia, o que nos deixaram os restantes governos do Partido Socialista? O amor pela educação de António Guterres, a ferocidade de José Sócrates e a geringonça de António Costa?

António Guterres, depois de inaugurar as políticas assistencialistas que hoje temos, deixou-nos o rendimento mínimo garantido, mas sem a sua consequência natural que seria a formação e a integração no mercado de trabalho das famílias assistidas. Continuou a política de betão e baseou a sua política económica na construção civil e na fixação das famílias nas periferias das cidades, a quem prometeu casa própria, a meias com a corrupção autárquica originada pela política de terrenos agrícolas aprovados para construção. Além de ter legado ao país os futuros governantes do PS como José Sócrates, António Costa, Armando Vara, José Lello, Joaquim Pina Moura e Eduardo Ferro Rodrigues, entre muitos outros de igual calibre. No final, deixou-nos o pântano em que ele próprio se deixou atolar.

José Sócrates teve uma maioria absoluta e, essencialmente, aprofundou o poder de corrupção do PS em negócios com as empresas do regime, alargou o poder de Ricardo Salgado nos negócios com a intervenção amiga do Estado, permitiu o domínio de Manuel Pinho na economia a mando do BES e destruiu no processo algumas das melhores empresas portuguesas como a PT, ou os sectores do cimento e ferroviário, além da falência do sistema financeiro, terminando a sua carreira na prisão. Deixou a Portugal a herança da bancarrota e de uma terceira ajuda externa, além da maior dívida da nossa história. Na economia, manteve a fixação do PS no mercado interno, ainda que tenha tentado ligações privilegiadas com a Líbia, a Venezuela e Angola, além de manter a tentação de Guterres com o Brasil, agora de Lula da Silva. Serão estes os mercados exigentes como recomendado por Michael Porter?

António Costa, simpático colaborador dos governos anteriores do PS, magicou a abertura à esquerda da geringonça para ter acesso ao poder, aprofundando nos seus seis anos de governação o domínio da família socialista sobre as instituições da sociedade à custa do Estado. Além disso, não só perdoou todos os desmandos anteriores de José Sócrates, como criou uma rede de protecção na Justiça destinada a anular, ou adiar, as consequências da corrupção, corrupção com que tem convivido muito bem. A política social tornou-se, por pressão da geringonça, a bandeira com que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa mantêm o país adormecido e para isso contam com a força eleitoral do funcionalismo público, o esquerdismo de alguma comunicação social e com a confusão gerada pela pandemia. Na economia, António Costa vive entre vários amores: as cedências ao PCP e ao Bloco de Esquerda, com efeitos na crescente despesa do Estado; a oportunidade de algumas empresas amigas financiarem uma parte relevante da comunicação social; uma certa animosidade para com a actividade privada mais independente do Estado; e, naturalmente, a crescente dependência dos fundos da União Europeia.

O PS como partido democrático não existe, trata-se de uma máquina eleitoral financiada pelo Estado. O regime democrático também não, nomeadamente desde que foi aprofundado o sistema de centralismo democrático, em que os chefes escolhem os índios e estes agradecidos elegem o chefe. A eleição de independentes para as autarquias e a persistência de alguns milhares de cidadãos na tentativa de alterar as leis eleitorais, de forma a que os eleitores possam escolher os seus candidatos, são as iniciativas que António Costa vê como obstáculos à sua governação, que no resto se limita ao curto prazo.

Porque se o Governo de António Costa se preocupasse com o futuro dos portugueses e com o crescimento da economia, aprenderia com o passado. Se o fizesse teria aprendido que nos últimos oitenta anos houve dois momentos em que a economia portuguesa cresceu de forma satisfatória: o período que se seguiu à adesão à EFETA e o período que se seguiu ao PEDIP e à fundação da AutoEuropa, duas iniciativas criadas sob a batuta de um engenheiro/economista, Luís Mira Amaral. Se o PS de António Costa estudasse, saberia também que o sucesso destes dois períodos resultou dos mesmos três elementos: investimento estrangeiro, indústria e exportações.

O problema nacional é que os governos do PS estudam pouco e sabem ainda menos, sendo que com um ministro da Economia que é advogado, também não seria de esperar muito mais. Por exemplo, uma das razões adicionais porque a economia portuguesa não cresce, deve-se a que não temos uma economia mas duas: a primeira constituída por empresas modernas, nacionais e estrangeiras, maioritariamente exportadoras, servidas de quadros e de trabalhadores razoavelmente qualificados; uma segunda economia constituída por muito pequenas empresas (90% do total das empresas portuguesas) que sobrevivem no mercado interno sob o efeito devastador do excesso de concorrência e com trabalhadores pouco qualificados, em mercados de rua, feiras, cafés, restaurantes, bares, minimercados, pequenas lojas, agricultura de subsistência, alguma pesca artesanal e biscates vários. Trata-se de uma economia que sobrevive no mercado interno, sem futuro como economia criadora de riqueza e de crescimento. É uma economia de baixas qualificações e de baixos salários, que só se justifica por razões sociais, mas que é urgente transformar, para que a economia no seu conjunto possa crescer.

Estas são as razões porque defendo que o PRR deveria ser dirigido apenas a dois fins: Educação e Industrialização. Porque nas circunstâncias descritas estes são os dois elementos transformadores da economia e da sociedade portuguesa. Considero essencial reduzir a dimensão da parte pobre da economia de pequenas empresas, através do investimento na indústria e na criação de empregos melhor remunerados, porque apenas o sector industrial poderá absorver os trabalhadores com baixas qualificações em tarefas repetitivas de treino não excessivamente complexo. Em complemento a educação, nomeadamente das crianças, permite criar as condições de crescimento no médio prazo, de forma a interromper o círculo vicioso da pobreza e da ignorância que hoje alimenta a mão-de-obra da parte pobre da economia.

Claro que tudo isto seria se o Partido Socialista aspirasse ao aprofundamento da democracia, conhecesse as razões do não crescimento da economia e estudasse as soluções mais adequadas. O que nunca acontecerá sob a governação ignorante da grande família socialista de António Costa e dos interesses que lhes estão associados. ■