A Educação

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O melhor e o pior do que aconteceu a Portugal depois do 25 de Abril de 1974, aconteceu no sistema educativo. O melhor foi uma autêntica revolução cultural no acesso a todos os níveis de ensino, quando se compreendeu que saber ler, escrever e contar não era suficiente e se iniciou um processo virtuoso, no Estado e nas famílias, de valorização do conhecimento, o qual já tinha sido iniciado na reforma visionária de Veiga Simão no anterior regime. Quanto ao pior, aconteceu pouco a pouco, quando o sistema de ensino foi incapaz de compatibilizar ensino de massas com exigência e qualidade.

Acresce que, não existindo uma estratégia de desenvolvimento de médio prazo, o sistema de ensino iniciou um longo processo de contorcionismo político, que ainda hoje prossegue, entre exigência e facilitismo, entre formação humana e profissional, entre competências e comportamentos, entre divertimento e trabalho.

Sem nenhuma estratégia e sem descentralização, os diferentes governos alternaram políticas a um ritmo tal que comprometeram os resultados do sistema e destruíram o investimento de muitas famílias e de muitos milhares de jovens, que saíram do ensino com cursos pouco mais do que inúteis, tanto no mercado de trabalho nacional como internacional. Alguns tiveram mais sorte e estão bem por essa Europa fora, mas os menos afortunados ganham a vida com salários ridículos ou estão no desemprego, já que não é a mesma coisa ter uma licenciatura em Engenharia ou em Psicologia.

Além disso, todos sabemos que não há bom ensino sem bons professores, mas o que aconteceu foi uma explosão no acesso ao ensino de professores sem a preparação e sem a vocação necessárias, mas todos protegidos por sindicatos que, durante décadas, se dedicaram a proletarizar o sistema à custa de muitas gerações de jovens. Claro que, apesar disso, há milhares de professores que sobreviveram com grande qualidade, mas a sua valorização no conjunto do sistema é praticamente nula e, nesta como em outras áreas da sociedade portuguesa, o mérito não é reconhecido ou valorizado.

Além disso, o ensino em Portugal não constitui um edifício, é antes uma manta de retalhos cozidos à descrição de ministros e de governos, a mais das vezes de forma contraditória. Pessoalmente, há trinta anos que defendo a construção do edifício humano do conhecimento de que Portugal precisa como de pão para a boca, cujos alicerces são as creches e o ensino pré-escolar de qualidade, com transporte diário e alimentação. Isto é, a interrupção do ciclo vicioso em que vivemos há séculos, de pobreza e de ignorância, pode ser interrompido numa geração através de uma clara prioridade dada a este nível da formação das crianças portuguesas, nomeadamente das crianças pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas.

O “eduquês”, que é um misto de preguiça mental e de parasitismo social, tem de ser eliminado de todas as escolas e de todos os níveis de ensino, sem contemplações.

O que está em jogo é a vida futura de milhares de crianças e de jovens portugueses, sendo que o futuro do País depende em grande parte do nível de exigência e de qualidade de todo o sistema de ensino. Exigência e qualidade que passa pelos professores que estejam no sistema e dos que nele entram e para isso há que ter a coragem de reduzir a importância dos direitos adquiridos e de iniciar um processo de valorização profissional dos melhores professores, acabando com a proletarização de uma profissão que só pode ensinar com qualidade se for livre para pensar e agir e tiver o justo reconhecimento.

Finalmente uma confissão, não sou um especialista de educação, mas tive a sorte de ter tido alguns bons professores que recordo com saudade, além da sorte de ter vivido o suficiente para entrevistar e contractar centenas de jovens para as empresas que dirigi e, forçado pelas circunstâncias, a compreender as virtudes e os defeitos do nosso sistema de ensino. Nesse processo, como pai e como empresário, compreendi que formar jovens é uma tarefa em que metade é amor e a outra metade é exigência e disciplina, num equilíbrio virtuoso e sem alternativa. Não é, nem nunca será, uma burocracia.

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