No seu último número, a revista ‘Sábado’ faz uma interessante avaliação dos cargos ocupados por membros da família socialista na Santa Casa Misericórdia de Lisboa (SCML). O que, sendo certo que a Santa Casa é, há muito, uma fonte de empregos políticos, a dimensão com que o PS o faz nos tempos que correm não tem paralelo. A ‘Sábado’ chama-lhe a “Grande e Santa Família”.
As nomeações do PS tiveram novo alento com a nomeação do Provedor Edmundo Martinho, que começou por contratar para coordenadora do Grupo de Trabalho de Políticas Públicas de Longevidade a sua namorada, Maria da Luz Cabral. O Vice-Provedor, por sua vez, é João Paulo Correia, ex-acessor e ex-deputado do PS. Também o ex-marido de Ana Catarina Mendes, senhora de que falei aqui a semana passada, o ex-ministro Paulo Pedroso, foi há um ano nomeado para o cómodo cargo de consultor externo, com o não menos cómodo ordenado de 3.700 euros por mês. Acresce que Catarina Mendes tem um irmão secretário de Estado e outro irmão, psicólogo, há já três anos com emprego seguro na Santa Casa.
Segundo o princípio dos vasos comunicantes, cada contratado acaba por ajudar a contratar outros diligentes funcionários. Segundo a ‘Sábado’, Maria da Luz Cabral já ajudou a empregar Ana Isabel Cardoso e o irmão Bruno Cabral. Ora tendo os jornalistas da ‘Sábado’ perguntado quais os ordenados auferidos, foram remetidos “para as tabelas da casa que, solicitadas, também não facultou”. A SCML esclareceu ainda que “não se pronuncia sobre matérias que assentam em pressupostos e insinuações relacionadas com a esfera privada de cada cidadão”. Se os leitores se recordarem, a semana passada relatei aqui a tristeza de Ana Catarina Mendes no programa “Quadratura do Círculo”, devido às insinuações e pressupostos mal-intencionados e claramente populistas que, disse, estão a minar o nosso regime democrático. Ou seja, para Catarina Mendes o segredo é a alma do negócio e há que defendê-lo a todo o custo.
Entretanto, o grande amigo de António Costa, Diogo Lacerda Machado, salvador da TAP e de outros negócios de que é especialista, tem também uma filha na SCML, Joana Lacerda Machado, que já foi promovida por Eduardo Martinho que, por sua vez, já tem uma longa carreira na companhia do ex-ministro Vieira da Silva. Mas há mais, Diogo Lacerda Machado viu recentemente um outro filho ser escolhido para um cargo na embaixada portuguesa em Washington. Ainda recentemente iniciou funções na Santa Casa como Administradora Ana Vitória Azevedo, que é mulher de André de Aragão Azevedo, secretário de Estado para a Transição Digital.
Utilizo estas informações publicadas na “Sábado” como reforço do que aqui escrevi a semana passada e mostrar com maior clareza a hipocrisia do PS, em geral, e de Catarina Mendes, em particular, na sua função de comentadora televisiva. Pretendo ainda chamar a atenção dos portugueses para o enorme polvo em que o Partido Socialista se transformou e, principalmente, para demonstrar que com este PS corremos o risco de vermos interrompida a normal alternância no poder, que está na essência dos regimes democráticos. Será que estamos a assistir ao nascimento e ao crescimento de um novo modelo de partido único? Vejamos as razões:
1. Penso que conhecemos os esforços feitos por José Sócrates para tomar de assalto uma parte da comunicação social e do sistema financeiro, em associação com algum poder económico, utilizando para isso muitos socialistas colocados em postos chave, seja por nomeação governamental, seja pela ajuda da Maçonaria, seja por nomeações no Estado, instituições e empresas, como as aqui referidas, que são apenas um exemplo.
2. Sabemos também a forma, relativamente fácil, com que o governo de Passos Coelho foi demonizado, seja a partir de grande parte da comunicação social, seja pelos milhares de socialistas e amigos que ocupam os mais variados cargos políticos. De facto, Passos Coelho nunca teve descanso, a máquina socialista não deixou. Agora pensem os portugueses no que acontecerá com um qualquer futuro governo não socialista.
3. Até agora, o Primeiro-ministro António Costa já conseguiu imobilizar os partidos à sua esquerda, exatamente pelo receio que têm de deixar funcionar a alternância democrática e o medo da chegada ao poder da direita, como foi teorizado em 2015 pelo ministro Santos Silva. Entretanto, o PS alargou de forma sistemática a presença socialista não apenas nos cargos públicos, mas também em instituições de direito privado, associações, empresas e autarquias. Além de que o Estado é hoje dominante em todos as áreas da vida nacional, o que inclui grupos económicos privados, como é o caso da EDP, REN, sectores das energias renováveis, a TAP, a Efacec, o Novo Banco e por aí fora, incluindo muitas associações e meios de comunicação. Pensem ainda na bazuca de dinheiro, previsto distribuir de acordo com o critério definido pelo Primeiro-ministro, que será nos próximos anos uma enorme fonte de poder.
4. A recente controvérsia com Marcelo Rebelo de Sousa também não é inocente. António Costa aproveita a popularidade expressa nas sondagens para usar a imensa máquina socialista, para tentar obter a maioria em eleições já largamente controladas devido aos eleitores não escolherem os eleitos. Além de, idealmente, tentar minar a popularidade do Presidente da República que, diga-se, se tem posto a jeito.
Alguns leitores poderão pensar que aquilo que escrevo implica uma certa teoria da conspiração. Pois bem, reconheço que nada do que escrevi é ciência e que em política todos os factos descritos e as teses que adianto são apenas conjunturas, não o nego. Todavia, o assalto ao aparelho do Estado é real, que a grande família socialista atingiu em Portugal um poder enorme parece-me indiscutível e que a sua capacidade e a de António Costa para iludir a realidade junto dos portugueses é uma experiência diária. Ou seja, para mim uma coisa é certa, Portugal é cada vez menos uma democracia e a alternância democrática está a ser crescentemente viciada.
José Sócrates
O dia em que este número de O DIABO chegar às bancas será um dia muito interessante para avaliar o que aqui prevejo. Trata-se de saber o que acontecerá ao Processo Marquês. De facto, não existirá grande novidade, dado já sabermos que o resultado só poderá ser um entre três: (1) o processo será arquivado, o que é pouco provável; (2) o processo seguirá para julgamento conforme a acusação do Ministério Público, o que, sendo o juiz Ivo Rosa quem é, será praticamente impossível; (3) a acusação será reduzida a uns meros descuidos fiscais, o que terá uma forte probabilidade de acontecer.
Perguntarão então os leitores mais sérios e, porventura, mais inocentes: mas como é isso possível? É possível por todas as razões que descrevi: a corrupção cresce em Portugal sob a vigilância do Partido Socialista, o partido cuja grande família dela beneficia e que, ao abrigo do seu crescente poder no Estado e na sociedade, se pode permitir que aconteça. ■




