Michael Porter passou por Portugal há um quarto de século, mas deixou um legado estratégico entre os empresários portugueses, usualmente muito pouco dados a grandes teorias.
Foram muitos os que participaram nos trabalhos então realizados sobre a economia portuguesa e foram bastantes os que praticaram os ensinamentos recebidos. A ideia de que deveríamos começar por fazer aquilo que sabíamos fazer melhor, que deveríamos privilegiar os parceiros e os clientes mais exigentes, a importância da formação de ‘clusters’, quando se passou da empresa individual para o colectivo, que compreende a empresa, os fornecedores e os centros de saber, num conjunto promotor de progresso e de competitividade.
Sectores da economia portuguesa aprenderam a lição e o calçado, a confecção, os moldes, a cerâmica, os plásticos, os componentes de automóvel e muitas outras desenvolveram-se e estão hoje na origem do crescimento das exportações, empresas que hoje concorrem com todo o mundo sem receio. Recordo que o futebol foi um desses ‘clusters’, então pouco evidente, mas hoje uma realidade.
Foi um período da economia portuguesa em que a teoria se aliou à prática, quando a simplicidade das ideias e a cumplicidade das pessoas substituiu o academismo tradicional entre nós. Devemo-lo a uma equipa de muita qualidade, dirigida com objectivos estratégicos muito concretos por Luís Mira Amaral, equipa que não teve continuidade e importaria saber hoje porquê.
Adianto vários motivos: (1) uma visão política limitada à detenção do poder e esfrangalhada entre concepções ideológicas, não apenas diferentes mas contraditórias; (2) um diálogo de surdos com os empresários, que tem tido a sua origem na ideia da superioridade da política e dos políticos sobre a economia; (3) o excesso de fidelidades políticas – a grande família socialista – cujos interesses impedem o debate sério e responsável; (3) o excesso de juventude na governação, de ministros e de secretários de Estado sem currículo profissional e com origens académicas avessas a ideias diferentes e à concorrência; (4) o conformismo e o domínio de dirigentes formados nas chamadas ciências sociais, advocacia e política; (4) ausência de cultura crítica, tanto política, como económica, como científica.
No meu passado, no início do processo democrático, habituei-me a escrever a ministros que respondiam. Hoje, tanto eu como alguns outros cidadãos com ideias e experiência profissional nas áreas dos investimentos públicos, da ferrovia e da energia, escrevemos frequentemente com questões muito concretas, com alternativas viáveis e com propostas para o futuro do País, que invariavelmente ficam sem resposta. Alguns, como João Galamba, respondem com o insulto.
Existe no Governo um caso muito particular com interesse intelectual e político. Trata-se do ministro Pedro Nuno Santos. Ambicioso quanto baste, desejando ser o futuro secretário-geral do PS e porventura primeiro-ministro, assumiu responsabilidades enormes para as quais não está obviamente preparado. Mas pior, rodeou-se de conselheiros, consultores e amizades várias, de pessoas que, tal como ele, nunca trabalharam fora do ambiente político e estatal. Pior ainda, não ouve ninguém fora daquele círculo restrito, caracterizado por interesses, frequentemente contraditórios e abertos às teses do Bloco de Esquerda. Trata-se de uma combinação negativa, a que acresce o ministro não responder às cartas que lhe são dirigidas e aos pedidos de reunião, fugindo ao debate sempre que sonha que se trata de discordar do seu pensamento único. Como é fácil de perceber, trata-se de uma combinação explosiva e quando se pensa que o futuro da TAP e das obras públicas portuguesas dependem desta combinação, há que, sem grande esperança, ou possibilidade de intervenção, esperar o pior.
Esta combinação do PS, oriundo do socialismo aristocrático de Mário Soares e de Salgado Zenha, com o obreiríssimo do PCP e o trotskismo burguês do Bloco de Esquerda, só pode dar asneira e só não é uma combinação política improvável porque se trata da única via de acesso ao poder. Real para uns, fantasmagórico para outros.
Presentemente, estamos perante o enorme desafio da pandemia e não se percebeu ainda que a resposta precisa de dinheiro, disciplina e organização. Sendo que o Governo não possui nenhuma das três respostas. Não tem dinheiro, o que está a matar milhares de portugueses com diversas pandemias, porque depois do esforço do Governo de Passos Coelho para vencer a crise herdada do PS, António Costa preferiu seguir as imposições distributivas dos seus aliados, a reforçar a capacidade do Estado para responder aos desafios do futuro. Estado que não possui as outras duas condições, nem disciplina nem organização, seja porque nunca foi essa a vocação do PS, seja porque a Administração Pública deixou de ser uma organização hierarquizada, dirigida por verdadeiros profissionais, para ser um vespeiro político de todo o tipo de empregos partidários.
Para complicar a questão, tivemos as trinta e cinco horas de trabalho para os funcionários públicos; a criação de um número absurdo de novos programas de enorme complexidade prática de execução; a ausência de meios digitais integradores de serviços, com muitos meios contratados a feitio, caso a caso; o anúncio de novos recursos humanos, ignorando o saldo dos que verdadeiramente estão ao serviço e em que condições; um modelo de comunicação anárquico e incompetente; a ausência de prioridades claras e mantidas no tempo, caso dos lares; a obsessão ideológica contra a participação contratualizada dos sectores privado e social, no sentido de defender um sistema de custos por intervenção, sério e não especulativo, além da necessária transparência já prometida vezes sem conta e nunca praticada.
Uma nota ainda sobre o erro do Governo de fazer política social à custa das empresas, dos proprietários e dos bancos. A política de evitar os despedimentos é má e inútil, porque os despedimentos são a forma, historicamente demonstrada, de aliviar as empresas do seu maior custo fixo, deixando à responsabilidade das empresas a liberdade de gestão da crise. Sendo óbvio que se o Governo pretendia fazer política social, obviamente necessária, fazia-a através do subsídio de desemprego, com o valor actual ou superior. Poderia depois criar subsídios de desemprego para sectores que a ele não têm direito, sejam os trabalhadores da cultura, os novos trabalhadores que ainda não têm direito a subsídio, ou em qualquer caso em que não exista apoio legislado. Ou seja, apoiar todos que pretendam trabalhar e não o possam fazer, sem confundir política social e gestão empresarial.
Este seria um sistema simples facilmente controlável pela Segurança Social, deixando às empresas a responsabilidade do negócio que nas presentes circunstâncias passa por encontrar clientes e vender, o que só elas podem fazer. Não sendo isto que foi feito, abriu-se a porta à confusão sobre quem despede e não despede, sobre quem envia os dados certos e quem usa o sistema para dele beneficiar, sejam empresas sejam trabalhadores.
Finalmente, iniciei este texto falando de Michael Porter. Termino dizendo que o professor norte-americano nos indicou o caminho da racionalidade, da previsão, da organização, da exigência, da responsabilidade e da concorrência. É pena que os governos portugueses não tenham aprendido a lição; e o tratamento da presente pandemia é disso um bom exemplo. ■




