Fado Atlântico: esperança e nevoeiro

“Portugal formou-se pelas palavras do poeta, atingindo a maioridade com a obra magna do príncipe Luís Vaz, que celebrou os feitos que vão do Fundador até ao Aquiles Português que foi Duarte Pacheco Pereira, que se agigantou ao serviço de El-Rei Dom João Segundo”

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Portugal é um país de poetas. É de poetas que se faz a luz de Portugal, a mesma luz que ilumina a nossa melancolia e a nossa saudade. 

A mesma luz que alimenta de lendas as tradições rurais de um Portugal que ameaça desaparecer sem deixar rasto.

Portugal foi um país riquíssimo, e não falo da fertilidade da terra ou dos recursos minerais. Portugal foi um país riquíssimo porque encarnou dentro de si as mais diversas culturas, do Norte ao Sul, um país muito pouco extenso, do litoral para o interior, uma largura ainda menor, encerrava dentro de si uma miríade de micro culturas, uma enormíssima variedade de tradições poéticas, de lendas, de formas de ver o mundo, numa plêiade diversa que vai da gastronomia à forma de dançar, à música, com uma panóplia de géneros, estilos e mesmo de instrumentos musicais que talharam o viver dos nossos antepassados.

O fado de Lisboa, património da Humanidade, é uma forma de canção urbana nascida no século XIX, nem por isso muito antiga, derivada de três fados: “corrido”, “menor” e “Mouraria”, uma amostra paupérrima do que se cantava do Norte, influenciado pelos celtas, ao Sul, onde pontificava o langor Árabe. 

Temperado pela cultura cristã, influenciado pela música erudita sacra, em que se podiam escutar os modos eclesiásticos, o canto de Portugal acompanhou os nossos descobridores pelo mundo fora e está hoje morto, na pobreza espartana dessa canção de bêbados e prostitutas que, de vez em quando, se transcende por um Ricardo Ribeiro que passa como uma estrela cadente por uma multidão de nulos.

Foi de poetas a filosofia de Antero e de Pessoa, e mesmo os prosadores, como Oliveira Martins e Eça de Queirós, foram poetas na forma como trataram o granito bruto das palavras ancestrais de um português múltiplo na sua extraordinária pequenez demográfica mas enorme pujança e força.

Portugal formou-se pelas palavras do poeta, atingindo a maioridade com a obra magna do príncipe Luís Vaz, que celebrou os feitos que vão do Fundador até ao Aquiles Português que foi Duarte Pacheco Pereira, que se agigantou ao serviço de El-Rei Dom João Segundo. 

Portugal também foi o país capaz de gerar Afonso de Albuquerque ou loucos temerários como António da Silveira ou de sonhadores implacáveis como Fernão Mendes Pinto ou Camilo Pessanha.

Com Camões formou-se a argamassa que fez nascer o mito, paradoxalmente no exacto momento em que se iniciava uma decadência que nos tirou a independência, e que viria ainda a demorar quatro séculos, e se remata hoje em dia com a extinção, com a morte anunciada do país, entregue aos bichos, servis criados, feitos para serem reles feitores dos chineses, lacaios de alemães e de outros que lhes paguem o dobrar da espinha serviçal de que parcamente estão dotados. 

Portugal não tem hoje elites políticas nem existe sombra da capacidade de liderança de outros tempos.

Hoje os jovens fogem da miséria a que os sucessores do Quintella ou do Conde de Abranhos, jocosamente mimados por Bocage e Eça, condenaram o rectângulo Lusitano. Hoje Portugal é um país cadáver adiado que deixou procriar, e até mesmo os frades já não copulam alegremente nem os reis emprenham as freiras, como faziam com grande denodo e empenho nos tempos heróicos de D. João V ou nos tempos de façanhas cantadas nos versos de Manuel Maria du Bocage. 

Felizmente demos mundos ao Mundo. Em Goa e Malaca, em Timor e nas Molucas há gente, escassa como sempre fomos, que tem mais orgulho em ser português do que aqueles que aqui vivem. Felizmente resta esse colosso, fruto do engenho de um povo minúsculo que se soube ampliar seguindo a profecia visionária de Sancho I. 

Sobrou, pelo menos, um resquício da grande alma dos poetas lusos no Brasil. Invenção de Tordesilhas de D. João II, pelo engenho genial de Duarte Pacheco Pereira, o Brasil poderia ser a Atlântida que, durante mais de dois mil anos, se procurou e ali está, sonho adiado, império esquecido, perdido pela pandemia e pela loucura e ganância dos seus dirigentes.

Portugal adiado, Portugal esquecido, és a matriz da nossa esperança, volta Portugal dos nossos sonhos, não se esqueçam de nós, egrégios avós que dos Céus deveriam velar por nós. 

Todavia, para levantar, de novo, o esplendor de Portugal, é necessário que acordemos da letargia. 

Hoje, em tempos obscuros, vivemos no nevoeiro, os dias são cada vez mais curtos e a esperança parece arredada nos números de uma pandemia asfixiante. 

Mas os campos da Lusitânia continuam a brilhar debaixo do mesmo Sol que iluminou Viriato e fez crescer as árvores das quais D. João II construiu as naus. Os homens passam, sobrevive a obra, o tempo é curto e a arte longa.

Como dizia o poeta: acordai! É altura de um sobressalto cívico, é altura da defenestração dos cobardes, dos pusilânimes. 

É a altura de sacudirmos o fado atlântico que nos tolhe e tomarmos o nosso destino nas mãos. ■