A repetição recente na televisão do célebre debate de 1975, entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, resultou extremamente pedagógica, para se compreender a política portuguesa na actualidade e até explicar muito do que tenho escrito neste jornal e defendido noutros meios de comunicação.
A primeira conclusão que se pode tirar é a de que o PCP de Álvaro Cunhal mudou muito pouco desde então e o Partido Socialista de Mário Soares mudou bastante e, infelizmente, para pior. Vejamos as razões:
Liberdade
Enquanto Mário Soares não se cansou de defender a liberdade plena para todos os portugueses, de esquerda e de direita, independentemente dos partidos, das ideias políticas, das crenças e das raças, Álvaro Cunhal insistia numa aliança de esquerda com o PS, mas com a exclusão de todas as outras forças políticas da direita, como da extrema-esquerda, a que Cunhal chamava a doença infantil do comunismo. Também, enquanto Mário Soares defendia a liberdade económica, a iniciativa das empresas e um modelo de mercado na economia, Álvaro Cunhal defendia as nacionalizações e o domínio do Estado sobre a economia e sobre a sociedade.
O PCP de hoje continua a defender o mesmo, convive com o Bloco de Esquerda porque não tem outra alternativa, defende as nacionalizações e combate os mesmos capitalistas, os mesmos latifundiários e sempre que pode, ou o deixam, procura o domínio do Estado sobre tudo o que mexe. Igualmente, o PS contemporâneo criou um cordão sanitário ao redor dos partidos da direita, fez do Estado o centro do poder político e económico e marginaliza sempre que pode a intervenção da actividade privada. Veja-se o que se passa no Serviço Nacional de Saúde, em que o PS prefere que haja mais mortes com as mais diversas patologias, a negociar as condições da participação dos privados, mesmo quando, como agora, é óbvia a incapacidade do Estado.
Acresce que, ao contrário das liberdades plenas de Mário Soares, o PS de António Costa resiste quanto pode à alteração das leis eleitorais, no sentido de uma democracia do povo e para o povo e não permite que os deputados possam representar a vontade de quem os elege, em vez de representarem a vontade das oligarquias partidárias, que é o mesmo modelo de centralismo democrático defendido por Álvaro Cunhal.
Política Externa
Enquanto Mário Soares defendia uma aliança com os países democráticos do Ocidente, nomeadamente com os Estados Unidos, Álvaro Cunhal privilegiava a União Soviética e considerava os Estados Unidos a cabeça do Imperialismo internacional. Enquanto Mário Soares defendeu a independência das colónias e a liberdade dos partidos políticos existentes, nomeadamente em Angola, reconhecendo em igualdade os três partidos que lutaram pela independência, Álvaro Cunhal só reconhecia o MPLA como partido único.
Hoje, podemos dizer que o PS resiste quanto pode ao PCP, na sua preferência por relações externas com o Ocidente e com a União Europeia, de onde nos chega a sobrevivência económica, mas tem uma história recente de privilegiar relações com o MPLA em Angola, com a Venezuela e a Líbia, mostrando uma boa convivência com a corrupção internacional, em Angola e não só. Durante muitos anos, tanto o PCP como o PS não viram mal nenhum no regime de ditadura de Angola, nem no saque aos seus recursos.
Saneamentos
No debate, Mário Soares defendeu o fim dos saneamentos, enquanto Álvaro Cunhal os justificava, porque os saneados eram reacionários, fascistas e contrarrevolucionários. Hoje o PS, pudicamente, não lhe chama saneamentos, mas apenas as naturais mudanças nas hierarquias do regime a cada quatro anos, em cujo critério não cabe a competência, a qualidade e a seriedade do trabalho realizado. Os casos recentes de saneamento da Procuradora-Geral da República, do Presidente do Tribunal de Contas e da Procuradora que ganhou o concurso para a União Europeia e foi saneada. Saneamento é a palavra correcta.
Pelo meio fica a grande família socialista, composta de milhares de nomeações por razões partidárias, em que o mérito e a competência não são chamados ao caso. A nomeação mais recente é a de Diogo Lacerda Machado, 33 anos, filho de um amigo de António Costa e actual administrador não executivo da TAP, que foi nomeado para um cargo superior na embaixada portuguesa nos Estados Unidos, apesar de ter um curso da área política e passando por cima de todos aqueles que possuem cursos nas áreas da diplomacia.
Comunicação social
Mário Soares defendeu uma comunicação social livre e independente e denunciou os casos de ataques feitos a alguns jornais e televisões sob a inspiração do PCP. Álvaro Cunhal, por seu lado, defendeu uma comunicação social ao serviço do povo e dos trabalhadores, contra o domínio dos grandes monopólios sobre a informação.
Hoje, o PS financia as empresas de comunicação social amigas, privilegia as empresas do regime, grandes anunciantes na comunicação social, como é o caso da EDP e do BES/Novo Banco, como promove, sempre que pode e o deixam, os jornalistas e os comentadores próximos do partido e do Governo. Pelo meio, nada de perguntas incómodas. O PCP, por seu lado, continua a defender o que sempre defendeu: “uma comunicação social ao serviço dos trabalhadores e do povo”.
Economia e Finanças
Durante o debate, em várias das suas intervenções, Mário Soares mostrou angústia pelo que dizia ser o estado a que Portugal chegou, um país próximo da bancarrota e o descalabro da credibilidade internacional. Tal como hoje o PCP e o Governo do PS, Álvaro Cunhal não mostrou qualquer preocupação com a situação e falou principalmente dos baixos salários e dos lucros escandalosos das empresas e, não o disse directamente, mas esteve implícito: era preciso ir buscar o dinheiro onde ele estava. Onde será que já ouvi isto? Ou onde terei ouvido que aos alemães abanarão as pernas se Portugal decidir não pagar a dívida?
Neste caso da economia e das finanças, tivemos a possibilidade de viver os resultados das políticas do PCP dirigido por Álvaro Cunhal que, apesar de contrariado pelo combate político de Mário Soares, nacionalizou os bancos, apoiou o assalto às terras no Alentejo e promoveu o ataque sindical a algumas das melhores empresas portuguesas que, entretanto, desapareceram. Desaparecimento que ainda hoje pagamos em estagnação económica, baixos salários, uma enorme dívida externa, com que o PS nos brindou ao longo dos últimos doze anos de governos PS.
Em resumo, este debate resulta hoje extremamente pedagógico, para quem ainda tiver ilusões sobre o que defendia Álvaro Cunhal há quarenta e cinco anos, o mesmo que defende o PCP hoje (e já agora o Bloco de Esquerda), da mesma forma que dá para ver as diferenças entre o que eram então as convicções de Mário Soares e as práticas políticas do seu partido no nosso tempo.
Como tenho escrito, entre as diferentes verdades do nosso tempo, a verdadeira verdade é aquela que sobreviverá ao tempo. Ou seja, as verdades de Mário Soares sobreviveram e é hoje possível julgar quem estava no caminho certo. O mesmo acontecerá dentro de dez ou vinte anos quando os nossos filhos fizerem a avaliação das diferentes verdades existentes dos debates de hoje. ■




