Audácia e exigência

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Na capa do livro “O Botequim da Liberdade”, de Fernando Dacosta, está uma frase da poetisa e grande senhora que foi Natália Correia, frase particularmente indicada para o momento de crise em que vivemos: “Quando a crise não é geradora de grandes audácias, mais indicado é dar-lhe o nome de agonia”.

É esta a agonia que sentem muitos portugueses que não se contentam com um país a viver às custas da União Europeia e que, apesar de todos os milhões recebidos, se atrasa relativamente aos outros países europeus, como é o caso dos países bálticos, a República Checa, Eslováquia, Polónia, Hungria e, tudo o indica, dentro de poucos anos, a Grécia, a Roménia e a Bulgária. Um país com dois milhões de portugueses a viver na pobreza, com uma das mais baixas produtividades da União Europeia, que produz pouco e exporta apenas cerca de 40% do PIB, quando os outros países da nossa dimensão exportam entre 60% e mais de 100%, no caso da Irlanda. A mesma Irlanda que sugeri, numa moção apresentada no XII Congresso do Partido Socialista, se olhasse com atenção, explicando as razões da Irlanda ser no futuro o caso de maior sucesso da União Europeia.

A agonia de que fala Natália Correia, é o resultado de um quarto de século de governos medíocres do PS – o governo do PSD limitou-se a tentar tapar os buracos herdados de José Sócrates – de políticas atrabiliárias, quando não desonestas, e da total incapacidade de prever o futuro e de trabalhar na sua construção. Audácia é o que nunca existiu no PS depois de Mário Soares, pelo contrário, tem sido o autocontentamento e a falta de exigência do partido e dos seus líderes que conduziu Portugal para a cauda da Europa.

António Costa, em particular, é um líder satisfeito com muito poucochinho, não é exigente e convive bem com tudo que seja adiar decisões e viver numa certa indolência geral para que conduziu o país. Para António Costa, os erros são vitórias e viver às custas da União Europeia não constitui nenhum problema, antes aproveita a oportunidade para transformar a pedinchice numa tarefa nacional. As políticas mais ou menos burocráticas que utiliza são a sua versão da audácia e se não faz remodelações ministeriais é porque não exige grande coisa dos seus ministros e secretários de Estado. António Costa vive contente consigo e com o mundo que o rodeia. 

O caso do agora ex-ministro Eduardo Cabrita ficará para a história dos governos de António Costa. Nem o assassinato de um cidadão estrangeiro sob a guarda das autoridades portuguesas, nem a aquisição pelo Governo das golas antifogo que ardiam, nem a bagunça de Odemira, ou a morte de um trabalhador atropelado a mais de 160 quilómetros por hora pelo carro do ministro retiraram António Costa da sua plácida satisfação ou melhoraram o seu nível de exigência. Aliás, não admira, a sua convivência, de muitos anos, com a corrupção, também não engana.

Vivi grande parte da minha vida na Marinha Grande e habituei-me a conviver com centenas de trabalhadores que tiveram a audácia de criar empresas, de trabalhar de sol a sol, de aprender línguas e de viajar por todo o mundo à procura de trabalho. Audácia que, com trabalho e valentia, criou o sucesso de gerações de empresários e o sucesso de duas regiões: Marinha Grande e Oliveira de Azeméis. Sucesso em grande parte criado pelo elevado nível de exigência que esses empresários utilizam consigo próprios, mas também com todos os outros que com eles aprendem a profissão e, não menos importante, a suportam com a ambição de sempre.

O sucesso da economia da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis comporta um exemplo que o governo socialista faz todo o possível por ignorar, preferindo acreditar nas teses do PCP e do Bloco de Esquerda sobre as virtudes das nacionalizações, como é o caso demencial da TAP, bem como de uma economia e de uma sociedade dominadas pelo Estado colocado ao serviço do partido. As empresas, esmagadas com impostos e a suportarem cada vez mais taxas e taxinhas, os chamados custos de contexto, aguentam ainda uma burocracia asfixiante e, apesar disso, esforçam-se para se manterem competitivas relativamente aos seus concorrentes internacionais.

Vamos em breve ter eleições legislativas, sendo essencial mudar de rumo, na tentativa de procurar um novo caminho e de fazer as reformas há muito necessárias, tanto no plano nacional como no plano autárquico. É essencial acabar com o Estado dominado pelo PS, trabalhando a favor da profissionalização e da hierarquização da administração pública, através da nomeação por concurso de direcções-gerais e pondo fim às nomeações dos “boys” partidários. O que, entre outras coisas, permitirá a continuidade necessária para manter a memória dos diferentes serviços e evitar o recurso ao subcontrato. Além da utilização das mais modernas tecnologias que reduzam a necessidade permanente de mais funcionários, a favor da nomeação, por concurso, de jovens que o primeiro-ministro acha serem os mais bem preparados de sempre.

A educação, a industrialização e o investimento, nomeadamente estrangeiro, são as prioridades da nossa economia, cujas exportações têm necessariamente de aumentar até pelo menos 60% do PIB nos próximos três anos. Dado o nosso atraso, o governo que resulte das próximas eleições tem de apostar num crescimento da economia de pelo menos 4% ao ano e em exportações que ultrapassem os 60% do PIB. Com a audácia de que nos fala Natália Correia, trata-se de um objectivo perfeitamente ao nosso alcance, bastando libertar a sociedade e os empresários portugueses e orientar a Nação para o trabalho, a inovação e a utilização inteligente das tecnologias.

Nada disto será possível com um Governo do PS dirigido por António Costa, ou com qualquer outro Governo que adopte as teses marxistas do PCP e do Bloco de Esquerda. Trata-se de uma contradição insanável entre o modelo de economia de mercado seguido em toda a União Europeia e a orientação marxista da “geringonça”, que está a contribuir para a estagnação económica, para a baixa produtividade e para o crescimento da dívida externa.

Muitos portugueses, conscientes das políticas erradas seguidas por António Costa e pelo seu Governo e sabedores do controlo exercido pelos partidos sobre todas as nomeações para cargos públicos, nomeadamente o controlo antidemocrático exercido sobre a nomeação dos deputados à Assembleia da República, deixaram de votar. É compreensível esta desilusão com a governação do país, mas acredito que o seu voto é agora mais necessário do que nunca, porque é a condição de fazer pender a balança para o lado da mudança.

Até lá, pensemos maduramente sobre que país queremos deixar aos nossos filhos e aos nossos netos. Eles valem esse pequeno sacrifício de votar no próximo dia 30 de Janeiro. ■