Corona Vírus: a sorte do Governo

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A António Costa, aos seus Governos e ao Partido Socialista, saiu-lhes a sorte grande durante os últimos cinco anos. Não é muito comum que os astros políticos se tenham encontrado todos em sintonia favorável ao mesmo tempo e que a fortuna bafeje os mesmos durante tanto tempo.

Essa sorte teve o seu início quando o Partido Comunista se cansou de quarenta anos de oposição e decidiu experimentar, por boas ou más razões não vem ao caso, os favores do poder político. O Bloco de Esquerda já estava pronto e assim nasceu a geringonça. Depois, os mesmos astros ditaram que depois de uma séria crise económica provocada principalmente pelo PS de José Sócrates e resolvida em grande parte pelo PSD, a governação socialista se iniciasse com o crescimento económico na Europa e no Mundo e Portugal tivesse aproveitado, ainda que de forma modesta, esse empurrão. Finalmente, a sorte de António Costa e do Governo não terminou e chegou uma terceira vaga da fortuna sob a forma de um vírus chamado Corona. 

Não se surpreendam os leitores, porque nem tudo o que é mau para a generalidade dos portugueses é fatalmente mau para o poder político. Pensem apenas que a fotografia de António Costa está em ponto grande em todos as primeiras páginas dos jornais portugueses, que as televisões só falam das medidas, boas ou más pouco importa, publicadas pelo Governo, que os ministros, secretários de Estado, directores-gerais, deputados e políticos avulsos não saem das televisões com loas ao PS e ao Governo. Para mais, num tempo em que se deu o milagre de todos os outros partidos não quererem perder a sua parte de glória na comunicação social e tenham esquecido, e bem, as suas habituais dissensões. 

Mas há mais, a União Europeia abriu a bolsa e nos próximos tempos não tomará conta do défice público e assim poderemos gastar à vontade – se bem se mal, logo se vê no futuro – mas, entretanto, o bom povo aprova. Finalmente, no futuro mais longínquo, quando o cinto voltar a apertar, o Governo, António Costa e o PS já têm a desculpa ideal, a crise económica provocada pelo Corona Vírus, nem mais nem menos. Se tudo isto não é sorte, não sei o que será.    

Coisa diferente é saber se as medidas adoptadas pelo Governo são, ou não, adequadas à situação que estamos a viver. Com a nota de que não se sabendo ao certo, dada a novidade do vírus, os partidos e os portugueses em geral meteram a viola no saco, até ver, dado que qualquer crítica seria mal vista pela população portuguesa. Pela minha parte, confesso que teria feito diferente, por duas razões:

1 – O vírus nasceu na China e, como seria de esperar, chegou a Portugal na ponta da Europa e junto ao mar muito mais tarde, ou seja, tivemos tempo mais do que suficiente para decidir o que fazer e organizar a defesa. As convocações do que penso se chama Conselho Superior da Saúde e o Conselho de Estado deveriam ter sido feitas no início da pandemia na China, porque talvez que alguém com poder político e algum bom senso tivesse sugerido fechar as fronteiras. Agora, tarde demais, trancas à porta.

2 – Como o vírus residia fora de Portugal e não no interior do País, a decisão óbvia seria pois fechar as fronteiras – aérea, marítima e por terra – provavelmente com duas condições: (a) impedir todos os estrangeiros de entrar em Portugal; (b) permitir a entrada, ou o regresso dos portugueses, na condição de aceitarem “voluntariamente” as duas semanas de quarentena. O caso dos portugueses que chegaram de Itália deveria ter sido, pelo menos este caso, melhor tratado.

Claro que nada disto aconteceria sem custos humanos e económicos, nomeadamente a queda do turismo, as complicações para as empresas que precisam de fazer os seus contactos internacionais e receber compradores, o transporte aéreo, etc., mas os custos vão aparecer agora de forma mais grave, provavelmente com uma crise no SNS e algumas mortes. Seja como for, o vírus não chegará por via digital e essa será a forma de tratar de tudo o que necessitamos do exterior das nossas casas, desde as importações a encomendar refeições, as compras do supermercado, com os riscos próprios, está bem de ver, mas o risco existe desde que nascemos.

Apesar disso, tenho muitas dúvidas sobre a histeria colectiva em que estamos a cair, mas como não sei o suficiente sobre o assunto fico com as minhas dúvidas e, até ver, aceito de boa vontade tudo o que os serviços de saúde decidirem. Quanto ao futebol, espero que os comentadores tirem férias das televisões; e como não há nada que se possa fazer relativamente aos muitos comentadores da epidemia, há sempre a salvação de ligar a Netflix.

As cartas estão agora lançadas e vamos ter que conviver com o vírus dentro da nossa própria casa nacional, na lotaria que será sempre a nossa vida independentemente das precauções tomadas e sempre insuficientes, já que somos um povo que, para o bem e para o mal, não brilha pela disciplina. Por exemplo, acabamos de saber pela chamada ministra da Saúde que só agora é que estamos a encomendar os materiais de protecção que, estranhamente, não encomendámos no início da crise na China. O mesmo com a linhas telefónicas para dar a informação essencial a quem poderá estar doente e só agora o Governo está a providenciar a instalação de mais linhas e mais recursos humanos. 

Voltando à questão do fecho das fronteiras, essa já foi a solução encontrada por alguns países como a Dinamarca e a República Checa, mas não sabemos ainda qual será o resultado, como não sabemos da bondade da solução britânica. Em qualquer caso, os milhares de turistas que por aí andam em liberdade não deve ajudar ao controlo do vírus, como não ajudaram as centenas de profissionais e de turistas portugueses que chegaram de Itália, que é o país europeu mais atacado pela segunda vez na história. Entretanto, sabemos que os países e re-
giões que organizaram as suas defesas com rapidez no início da crise, como Macau, Singapura e a Formosa, tiveram sucesso.

Tenho a convicção de que a vacina necessária para terminar com a crise chegará mais tarde ou mais cedo. Nunca como hoje tivemos à nossa disposição tanto conhecimento, tantos milhares de centros de investigação e tantos milhares de cientistas a trabalhar para nos defender. Suponho que, neste caso, ninguém se vai preocupar se isso se passa nas instituições privadas ou públicas, ainda que entre nós e de forma subtil a defesa do público esteja presente nas mais diversas intervenções. 

Finalmente, resta-nos confiar no conhecimento e na dedicação dos milhares de médicos, enfermeiros, técnicos e todas as pessoas que trabalham nos serviços de Saúde, sejam públicos ou privados, e agradecer o seu trabalho e a sua competência. ■