Matemática de COVID-19

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Escrevo hoje ainda sobre a nova doença, o COVID-19. 

É perigosa e tinha de ser atacada de forma violenta no início. Não foi, ainda temos algum tempo e parece que as medidas acabarão por ser tomadas, mais por reacção do que por acção. Infelizmente, no dia em que escrevo, já temos mais de cinco mil infectados à solta na população, como se verá no dia da próxima edição deste jornal, dentro de oito dias.

Os matemáticos evidenciaram-se nesta crise. Jorge Buescu, por exemplo, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, teve um artigo muito citado, e altamente irresponsável, em que desvalorizava esta terrível crise, dizia ele citando o altamente irresponsável José Antonio Lopez Guerrero:

“A virose em si não é complicada; um dos maiores virologistas espanhóis e Presidente da Sociedade Espanhola de Virologia, José Antonio Lopez Guerrero, descreve-o como ‘mais do que um catarro, menos do que uma gripe’. 80% dos casos são assintomáticos ou têm sintomas muito leves. Apenas em 5% dos casos existem complicações graves, na sua grande maioria em grupos de risco: por exemplo, pessoas com bronquites crónicas, DPOC ou sistema imunitário estruturalmente enfraquecido como doentes oncológicos. São essas pessoas que podem estar em perigo – tal como estariam, com o mesmo nível de risco, se contraíssem uma gripe comum.”

Este ponto tem diversas falsidades. A gripe tem uma taxa de morte vinte vezes maior, ou mesmo mais (como em Itália), do que a gripe normal. Tem muitíssimo mais casos críticos do que a gripe (e não são 5%, são 8%). Numa população de muitos milhões como a Itália, a Espanha ou a Alemanha, são centenas de milhares de casos a mais. Para além disso, esta doença mata para além da gripe, os doentes vulneráveis são os mesmos, mas a gravidade das doenças é radicalmente diferente nos dois casos.

Em Portugal, o “especialista” e catedrático de saúde pública, o porta-voz do Conselho Nacional de Saúde Pública, o professor doutor Jorge Torgal, que se cobriu de ridículo com a célebre reunião na semana passada em que passaram um dia inteiro a discutir para não decidirem nada, veio afirmar que este vírus era “menos perigoso do que o vírus da gripe”. Se pode ter uma aparência de razão nas mortes acumuladas ao longo de centenas de anos, é completamente acéfalo fazer uma observação destas sobre uma doença nova, que já se sabia tinha uma taxa de contágio elevadíssima e cuja letalidade era também muitíssimo superior à da gripe.

Felizmente, Jorge Buescu viu as contas a sério: antes estava a pensar, obviamente, de forma leviana, arrependeu-se e assustou-se, mudou de opinião. Viu a enorme irresponsabilidade social do seu acto de conferir uma chancela séria, com assinatura académica, a uma opinião irresponsável e irreflectida, travou às quatro rodas e fez marcha atrás. Esta sua mudança de posição, informada e ponderada, deixou-o vítima do descrédito e do ataque pessoal. É evidente que deveria ter pensado melhor antes de mandar bocas irreflectidas que ecoaram de forma viral nas redes sociais, incentivando a comportamentos de risco e pouco cívicos.

O maior aliado dos serviços de saúde nesta crise é o medo. Fomentar comportamentos levianos é criminoso e mata. Não tenho qualquer dúvida sobre o que estou a escrever: menorizar este vírus e afirmá-lo publicamente é matar pessoas, mesmo que indirectamente. Os eternos optimistas, ou alienados, sem informação, acham que devem fazer a vida na mesma, e uma opinião de professores universitários nesse sentido é um convite a irem para a praia no início da expansão de uma doença que matará muita gente e nunca mais deixará o Mundo igual.

Fica agora a mensagem realista e séria: esta é uma doença grave, mas tem uma forma de ser limitada. Foi assim na China e em Macau, na Coreia está a resultar, em Singapura está a resultar, na Itália parece estar a abrandar.

Os matemáticos baseiam todos os seus cálculos num modelo altamente testado em todos estes fenómenos, baseado num trabalho de 1927 de dois amadores, na altura, considerados os fundadores da epidemiologia, Kermack–McKendrick, que se basearam nos trabalhos de Hudson e Ross.

Neste caso, os modelos foram melhorados e sofisticados no tempo, e foram perfeitos para modelar a crise do Ébola e todas as anteriores pandemias. Cada doença é diferente: os tempos de contágio e as taxas de contágio por pessoa, os tempos de incubação com e sem contágio, se os mortos podem contagiar ou não, são inseridos no modelo. No Ébola, os mortos são muito perigosos, tocar num cadáver é muito perigoso. Nesta doença ainda não se sabe se a imunidade se perde ou não com o tempo. Mas estes modelos, com a informação dos cientistas chineses e outros que já publicaram o que sabem e viram no terreno, já são fiáveis. Esses modelos são muito fiáveis para prever o que poderia acontecer.

A previsão de uma epidemia é muito mais confiável do que a da meteorologia, por exemplo. O resultado das previsões iniciais era penoso. Se o Governo nada fizesse, o balanço seria de setenta mil mortos em Portugal. Com estas medidas, graves, que se adoptaram esta semana, se resultarem, vamos ter menos de 2.000, talvez mesmo muito menos se fecharem todas as rotas aéreas (e não apenas algumas como se isto fosse a guerra do Solnado), poderiam mesmo ficar abaixo do limiar normal de uma gripe sazonal. Morrem 300 pessoas por dias em Portugal, e alguns idosos que morrem desta doença, morreriam ainda este ano. O problema poderia ser minimizado, mas isso implicaria fechar fronteiras durante muito tempo, pois a população não ficaria imunizada e seria sensível a todo o momento a um reacender da doença. Há duas formas de intervir, que baixam muito a multiplicação da doença: trata-se, no fundo, de baixar dois parâmetros cruciais do modelo – diminuir o número de contactos de cada pessoa (quarentenas, eliminação de viagens, fecho de tudo o que é público) e aumentar a resistência ao contágio (com higiene, máscaras e distância entre as pessoas).

Como escrevi anteriormente aqui, a grande esperança é uma vacina e essa parece que já tem passos largos dados pelos chineses e, citam outros, os americanos. Haja esperança. ■