Dar tempo ao tempo ou o privilégio do futuro

“António Costa tem hoje a sua gente em tudo o que é lugar de nomeação do Estado, comprou a administração pública e conseguiu muitos apoios em sectores das elites portuguesas que não quererão aceitar que se enganaram. Razão por que um outro governo, qualquer que seja, terá sempre uma vida muito difícil. Deixemos, pois, que seja António Costa a dirigir a próxima austeridade. O Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Governo do PS que continuem a afundar o País e deixemos que sejam os apoiantes da geringonça a resolver os problemas que criaram e não quaisquer outros, por melhor intencionados que sejam”

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Por uma vez estou de acordo com o Presidente da República e com o Partido Socialista, por não quererem um governo do bloco central, ou um governo de salvação nacional, como tem sido proposto em alguns sectores da sociedade portuguesa como a forma de Portugal sair do atoleiro onde os governos socialistas o meteram. Dito isto, são precisas explicações.

António Costa e a extrema-esquerda têm o apoio maioritário dos portugueses e não adianta pensar, ou dizer, que os portugueses estão enganados. Para uma mudança de governo que possa fazer as reformas necessárias e realizar as políticas que nos retirem da cauda da Europa é preciso que uma ampla maioria de portugueses verifique essa necessidade. Infelizmente, a única forma de o conseguir de forma duradoura é deixar que os portugueses sofram o suficiente até compreenderem o erro em que caíram. Ou seja, Rui Rio terá razão se, como dizem, acredita que são os governos que perdem as eleições e não as oposições que as ganham.

Temos aliás sobre isso uma experiência recente. O PS de José Sócrates fugiu de governar quando o então Primeiro-Ministro se demitiu e o PSD aceitou assumir a governação e tentar resolver os problemas herdados, o principal dos quais era o descrédito de Portugal no plano económico e uma situação financeira ruinosa. Pedro Passos Coelho foi um político sério, ainda que politicamente mal preparado e pouco previdente, que aceitou o encargo demasiado cedo e antes de os portugueses chegarem ao fim da ladeira da previsível bancarrota. 

Ou seja, não foi nada que o oportunismo político de António Costa não conseguisse transformar numa vitória do PS e na demonização de Passos Coelho, fazendo-o através de políticas de distribuição e de uma evolução económica internacionalmente favorável, além, naturalmente, de uma máquina de propaganda bem oleada e do uso do dinheiro dos contribuintes para sustentar os sectores tradicionalmente dependentes do Estado.

Por uma vez não sejamos inocentes, António Costa tem hoje a sua gente em tudo o que é lugar de nomeação do Estado, comprou, com a oferta de menos trabalho e de promessas vagas, a administração pública e conseguiu muitos apoios, mesmo os envergonhados, em sectores das elites portuguesas que não quererão aceitar que se enganaram. Razão por que um outro governo, qualquer que seja, terá sempre uma vida muito difícil e quaisquer reformas que impliquem privilegiar o futuro serão conotadas, novamente, com a direita, o que conduziria ao provável reforço da cultura de esquerda agora dominante. Deixemos, pois, que seja António Costa a dirigir a próxima austeridade. 

Sejamos claros: o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Governo do PS que continuem a afundar o País e deixemos que sejam os apoiantes da geringonça a resolver os problemas que criaram e não quaisquer outros, por melhor intencionados que sejam. Claro que haverá sofrimento social, é evidente que a economia portuguesa baterá no fundo, mas Portugal como Nação independente e as novas gerações agradecerão que estes governantes possam mostrar bem, finalmente, o que valem.

Acresce que a presente pandemia e todo o sofrimento que provoca, está, de alguma forma, a servir os interesses do presente modelo político dominado pela extrema-esquerda, na medida em que a propaganda do Governo e algum dinheiro distribuído permitem introduzir na opinião pública a ideia de que o Estado, embora imperfeito, é a razão de todas as coisas e que não há outra solução social fora deste Estado de esquerda. Essa é a razão por que o Governo tudo faz para marginalizar os sectores privados e sociais, seja na saúde seja nas empresas, e esconda, a meias com a comunicação social, o que as empresas têm feito, nomeadamente as exportadoras, para manter a economia portuguesa com a cabeça fora de água. Os apoios do Estado aos sectores privados têm sido dirigidos, principalmente, para as pequenas empresas em crise, muitas das quais, infelizmente, mais tarde os mais cedo, desaparecerão.

Senão, vejamos: os meios de comunicação têm dado ampla cobertura aos surtos pandémicos que surgem nos lares, mas ninguém fala de surtos nas empresas, porque não existem; fala-se sem parar das desgraças do confinamento, mas ninguém fala dos agricultores que continuam a fornecer os supermercados, dos pescadores e do peixe que nos chega diariamente, ou sobre as exportações que são mantidas quase ao nível anterior à pandemia; fala-se muito da TAP e do milagre de os transportes públicos  funcionarem, mas ninguém fala das centenas de empresas privadas que levam os portugueses de um lado para o outro um pouco por todo o País. Ninguém fala de quem faz os testes, ou das filas de espera à porta dos hospitais privados, porque não as há. Os sectores privados da economia são o parceiro silencioso dos portugueses nesta crise, o que o Governo tenta esconder da opinião pública. Ainda estou para saber a razão de os médicos alemães terem sido colocados num hospital privado. Será a tradicional cultura do novo rico? Não sei.

Sei apenas que, apesar de não gostar da propaganda, o que me faz sempre recuar a Joseph Goebbels, não posso deixar de admirar o trabalho profissional realizado por José Sócrates e aprofundado por António Costa no direcionamento da atenção dos portugueses. Neste tempo de pandemia, muito pouco de importante do que acontece entre nós ou no mundo é conhecido ou debatido em Portugal, mas já estou pelos cabelos com tanto escarafunchar de narizes e de ver espetar tantas agulhas enormes no braço dos portugueses. Já agora, também das portuguesas, está bem de ver.

Mas voltando à questão dos governos de iniciativa presidencial, estamos conversados. O País de Ramalho Eanes já foi chão que deu uvas, hoje cada um pensa essencialmente na sua conta no banco, no próximo emprego, ou no seu lugar na história. Razão suficiente para termos de mudar de políticas e de aprender a pensar o futuro, começando pela enorme tarefa de fornecer a todos as crianças portuguesas os saberes, os comportamentos e as competências que lhes permitam sair da pobreza e sobreviver neste planeta maravilhoso em mudança acelerada, sem a dependência deste Estado em estado comatoso.

Reforço o meu ponto de vista: o que se passa em Portugal, como noutros pontos do Globo, é do domínio de uma cultura de dependência e de uma política de ilusões comandadas por velhas ideologias de ‘depois de nós o dilúvio’ de Luís XVI até à revolução de Lenine, que daria lugar ao homem novo, cujos melhores exemplos serão os actuais presidentes Vladimir Putin e Nicolas Maduro. Não podemos, nem devemos, subestimar esta cultura de esquerda com a ideia de que o Governo de António Costa, sendo incompetente na construção de um Portugal mais moderno e mais feliz, é incompetente em tudo o resto. Não é, e será um osso duro de roer se não o deixarmos mostrar o que vale no final do dia. ■