O poder e a crítica aos poderes

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A semana passada ouvi na televisão uma afirmação do ex-ministro Marçal Grilo que me deixou perplexo e me fez pensar, por ter contribuído para colocar em causa o direito à crítica que eu também tenho usado, e de que tenho porventura abusado, ao longo dos anos. Marcelo Grilo disse mais ou menos o seguinte: “a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Enfermeiros têm sido parte do problema (da pandemia) e não parte da solução”.

Dado o respeito que tenho por Marçal Grilo, razão de ver o programa semanal em que participa, fui obrigado a reavaliar mentalmente a minha posição ao longo dos anos por ser crítico de vários governos, pensando estar a defender Portugal e os portugueses e, nomeadamente, por estar a fazê-lo durante a presente crise. Neste processo de introspecção pessoal recordei outros críticos amigos com quem colaborei, como o saudoso Henrique Medina Carreira, ou o João Salgueiro e o Luís Campos e Cunha, causa de termos pertencido ao restrito grupo dos pessimistas e miserabilistas, por força dos textos que publicámos. Perguntei-me mesmo se o Luís Campos e Cunha teria feito melhor ficando no Governo de José Sócrates a ser parte do problema.

Avaliei mais concretamente esta questão de as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros poderem ser parte do problema da pandemia. Pensei, naturalmente, que as respectivas direcções foram escolhidas pelos médicos e pelos enfermeiros, os quais teriam toda a legitimidade para considerarem que as críticas feitas às decisões do Governo neste caso da pandemia eram desadequadas. Mas não o fizeram, pelo contrário, ouço diariamente essas mesmas críticas a serem feitas pelos médicos e pelos enfermeiros individualmente. Que são os mesmos médicos e enfermeiros que estão a ser universalmente encarecidos e elogiados pelo seu trabalho na chamada linha da frente.

Pensei ainda, naturalmente, que a afirmação de Marçal Grilo poderia ter sido um mero descuido de raciocínio, acontece a todos, a não merecer muita atenção. Mas recordei depois que no passado foram descuidos semelhantes de muitas pessoas com responsabilidades na vida pública, nomeadamente muitos comentadores nas televisões, que ajudaram a manter no poder governos que, sabemos hoje, contribuíram para colocar Portugal no carro vassoura da Europa e que muito empobreceram o País devido a erros semelhantes e que quase toda a gente agora critica. Recordei ainda que o Governo tem feito grandes elogios aos médicos e aos enfermeiros, os heróis do momento, mas que, ao mesmo tempo, tem hostilizado as suas instituições representativas, nomeadamente fazendo ouvidos moucos às suas queixas e às suas críticas. Por exemplo, ambas as instituições não foram sequer chamadas a participar nas reuniões dos chamados especialistas e colocou-se-me a questão de saber quem será mais especializado do que os médicos e os enfermeiros que convivem diariamente nos hospitais com os doentes da pandemia? Ou quem estará em melhor posição do que eles para fazer sugestões? 

Pelo meio recordei-me da minha experiência de empresário e do senhor Mendes. O senhor Mendes era um quadro da empresa de que ninguém gostava por descobrir os erros e falar alto sobre esses erros, incluindo os meus. Por várias vezes tive de defender o senhor Mendes na administração da empresa, para evitar que ele fosse despedido, e a razão era simples: fui eu que cedo assumi a função de avaliar as reclamações dos clientes e era no senhor Mendes que eu confiava para fazer uma primeira análise, com a certeza de que não haveria qualquer protecção ao erro, ou àqueles que o cometiam. O senhor Mendes reformou-se antes de mim e recordo-o como um dos mais leais colaboradores que tive, porque ele procurava a verdade e valia bem o inconveniente de não ser popular. 

Deste conjunto de razões, pensamentos e dúvidas, acabei por concluir que foi Marçal Grilo que errou, não por ter a opinião que expressou, mas porque essa opinião justifica e encobre os erros cometidos pelo Governo, ou seja, contribui para os perpetuar.  Acresce que sucessivos governos têm tido comportamentos de auto-suficiência, de não ouvirem quem deles discorda e de assumirem decisões que o tempo demonstrou estarem erradas. Governos que por ignorância, ou por força dos interesses estabelecidos, têm consumido o tempo e os recursos do País. Não vou enumerar casos do passado, são conhecidos, recordo apenas um caso do presente, a questão do hidrogénio. Neste caso, temos um ministro volúvel e um secretário de Estado ignorante que não ouvem os cientistas das nossas melhores universidades, ou especialistas nas questões da energia, nacionais e internacionais, e não mostram o bom senso que a experiência atribui a quem a tem. Neste caso, como no caso das imprevisões e das imprudências do Covid, desvalorizar a critica é colaborar com a auto-satisfação errática do Governo.

Por exemplo: (1) o que justifica não haver uma base de dados de todos os portugueses para proceder à vacinação, quase um ano depois do início da crise, existindo para pagar impostos; (2) o que justifica não existir um controlo centralizado nacional da capacidade de cada hospital, do SNS, privados e do sector social; (3) o que justifica não haver um acordo anual entre o Estado e as instituições de saúde privadas e sociais, com a previsão de preços padrão normalizados em vez de o Primeiro-Ministro se regozijar por ter feito  agora e à pressa cerca de quarenta acordos e, ajuízo, mais caros; (4) o que justifica não haver uma comissão permanente de cientistas a aconselhar o Governo, em vez da existente comissão de geometria variá-
vel de especialistas que reúne de forma errática; (4) o que justifica que durante o inicio da pandemia a Administração não tenha adquirido como precaução todos os materiais necessários e organizado todos os serviços na previsão do pior, evitando as permanentes improvisações a que assistimos com custos acrescidos e mortes desnecessárias – o último caso é a falta de seringas, será que não se sabia quantas seringas eram necessárias?; (5) o que justifica que os idosos dos lares sem condições de isolamento individual não tenham sido colocados nos hotéis fechados por ausência de clientes; (6) o que justifica nomear um quadro político do PS em ‘part time’ para organizar a vacinação, em vez de um especialista independente a tempo inteiro e com todos os poderes necessários. 

Não será necessário alongar a lista para ajuizar da dimensão dos erros cometidos pelo Governo na presente crise, erros que todos conhecem – e nem sequer entrei nas questões económicas, em que o governo se limita a gastar, frequentemente sem critério. Quando custarão ao País as 35 horas de trabalho dos funcionários públicos? 

Em resumo, a crítica não é apenas um direito, é um dever de cidadania. As críticas, se excessivas ou desadequadas, serão julgadas pelo tempo, que é o único juiz habilitado para o efeito. As críticas à critica têm geralmente a sua origem nas tentações do poder ou na sua convivência. Devemos, pois, perdoar os excessos das críticas aos poderes instituídos, a existirem esses excessos, pelo bem que fazem às sociedades democráticas, a fim de prevenir os excessos das certezas autoritárias. Nomeadamente em Portugal, onde a democracia é comprometida pela existência de demasiados poderes partidários e onde o autoritarismo está longe de estar vencido. ■