Estratégia e Modernidade

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A ausência de um pensamento estratégico dos partidos políticos portugueses e a falta de formação dos seus militantes e dirigentes, bem como a inexistência de estudo dos problemas nacionais, resulta em que a governação de Portugal é feita por impulsos, uns mais adequados do que outros, mas quase sempre sem um rumo globalmente consequente. O que é preocupante, porque vivemos hoje num planeta em mudança acelerada e cheio de novidades, o que faz de Portugal um país particularmente vulnerável quando se trata de fazer escolhas, situação agravada pelos atrasos que ainda temos nos planos da educação, da economia e da organização do Estado e sem instituições da sociedade, livres, fortes e independentes.

O resultado desta combinação de factores diversos é que as decisões vão de uma forte vontade de sermos modernos e adoptarmos os últimos gritos da tecnologia mundial, para a contemporização com atrasos económica e socialmente muito relevantes. Por exemplo, por uma qualquer razão decidimos que deveríamos estar na linha da frente na produção de electricidade por via eólica, ou na utilização de automóveis com motores eléctricos, ou ainda na mobilidade rodoviária, para o que construímos auto-estradas sem parar, ao mesmo tempo que sobrevivemos com empresas de transporte ineficientes e desprezámos a ferrovia que já temos há mais de um século. Ou seja, combinámos, sem critério conhecido e sustentável, decisões que pensámos muito avançadas e modernas, com outras que nos colocam entre os países com maiores atrasos.

Como parece evidente, estes impulsos de modernidade sem critério e sem o estudo adequado, têm custos muito elevados e criam enormes desequilíbrios no nosso processo de desenvolvimento. O resultado final é uma elevada ineficiência no sector energético e a um custo insustentável, ou postos de abastecimento de automóveis eléctricos que são óptimos espaços de estacionamento. Ao lado, o Estado sobrevive com sistemas informáticos adquiridos no estrangeiro a peso de ouro, mas que são uma manta de retalhos sem coerência global e com problemas permanentes para dar resposta às necessidades de organização do Estado, ainda que tenhamos empresas nacionais no sector de sistemas de informação de elevadíssima qualidade. Todavia, por alguma razão, preferimos a IBM e a Sapo.

A modernidade não é uma panaceia para o desenvolvimento dos países e as novas tecnologias que não controlamos no seu início só devem ser adquiridas e adoptadas passada a sua primeira fase e quando a curva do seu custo torna a tecnologia mais competitiva e é menor a probabilidade de surpresas desagradáveis. Não sendo assim, os sistemas adquiridos com um custo excessivo tornam-se rapidamente obsoletos e foi isso mesmo que aconteceu com os nossos sistemas de produção de energia, quer eólica quer solar, ou com os poucos carros eléctricos nas nossas estradas. Será diferente quando a tecnologia tem uma origem nacional, porque nesse caso a sua utilização será útil, ainda que de forma moderada, com o objectivo de potenciar a sua divulgação.

Talvez que o caso mais trágico da nossa paixão pela modernidade tenha sido a construção de auto-estradas de todos os lados para todos os lados, sem critério e sem planeamento, ao mesmo tempo que se desprezou o sistema ferroviário, para mais quando já era visível, por razões energéticas e ambientais, que a ferrovia seria o futuro da mobilidade das pessoas e das mercadorias, algo que a China compreendeu muito bem.

Em resumo, a indefinição estratégica em que vivemos, combinada com um certo voluntarismo modernizador, auto-suficiente e impreparado, arruinou o nosso País e empobreceu a generalidade dos portugueses.

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