Faltam adultos na sala

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A sala nesta equação é o topo do regime político português, composto por pessoas que estão no topo das sondagens e da aprovação do bom povo, mas que, pouco a pouco, vão atrasando o País no contexto de todas as outras nações da União Europeia. Que poucos se atrevam as fazer comparações usando dados objectivos, é apenas uma parte da tragédia de ser hoje português.

O que se passou a semana passada na AutoEuropa é uma vergonha. Em primeiro lugar por ser na casa que originou as maiores exportações de sempre da economia portuguesa, se considerarmos os componentes que não existiriam sem a vinda para Portugal da empresa. Em segundo lugar, porque ninguém falou das razões de a AutoEuropa ter fechado, quando se sabia que tinha dificuldade em entregar carros suficientes. Foi uma decisão da Alemanha, ou da CGTP? Não sei, mas gostaria de saber.

Mas a questão mais vergonhosa, são duas: as intervenções sobre o pagamento de 850 milhões de euros ao Novo Banco e o lançamento da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à sua própria sucessão em Belém. Sendo que a primeira foi certamente congeminada na cabeça maquiavélica do Presidente da República e a segunda pelos ‘spin doctors’ do PS, para o lançamento da campanha, a seis anos de vista, de António Costa à Presidência da República. O bom povo não sabe nada disto, mas a seu tempo saberá.

Sobre o Novo Banco, para quem não andar distraído, a questão do BES/Novo Banco é uma história de terror em capítulos. O primeiro capítulo resultou do conluio de Ricardo Salgado com o regime político português, supostamente democrático, desde um Primeiro-Ministro à fina flor de algum empresariado e de gestores bem pagos e pouco honestos.  Além de uma Justiça que, por várias razões, não funciona, ou melhor, que o regime político não deixa funcionar. Ou seja, no centro do problema está um regime político corrupto. Para quem tiver dúvidas, aconselho a leitura do livro “Corrupção” do jornalista Eduardo Dâmaso.

A segunda fase teve vários participantes, além de Passos Coelho: a União Europeia e o BCE, o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, e o secretário de Estado Sérgio Monteiro, além de outros. Na parte um da segunda fase, o papel principal coube à União Europeia, que obrigou o pusilânime Governador do Banco de Portugal a tornar o BES a cobaia da Europa, para ver no que dava, à custa da bolsa dos portugueses. A segunda parte da história coube a Sérgio Monteiro, que descobriu o fundo norte-americano como único comprador do BES. Este Sérgio Monteiro faz parte do filme burlesco da governação em Portugal, que relata a história de alguns chico-espertos que entram nos governos para cuidar da vidinha, mas isso é outra história que fica por contar.

Na parte dois da segunda fase, Sérgio Monteiro manteve a sua colaboração, mas agora com o Governo de António Costa, que depois de muitas idas e vindas considerou, apesar de haver bancos portugueses interessados, que o comprador ideal seria a Lone Star. António Costa não equacionou quaisquer outras soluções e magicou a ideia de quem pagaria a conta seriam os bancos portugueses, sem lhes perguntar se, já que pagavam a conta, não seria melhor ficarem com o BES. Na comunicação social surgiu um texto de vários economistas e gestores portugueses horrorizados com o negócio, mas a comunicação social portuguesa e os partidos políticos fizeram o favor de desconhecer as verdades ali escarrapachadas. Já agora, não acredito que um negócio tão estupido como aquele possa ter sido feito sem que ninguém recebesse dinheiro. Trata-se de uma convicção pessoal, mas para que conste é apenas um palpite, porque não sei.

A terceira fase, a mais hipócrita, surgiu agora através da ópera bufa encenada entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro na AutoEuropa. Nenhum deles morre de amores por pessoas com a coluna vertebral no sítio, ou não bajuladoras, como parece ser o caso do Ministro das Finanças. Assim, Mário Centeno foi o Ronaldo das Finanças apenas enquanto a ideia das contas certas servia a todos, mas deixou de o ser a partir do momento em que ele deixou de aceitar pagar todas as contas desta nova fase da crise de pandemia e de ano eleitoral, que impunha uma política de bolsa mais aberta. Recordo, a propósito, a história antiga de um período semelhante em que Mário Soares, próximo de eleições, pretendia aumentar os funcionários públicos e o ministro Ernâni Lopes lhe respondeu: “certamente, mas com outro Ministro das Finanças”. Mas isso eram outros tempos e outros homens. 

Agora é o tempo de culpar Mário Centeno para que avance a tarefa populista de convencer o bom povo português de que o Presidente e o Primeiro-Ministro trabalham em equipa para o defender dos maus, no caso dos banqueiros e da imoralidade de em plena crise, em que há portugueses com fome, conceder mais 850 milhões de euros ao Novo Banco. Que o Ministro das Finanças tenha apenas feito o que teria de ser feito, que estava escrito, preto no branco, no Orçamento de Estado que ambos assinaram, não tem qualquer importância, já que ambos têm o direito a não ler o O.E., ou a terem má memória. O Ministro é que não tem o direito de dizer que pensava que eles sabiam que o pagamento era devido no dia 6 de Maio e deveria ter adivinhado que o Primeiro-Ministro iria mentir à deputada Catarina Martins em plena Assembleia da República.  

Em resumo, Mário Centeno foi o único adulto presente na sala e teve o suficiente sentido de Estado para seguir o conselho de Álvaro Cunhal e seguir em frente de olhos fechados, a fim de evitar o desastre financeiro que poderia seguir-se a uma crise política. 

Apesar de as cenas da AutoEuropa não serem previsíveis, por serem más de mais, o facto é que conhecendo os actores/encenadores da peça da AutoEuropa e os seus objectivos, não surpreende. Basta olhar para os currículos de ambos, repletos de malandrices e de facadas das mais variadas tipologias, para saber o que devemos esperar. Claro que uma parte importante do bom povo português, sentimental e emotivo, só olha para os beijos e abraços, para a profusão de ‘selfies’ e para as televisões aduladoras do poder, para aceitar ser dirigido por quem não tem a dimensão necessária para os cargos que ocupam.

Daqui a alguns anos, quando as cenas recentes da AutoEuropa e outras semelhantes forem história, muitos portugueses arrancarão os cabelos, mas será tarde. Até lá, deveríamos, pelo menos, compreender que os povos não se dividem apenas pelos seus níveis de riqueza, mas, principalmente, pelos seus níveis de educação e de formação humana e profissional, o que é evidente no dia-a-dia da nossa vida colectiva. Razão por que ando há anos a pregar que é nas creches e no ensino pré-escolar que poderemos mudar Portugal, tornando-o semelhante às outras democracias avançadas da Europa e acabando com cenas como as que aqui descrevi. O que já constituiu o principal objectivo nacional a seguir ao 25 de Abril. Recordam-se? ■