A questão do regime (II)

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Continuamos a estudar as fontes da ilegitimidade do regime português de hoje.

Na semana passada analisámos a ilegitimadade eleitoral, num primeiro aspecto por falta de representação democrática das eleições e a sua falta de participação, e num segundo ao nível da mentira e falta de cumprimento de promessas e programas por parte dos eleitos, mal chegados ao poder.

Infelizmente, existe um terceiro nível de ilegitimidade governativa em Portugal, que discutimos neste ponto. Uma ilegitimidade que define de forma ainda mais premente a necessidade e urgência de uma subversão do Estado e das actuais instituições. Uma subversão que, no actual contexto, se impõe, legitimada apenas por valores morais e éticos, tendo em vista apenas o bem-estar do povo português, a honra do nome de Portugal e a implementação de um sistema verdadeiramente democrático em que, apesar de tudo, acreditamos.

Hoje abordamos então a estrutura dos partidos e o domínio da mediocridade em detrimento das elites, já de si extremamente reduzidas, de Portugal.

O terceiro nível da ilegitimidade reside precisamente na baixa qualidade dos políticos portugueses. Geralmente iletrados, de cultura baixíssima, academicamente irrelevantes, eticamente flexíveis, próximos de interesses obscuros, lacaios das grandes corporações económicas, onde servem após o serviço político (e a palavra público é expressamente omitida), estes políticos são um verdadeiro cancro que corrói o país e devora as entranhas do Portugal que outrora dominou os mares e a ciência e técnica em tempos de Renascimento.

Esta mediocridade lamacenta resulta da própria forma intrínseca do sistema assente em partidos. A actual casta de dirigentes começou o seu percurso há muitos anos, após o vinte e cinco de Abril. O sistema partidário favorece carreiras internas.

Jovens com poucos dotes intelectuais, mas muito ambiciosos, oriundos de estratos sócio-económicos arrivistas, a maioria oriunda da província, ostentando origens supostamente populares em tempos eleitorais, que desprezam e renegam quando tomam decisões, muitas vezes por vergonha do país real que os fez nascer.

Estes jovens entraram, por falta de alternativas reais em termos profissionais e a nível académico, nas juventudes partidárias. A escória da universidade, pessoas que demoraram dezenas de anos a terminar cursos superiores, acabados posteriormente ao início de carreiras políticas como autarcas, deputados ou chefes de gabinetes.

Estes jovens viveram anos a tentar escalar as estruturas partidárias, entrando em negócios mais ou menos duvidosos, acordos de circunstância, beneficiando de uma enorme teia de favores e dando favores e lugares em troca de apoios e acabando os estudos com a obtenção de canudos em escolas privadas mais ou menos lenientes. 

Há exemplos escandalosos, como o de Relvas, o do percurso académico de Sócrates, os estudos de Passos Coelhos também não são exemplares e os de António Costa e seus apaniguados não são muito superiores, nunca tendo de trabalhar no mundo real para chegar a lugares de ministro ou, inclusivamente, primeiro-ministro.

O problema não é a obtenção do canudo, isso é apenas um sintoma. O pior é o percurso, a entrada num mundo em que a ética deixou de ser absoluta para passar a ser relativa. Em que a palavra depende das circunstâncias e a honra não figura no catálogo de virtudes dos políticos. 

A teia em que um líder partidário se enreda antes de atingir os píncaros do poder deixa marcas indeléveis e agarra-se à sua actuação política como um vírus incurável. Esta forma de alcançar o poder, a constante dívida a pagar por todos os apoios, a sede de poder a todo o custo, a necessidade de assegurar um futuro risonho, a riqueza a que esta classe arrivista aspira, mancham a sua actuação política e deixam-nos vulneráveis, aliás muito facilmente, a servirem de títeres dos interesses económicos dos quais esperam reformas douradas como administradores, sem qualquer préstimo profissional, de grandes companhias. 

Será explicável como Marques Mendes foi administrador da EFACEC? Ou Armando Vara, antigo caixa, com curso tirado à pressa e um criminoso condenado, possa ser dirigente superior de qualquer banco?

O terceiro nível de ilegitimidade é a própria estrutura dos partidos e a forma como os seus dirigentes se cooptam a si próprios, sem qualquer consideração de mérito, que não uma boa imagem e uma boa capacidade discursiva e demagógica.

Os piores da sociedade portuguesa estão nas cúpulas dirigentes dos partidos do arco do poder. Não são os criminosos, que acabam na prisão, que são a escória da sociedade portuguesa e a têm destruído sistematicamente desde há quarenta anos. Quem tem destruído Portugal, provocado a emigração das elites intelectuais na força da idade e um decréscimo horrível da natalidade, que conduzirá à extinção de Portugal a prazo, têm sido os políticos e o sistema partidário pós-vinte e cinco de Abril. Os mesmos que fomentaram a economia da árvore das patacas do turismo em detrimento do verdadeiro desenvolvimento. 

Este sistema tem de ser subvertido com urgência, se queremos continuar a ser portugueses, pois é o próprio país que está em risco. ■

[Continua]