Vítimas reais e colaterais da Covid-19

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Obviamente, as principais vítimas da Covid-19 são aquelas que perderam entretanto a sua vida, por mais que seja impossível contabilizar o número daqueles que morreram realmente por causa da Covid-19; o número daqueles que morreram infectados pela Covid-19, ainda que não (apenas) por sua causa; o número daqueles que morreram entretanto por outras razões e que não foram devidamente acompanhados por força deste surto epidémico.

Sendo que, nestes três casos, as vítimas foram-no duplamente… Somos daqueles que consideram que o momento mais solene de qualquer vida é o momento da morte. Ora, durante o tempo de “confinamento”, todos aqueles que faleceram não tiveram direito ao devido funeral. E não será esse – perguntamos – o maior sinal de desrespeito nosso, em particular pelos mais idosos, as maiores vítimas da Covid-19?…  

Para além, porém, das vítimas “reais”, tem havido uma série de outras vítimas “colaterais” – falamos aqui, indo do mais universal para o mais particular, da Igreja Católica, da União Europeia e da “Gerigonça”.

Comecemos então pela Igreja Católica (Apostólica Romana). Quando até uma organização sindical (falamos, claro está, da CGTP) conseguiu com sucesso assinalar na praça pública o Dia do Trabalhador, o que terá levado a Igreja, em Portugal, a abdicar tão prontamente dos seus ritos, sobretudo na sua época mais solene, a época pascal? Não conseguimos encontrar nenhuma (boa) razão para tal. Já quanto às festividades do 13 de Maio, aí sim, teria sido difícil, senão impossível, manter o distanciamento social mínimo.

Falemos agora da União Europeia e da sua mil e uma vezes proclamada “solidariedade”. Ainda alguém acredita nela? Grande parte da opinião publicada continua a impingir-nos essa crença, contra todas as evidências, mas, claramente, com cada vez menos eco na opinião pública. Esta sabe que a União Europeia continuará a existir apenas enquanto for um bom negócio para os povos mais ricos do norte. E nem sequer nos poderemos (ou deveremos) indignar com isso: imaginemos que este vírus tinha atingido sobretudo os países mais ricos do norte da Europa; alguém acredita que os portugueses em geral ficaram particularmente solidários com esses países? Não! Muito mais solidários estaríamos (e estamos) com os países lusófonos…

Falemos por fim da nossa doméstica “Gerigonça”. Apesar de a sua morte já ter sido proclamada logo nas últimas eleições legislativas, esta pandemia também arrasou a crença dos seus mais fiéis e resistentes devotos, que continuavam a acreditar na sua ressurreição… Recentemente, o nosso Primeiro-Ministro perguntava (retoricamente, é óbvio) se poderia apenas contar com os partidos “de esquerda” em tempos de “vacas gordas”, isto quando eles passaram a proclamar de novo a “não austeridade”. Também aqui, não há crença (ou paciência) que resista: a crise económico-social que aí vem será, decerto, a maior do último século; há realmente alguém que consiga acreditar que seja possível a “não austeridade” nos tempos mais próximos? ■