Maria d’Aljubarrota: Enterrar a cabeça na areia da praia de Carcavelos

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ais uma rodada geral de hipocrisia a propósito da última batalha campal na praia de Carcavelos. A imprensa do costume falava em “dois grupos” misteriosos envolvidos numa rixa violenta – e uma pessoa que conheça aquele areal e a habitual pacatez dos seus frequentadores não podia deixar de estranhar. 

Que teria acontecido de tão grave para que os pacíficos veraneantes da praia de Carcavelos se envolvessem à pancada, fugissem à chegada da polícia e deixassem para trás, estendido na areia, um miúdo de 13 anos esfaqueado? Não fazia sentido. Sociologicamente, não fazia sentido.

O mistério manteve-se até o ‘Correio da Manhã’ publicar fotografias do desacato: só então se percebeu que os tais “dois grupos” eram dois conhecidos bandos de africanos que invadiram a praia para ali resolverem os seus diferendos à bordoada. Em poucos minutos, umas quantas dezenas de energúmenos infernizaram a vida de milhares de pessoas que assistiram à insólita cena, a lembrar as zaragatas de facas e sangue dos filmes de terceira categoria.

Já aqui tenho referido por vezes a hipocrisia que é querer tapar o sol com uma peneira de malha grossa. Tornou-se corrente uma parte da imprensa, aquela parte dominada pelo “politicamente correcto” da esquerda-caviar, tentar encobrir com uma fraseologia pseudo-constitucional os pormenores “incómodos” de um acontecimento envolvendo minorias. E se uso o verbo “encobrir” é porque se trata, na verdade, de um crime ético de encobrimento.

A dominância deste comportamento acaba por condicionar a generalidade da comunicação social, que não quer ser acusada de coisas feias. De tal modo que, mesmo em meios de comunicação que não comungam do “politicamente correcto”, instalou-se o medo de contar as coisas tal como elas se passam na realidade. Os mais afoitos recorrem a um expediente engenhoso: sem explicarem no texto a quem se referem, escarrapacham a evidência nas imagens, sem mais comentário. Fica tudo dito. 

Dêmos de barato à argumentação adversa que aqueles pruridos da esquerda-caviar se destinam, teoricamente, a garantir que as notícias que são difundidas não cometem o delito anti-constitucional da discriminação negativa. Certo. Mas pergunto apenas, nesse caso: se ficamos a saber a idade, a morada, o género e o número dos envolvidos, não será um pouco hipócrita esconderem-nos o elemento essencial para conhecermos a sua identidade, porventura o seu retrato cultural? Em quê consistiria discriminação negativa saber-se que os dois bandos envolvidos na rixa da praia de Carcavelos eram africanos de ‘gangs’ rivais da zona? Se o soubéssemos, talvez pudéssemos juntar dois mais dois e compreender que, em vez de se tratar de dois pacatos grupos de jovens (tivessem eles a cor que tivessem) que por acaso se encontraram na praia de Carcavelos quando iam dar um mergulho com as suas namoradas, se tratava dos mesmos ‘gangs’ que há muito estão referenciados pela polícia por envolvimento em malfeitorias várias, as quais trazem as populações da Linha em constante medo e sobressalto. Seria um elemento relevante para a compreensão dos acontecimentos. E a sua repetição (porque esta não é a primeira vez, nem a quinta, nem a décima que a praia de Carcavelos é tomada de assalto pelas mesmas pessoas) levaria a comunidade a encontrar formas de enfrentar um problema social grave. Fazendo-se como se faz, não: a ignorância dos factos eterniza os problemas e transforma-os em quistos. Enterrar a cabeça na areia nunca resolve.

Ainda por cima: se identificar as pessoas em causa pelo seu grupo étnico de origem pudesse ofender a sua dignidade, sem dúvida seria de hesitar. Mas nem isso acontece. Os africanos negros que já por várias vezes tomaram de assalto a praia de Carcavelos pertencem, precisamente, àquele grupo étnico que mais orgulhoso se diz das suas raízes e que mais se afirma pela cor da pele, a pontos mesmo de pisar o risco constitucional assumindo um racismo que repugna a qualquer pessoa bem formada. No caso de notícias envolvendo pessoas de etnia cigana, igualmente estamos perante uma comunidade orgulhosa da sua cultura e dos seus códigos, que raramente se deixa absorver pela sociedade envolvente e faz mesmo questão de se apartar dela. Se são as próprias minorias a defender a sua identidade, por que carga de água hão-de os jornalistas ocultá-la? Quem lhes encomendou o sermão?    

A questão, embora em circunstância diversa, pôs-se com igual acuidade há um ano, quando o grupo de trabalho nomeado pelo Governo socialista para preparar os próximos censos tratou de encontrar critérios que permitissem obter um retrato verdadeiro da sociedade portuguesa. Estes especialistas acabaram por concluir que é necessário perguntar aos cidadãos a sua origem étnico-racial-cultural – mais concretamente, se são brancos, negros, ciganos ou asiáticos, prevendo-se ainda dezenas de subcategorias em cada um destes grandes grupos. Preocupados com a possibilidade de lhes chamarem nomes feios, os membros do grupo de trabalho do Governo socialista “ouviram peritos, fizeram ‘focus group’ e encomendaram uma sondagem”. Resultado: “a larga maioria dos inquiridos concorda com a introdução da pergunta”. Quem sou eu para discordar?

Poder-se-ia, ainda, argumentar que a omissão dos dados étnicos se destinasse a cumprir a lei fundamental e a lei específica. Vejamos, então, o que dizem estes textos legais.

A Constituição da República, no seu artigo 37º, estipula que “todos têm o direito de […] informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações”, e que “o exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura”. A Lei de Imprensa, nos seus artigos 2º e 3º, afirma que “o direito dos cidadãos a serem informados é garantido” e que “a liberdade de imprensa tem como únicos limites os que decorrem da Constituição e da lei, de forma a salvaguardar o rigor e a objectividade da informação, a garantir os direitos ao bom nome, à reserva da intimidade da vida privada, à imagem e à palavra dos cidadãos e a defender o interesse público e a ordem democrática”. E o Código Deontológico dos Jornalistas limita-se a lembrar o óbvio: que “o jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da ascendência, cor, etnia, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social, idade, sexo, género ou orientação sexual”.

Não voltarei a este assunto. Apenas recordarei, a concluir, que informar cabalmente não é discriminar. A discriminação existe quando se oculta, propositadamente, deliberadamente, um dos elementos noticiosos. É tempo de pôr fim a esta hipocrisia. Sob pena de, um destes dias, a sociedade ter de resolver drasticamente problemas que, detectados e conhecidos a tempo e horas, poderiam ser prevenidos. ■