Como resultado do despacho do juiz Ivo Rosa acerca do Processo Marquês, saíram do armário alguns apóstolos de José Sócrates que ao longo dos últimos dezassete anos estiveram cuidadosamente silenciosos, ou a beber da mesma teta do anterior Primeiro-ministro, ou seja, o Partido Socialista. Apóstolos que durante todos estes anos não se deram conta de qualquer sintoma de corrupção, ou pior, ainda não tropeçaram em nenhuma das muitas decisões políticas que conduziram Portugal para a cauda da União Europeia. Não vislumbraram os negócios do partido com algumas empresas, ou os serviços vendidos pelo ministro Manuel Pinho ao grupo Espírito Santo e à EDP, não viram a derrocada do sistema financeiro, a queda da PT, as ruinosas parcerias público/privadas, os assaltos realizados na Caixa Geral de Depósitos e no BCP e a tentativa de assalto à TVI. Igualmente, não estranharam que os governos do PS privilegiassem as relações comerciais de Portugal com países como a Líbia, a Venezuela, Angola, Brasil e Argélia.
Como hoje não estranham que nos governos de António Costa estejam presentes muitos dos apóstolos de José Sócrates, que não tivessem abrandado as nomeações dos amigos da família para cargos públicos, ou que as relações da política com os negócios tivessem prosperado, que o grupo Espírito Santo seja agora o Novo Banco, que o Estado pretensamente socialista engorde à custa do trabalho dos portugueses e que os casos de corrupção que saem do Ministério Público não sejam muito diferentes do passado socrático. Por isso, onde terão estado estes apóstolos nas últimas duas décadas, serão estúpidos ou fazem-se?
Pessoalmente, confesso a minha náusea com a súbita conversão de alguns destes portugueses, socialistas ou não, que só agora chegaram à conclusão que José Sócrates não era o brilhante líder que andaram a vender. Pior ainda, que todos agora evoquem a sua própria inocência perante o mal que fizeram e continuam a fazer à democracia portuguesa, porque o problema maior de Portugal não é o da Justiça, mas o mau serviço dos partidos políticos, da má política e da má economia.
Para que não me venham com a história de que não sabiam, aqui deixo uma parte de um texto que publiquei no Diário de Leiria, no dia 30 de Setembro de 2004, com o título “A ilusão e a realidade na política portuguesa”. Faço-o, repito, para que não me respondam com a história gasta de que era então difícil conhecer José Sócrates e prever o que dali sairia. Assim:
“Como era esperado, os militantes do Partido Socialista elegeram José Sócrates para secretário-geral, por uma maioria de cerca de 80 por cento dos votantes, maioria que longe de ser uma vantagem é, obviamente, um inconveniente. Porque uma votação típica dos países não democráticos não legitima ninguém num país democrático, nomeadamente quando, como aqui já detalhei, as práticas de funcionamento do PS são tudo menos legítimas e democráticas”.
“Quanto ao novo secretário-geral, reconheço a dificuldade de sustentar que se trata do pior dos três candidatos que disputaram a liderança. Mas faço-o sem qualquer hesitação, com profunda convicção política e nenhuma animosidade pessoal, sendo que, como habitualmente, isto será muito mais claro dentro de algum tempo, quando os socialistas e, provavelmente, os portugueses, forem confrontados com a realidade, nomeadamente se, como é previsível, José Sócrates chegar a Primeiro-ministro dentro de dois anos”.
“Como militante do PS gostaria, obviamente, de me enganar, como gostaria de me ter enganado em relação às lideranças de António Guterres e de Ferro Rodrigues, mas a probabilidade é pequena. Seja porque o novo secretário-geral não tem a preparação necessária para o cargo de Primeiro-ministro, seja porque defende políticas de permanente compromisso com a direita, seja porque continuará a prática de clientelismo partidário e de subserviência aos grupos de interesses herdados de Guterres, seja porque não é a pessoa indicada para promover a renovação e a democracia interna no partido e a qualidade e a disciplina no governo e no país”.
“Esta convicção saiu reforçada durante o curto debate do último mês e meio, nomeadamente:
José Sócrates foi apoiado por todos os grupos de interesses existentes no PS, muitos com um quarto de século de existência, o que é estranho num candidato dito jovem e aberto a ideias modernas,
Nos debates, quando pressionado, ainda que de forma muito ligeira, refugiou-se na arrogância em vez de usar a inteligência e a razão;
Fugiu, por vontade própria, ao debate frontal com os seus adversários e abusou das tácticas de circunstância à míngua de um pensamento estruturado;
Demonstrou à saciedade a sua vocação populista, vazia de conteúdo programático e estratégico;
Privilegiou uma postura artificial e plastificada, escondendo, sempre que o deixaram, o seu pensamento nas matérias mais difíceis;
“Em resumo, demonstrou ser a continuidade de António Guterres, mas sem a qualidade intelectual do antigo Primeiro-ministro. Por isso cedeu à tentação das citações e da pose, que só engana quem quer ser enganado, por interesse ou por desejo, sabe-se lá a razão. Ou seja, trata-se de António Guterres revisitado, ou mais queijo no futuro próximo dos portugueses”.
“Moral da história: tendo, pessoalmente, sido parte da ilusão de que António Guterres poderia ser o líder de que a democracia portuguesa precisava e tendo estudado, depois disso, suficientemente, esse período da nossa história recente, não posso alimentar quaisquer ilusões relativamente a José Sócrates”.
“Entretanto, como ninguém é infalível, façamos da observação do futuro próximo um tema, certamente interessante, para o estudo da ilusão e da realidade na política portuguesa”.
Voltando agora à realidade do presente, estou certo de que as recentes declarações de Fernando Medina são a guarda avançada de um processo de reabilitação do Partido Socialista e a preparação de uma nova fase de criação de mais ilusões que possam manter alienada a maioria dos portugueses. O Partido Socialista é hoje, essencialmente, o mesmo de José Sócrates, de quem António Costa foi o principal colaborador que, com um estilo diferente e maior sofisticação política, prossegue os mesmos objectivos. Mesmo a corrupção não diminuiu e o desejo de controlar as instituições como a Justiça, bem como o hábito de vender aos portugueses gato por lebre, são factores de continuidade e os resultados serão obviamente semelhantes. O actual Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é em tudo semelhante aos programas de José Sócrates, a dívida do Estado, por maiores ou menores razões, não deixou de crescer e os beneficiários não são muito diferentes. A impreparação e os erros dos governos de António Costa são hoje os mesmos e veremos isso dentro de alguns anos, quando tivermos de pedir uma nova ajuda externa e quando forem melhor conhecidos alguns casos deste novo período, tais como: o Siresp, a venda do Novo Banco, os Kamov, as barragens da EDP; o hidrogénio e outros negócios previstos para o PRR e restantes fundos europeus. Como os portugueses já deveriam saber, as mesmas causas provocam os mesmos efeitos ou, dito de outra forma, os portugueses não podem esperar que usando os mesmos métodos os resultados sejam diferentes. ■




