Numa visão outra, que Manuel Ferreira Patrício qualificou como “muito benevolente para com António Sérgio”, Eduardo Abranches de Soveral ensaia uma outra perspectiva sobre António Sérgio – fá-lo, em particular, na sua obra O Pensamento de António Sérgio: síntese interpretativa e crítica.
Aí, chega mesma a considerar que “ao contrário do que poderia supor-se, Sérgio não foi agnóstico. Há mesmo no seu pensamento uma forte e emotiva componente religiosa” – começando por citar, em seu abono, a seguinte passagem dos Ensaios: “Em mim (…) há um racionalismo radical que tem o seu quê de místico, de vida unitiva”.
Citando ainda outras passagens – em que Sérgio alude à “união com princípio supremo, pensamento absoluto e impessoal”, ou à “Unidade da consciência humana” –, Eduardo Abranches de Soveral chega mesmo a considerar que António Sérgio, “à sua maneira, como que subscreve a afirmação agostiniana de que Deus habita no interior do homem”, ressalvando, porém, que “para um melhor esclarecimento das posições religiosas de Sérgio (…) convirá fazer uma breve referência à forma como se situou perante o Cristianismo”.
Nesse plano, salienta a tese de que, para Sérgio, o Deus do cristianismo é “o primeiro Deus que é já concebido com uma dose suficiente de racionalismo”, citando ainda esta eloquente passagem: “Ao que suponho, a Europa só terá uma religião europeia (…) quando virmos no Cristianismo a religião do Espírito, adoradora portanto de um Deus do Espírito – situado cá, adentro de nós – e concebido pela inteligência e pelo puro amor”.
As consequências que António Sérgio retira desta concepção de divino parecem, contudo, cingirem-se sobretudo ao plano ético-político, chegando mesmo a escrever que “os corolários sociais da doutrina cristã são de extrema esquerda; e se há católicos de direita, são-no pela mais rotunda infidelidade ao Evangelho”. Ou seja, em suma: ao contrário do que acontece, por exemplo, em Marinho, a concepção do divino em Sérgio não parece produzir qualquer inquietação metafísico-escatológica, antes, tão-só, ético-política, em que, de resto, o valor maior é o da igualdade, não o da liberdade, como nota Eduardo Abranches de Soveral.
Em contra-luz, sugere Manuel Ferreira Patrício “que se deve levar mais a sério o facto de António Sérgio ter nascido em Damão e ter sofrido uma influência materna provavelmente hinduísta, ou budista. Nesta perspectiva, já faria outro sentido a noção de um ‘Eu absoluto inconsciente’, como mais sentido faria o interesse de Sérgio por Antero de Quental, atrás do qual se encontra Eduardo de Hartmann (…). É o impersonalismo sergiano, para que nós chamámos a atenção em 1984” – no seu ensaio A fundamentação filosófica da educação em António Sérgio, em que analisa Sérgio de uma forma a nosso ver ainda hoje insuperada. ■
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