Na história do pensamento, impressiona a permanência através dos tempos das conclusões de homens iluminados, clarividentes, comprometidos com uma observação isenta, realista e não romântica ou contaminada por interesses ideológicos ou até religiosos.
Na vida luso-brasileira, destaca-se cada vez mais a obra e a interpretação da formação do povo e da raça que nos foi dada por Gilberto Freyre que, embora tenha tido uma longa actuação de pesquisador e professor nos EUA, nas mais importantes universidades, desde Stanford a Columbia, tem presença muito forte em Portugal.
Na interpretação do Brasil, consagrada no seu “Casa Grande e Senzala”, reflecte sobre a consciência portuguesa, de que poderia criar em África (Angola, em especial) uma sociedade multirracial, integrada e progressista, unida à cultura lusófona, fosse na independência ou na consolidação de uma região autónoma, integrada a Lisboa.
Os críticos de Gilberto Freyre são os responsáveis pelo regresso do seu nome e da sua obra ao centro do debate nacional. As esquerdas, a partir dos anos Lula-Dilma, passaram a dimensionar e explorar a escravidão – abolida há 133 anos – e a desigualdade no país, procurando pregar não a luta de classes, mas a de raças. De acordo com a palavra vigente em todo Ocidente. Neste momento, ressurge, mais actual do que quando de seu lançamento, há décadas, o que foi defendido em “Ordem e Progresso” e “Casa Grande e Senzala”, obras emblemáticas do sociólogo maior.
É difícil falar em discriminação racial num país em que a miscigenação é reconhecida no mundo inteiro e a população afrodescendente pura não atinge 15 por cento. Existe discriminação, mas social e não racial, como afirmava o recém-falecido cantor Agnaldo Timóteo, que alcançou o sucesso como artista e como político – exerceu mandatos populares no Rio e em São Paulo. Dizia que também ele entrava onde o branco rico entrava.
Foi aos 22 anos que Freyre fez sua primeira viagem a Portugal. Levado pela curiosidade intelectual de conhecer a antiga metrópole, o seu povo, os seus homens de letras. Voltou aos 30 anos, exilado, acompanhando o líder pernambucano Estácio Coimbra, de quem fora Chefe do Gabinete no governo de Pernambuco. Nesta viagem, devido a sérias dificuldades financeiras, demorou a estar com seus amigos da alta burguesia e monárquicos, alimentando-se nas tascas, convivendo com as mulheres da noite, com amigos deste meio popular e boémio lisboeta. Em carta a Manuel Bandeira, define-se como sendo um “aristocrata popular” em Lisboa.
Neste período, em que no Inverno se refugiava na Biblioteca Nacional, com acesso a salas reservadas graças a licença obtida através de seu amigo João Lúcio de Azevedo, leu muito. E, no convívio com o português comum, consolidou a convicção que a miscigenação no Brasil teve inspiração lusitana, já que os portugueses foram formados da mistura de mouros, judeus sefarditas e cristãos, sem problemas no relacionamento e na natural integração.
Curioso é que até então a política portuguesa não despertava a sua curiosidade. Assistiu aos três primeiros anos da ascensão de Salazar sem perceber o que se passava.
Mais tarde, no início dos anos 1950, a sua tese do luso-tropicalismo ganha relevo em Portugal. Graças a ela é convidado, e aceita, fazer uma longa viagem pelas províncias ultramarinas e manifesta a sua admiração por Salazar.
A imensa participação política, no centro-democrático, nunca interferiu na sua forma de pensar. Foi deputado na Constituinte de 46 e, mais tarde, em 64, teve a coragem de assumir o apoio ao movimento civil-militar que impediu uma perigosa escalada esquerdista no Brasil.
As suas teses, frutos de muito estudo e avaliação, combatem essa tentativa mundial, mas muito presente no Brasil, de demonizar as gerações anteriores por supostos maus-tratos aos africanos e responsáveis, intencionais, pelas deficiências deste segmento da população, que é parcial e não geral.
Estas teses e manifestações que tendem para o absurdo, crescem nos EUA e na União Europeia. ■




