Ferrovia: um segredo bem guardado

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Tenho na minha frente uma notícia que diz o seguinte: “Costa Silva mudou de opinião. Bitola ibérica não é obstáculo à ferrovia em Portugal”. É verdade, a bitola ibérica não é um obstáculo à circulação dos comboios em território nacional, torna é impossível a ligação da ferrovia portuguesa aos restantes países da União Europeia, se exceptuarmos algumas regiões de Espanha onde ainda existe bitola ibérica. O problema começa quando se lê as restantes declarações à Rádio Renascença, onde é dito o seguinte: “Da investigação que fiz e da discussão com os especialistas que acompanham o desenvolvimento deste sector, o que me foi transmitido é que existem soluções tecnológicas para lidar com este problema, avançou-se muito a este nível e, portanto, não é um grande obstáculo em termos de futuro”. Depois fecha o assunto com a nota: “mas não sou especialista nesta área”. Aqui está uma resposta que dá para tudo.

Escrevi antes neste jornal, ao comentar o trabalho do Dr. Costa Silva sobre o futuro de Portugal e da economia portuguesa, que pelas muitas entrevistas que deu à comunicação social me parecia ser uma pessoa culta e bem informada. Todavia, perante estas declarações fiquei confuso, havendo apenas duas possibilidades: ou o Dr. Costa Silva é de facto uma pessoa culta e bem informada, além de séria, e espera-se que rapidamente revele o segredo das soluções tecnológicas que ficou a conhecer, bem como o nome dos especialistas com quem falou, ou, segunda hipótese, trata-se apenas de mais um vendilhão do templo, a somar aos muitos outros que comem e bebem na gamela do poder político, com quem não vale a pena perder tempo. 

Os signatários do Manifesto publicado sobre a ferrovia andam há anos a pedir que o Governo explique as razões políticas, tecnológicas e económicas por que, contrariamente à opinião dos políticos e técnicos da União Europeia e de anteriores governos portugueses, escolheu manter a bitola ibérica. O que, se feito com verdade, não me teria levado a acusar o Governo de traição ao interesse nacional, como fiz. Infelizmente, só ouvimos dizer ao anterior ministro Pedro Marques que se tratava de proteger Portugal da concorrência internacional, porventura uma cópia da Albânia, bem como o ministro Pedro Nuno Santos a clamar que está farto de falar sobre a bitola. Esclarecimento dos portugueses sobre este bem guardado segredo, nada. Segredo agora reforçado com as declarações do Dr. Costa Silva.

Infelizmente, a nossa confusão aumenta quando pensamos nas seguintes questões:

1.Será que a Espanha cometeu um erro de mais de vinte mil milhões de euros para mudar a bitola e a União Europeia por financiar 50 a 80% dos investimentos feitos?

2.Será que a União Europeia errou ao decidir a inter-operabilidade de todas as ferrovias dos países da União e ao liberalizar o mercado ferroviário de forma a haver concorrência entre as empresas europeias de transporte ferroviário?

3.Será que existe uma solução que permita que os comboios de mercadorias de 700 ou mais metros sejam competitivos, em velocidade, pesos transportados, tempo de passagem entre fronteiras e custos finais, devido às novas tecnologias agora descobertas pelo Dr. Costa Silva? Ou que estas novas tecnologias permitem que os comboios de passageiros possam andar a 320/350 quilómetros por hora em bitola ibérica para poderem concorrer com o avião?

4.Será que as empresas europeias vão investir nessa nova tecnologia, a existir, apenas para entrarem em Portugal, um pequeno mercado no extremo da Europa, a fim de transportarem as nossas mercadorias a preços de mercado para a França ou para a Alemanha?

5.Será que essa nova tecnologia está apta a transportar os camiões em plataformas ferroviárias, que será o futuro do transporte ferroviário para grandes distâncias, porta a porta, sem cargas e descargas inúteis, sem transbordos e sem paragens nas plataformas logísticas, tecnologia já existente na Itália, na Suíça e na vizinha Espanha? 

6.E se tudo isto é possível com a nova tecnologia, qual a razão para guardar segredo sobre tão importante descoberta?

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São estas algumas das interrogações que as declarações do Dr. Costa Silva nos sugerem, o que nos faz voltar às alternativas do início deste texto. Quem é o Dr. António Costa Silva?

Entre os subscritores do Manifesto publicado há muitos técnicos, professores e especialistas destas questões, o que não é o meu caso, que foram políticos e dirigentes do sector ferroviário. Pessoas que conhecem algumas soluções tecnológicas para a questão da mudança de bitola. Por exemplo, tenho à minha frente um folheto de uma empresa espanhola que fabrica “un sistema de cambio automático de ancho de via para trenes de mercancias”, onde se diz que o sistema existente não serve para mercadorias e que estão a investigar aplicar o sistema às mercadorias, indicando que os ensaios a realizar terão três fases. Também sabemos, por experiência, várias outras coisas: (a) que nenhuma empresa europeia vai investir num sistema fatalmente caro, de resultados inferiores ao que existe, para que os comboios de bitola ibérica de um pequeno  país no extremo do continente andem a passear pela Europa; (b) que sendo um sistema mecânico, com peças móveis, nunca permitirá comboios de passageiros andarem a 350 quilómetros por hora, ou (no caso da carga) terem a mesma capacidade de transportar os mesmos pesos a 3.000 quilómetros de distância. Ou seja, trata-se de um sistema para uso local em situações especiais.  

Finalmente, andamos a debater há alguns anos esta questão da bitola que entretanto, no plano europeu, se tornou apenas um problema português. Sendo isto inegável, qual a razão para que o primeiro-ministro, ministros, secretários de Estado e técnicos do Estado continuem a insistir que a bitola não é um problema e não expliquem, preto no branco, qual é a solução? Trata-se de algo um pouco surreal, convenhamos.

Para que tudo fique mais claro, conto-vos uma pequena história: os subscritores do Manifesto foram recebidos pelo Senhor Presidente da República, que concordou com as nossas preocupações e sugeriu a rea
lização de uma Conferência para debater o assunto. Aceite a proposta, contactada a Ordem dos Engenheiros, organizou-se a Conferência a fechar pelo Senhor Presidente; e para a abertura escrevi, eu próprio, uma carta a convidar o ministro Pedo Marques para a abertura, o qual não respondeu. Todavia contactou o Senhor Bastonário a impor ser ele a falar em último lugar, antes do Presidente, indicando um técnico do ministério para a abertura e dizendo que tudo já estava acertado com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Foi mais ou menos isto o que aconteceu, manda quem pode e obedece quem não tem alternativa.

Com a nota de que as inscrições esgotaram três salas da sede da Ordem dos Engenheiros nos primeiros três dias, um sucesso único, de tal forma que alguns dos subscritores do Manifesto não puderam assistir. No dia da Conferência pudemos então constatar que a esmagadora maioria dos presentes, nas três salas, eram funcionários do Ministério e das empresas públicas do sector. Habitualmente não acredito em bruxas, mas que as há, haverá. De que tem medo o Governo?

Quanto ao Dr. Costa Silva, permanece a dúvida e, assim sendo, peço-lhe que aceite um debate público para esclarecer todos estes mistérios. Já não digo o mesmo ao senhor ministro Pedro Nuno Santos, porque já sei por experiência que ele não responde às nossas cartas. ■