Geopolítica e a guerra da Ucrânia

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A guerra da Ucrânia, e a situação geopolítica resultante, divide o globo entre os defensores das democracias liberais, da liberdade dos indivíduos, da informação livre e da escolha dos representantes do povo pelo povo e o desejo de paz, em eleições democráticas, ao passo que os defensores de modelos autoritários de governo têm métodos eleitorais controlados pelos poderes instituídos e com pouca ou nenhuma liberdade de opinião. Digamos que, grosso modo, de um lado estão os Estados Unidos, a União Europeia e o Reino Unido e do outro a Rússia e a China. A balança, medida entre países parece, pois, pender para Ocidente, de acordo com a votação feita nas Nações Unidas, com mais de 140 nações a condenar a Rússia pela sua invasão da Ucrânia. A medição entre todos os habitantes do planeta não está feita, mas sabemos que há mais cidadãos a quererem emigrar para os Estados Unidos e para a Europa do que para a Rússia e a China. Talvez seja uma indicação.

Acresce que tanto a Rússia como a China pretendem alargar a sua área de poder a outros povos que o não desejam, como, por exemplo, a Rússia em relação à Ucrânia e a China em relação a Taiwan, por agora. Acresce, que o que podemos chamar o Bloco Ocidental recusa a guerra como a forma tradicional de resolver conflitos e criou uma organização militar defensiva, a NATO – Tratado do Atlântico Norte, que já leva meio século de vida para mostrar que não pretende fazer a guerra, mas apenas defender os cidadãos dos países aderentes, por via da sua vontade democrática livremente expressa, ou seja, tem a seu favor a credibilidade dos anos passados.

Outros grandes países, como a Índia e o Brasil, fazem por navegar os seus interesses de acordo com as situações internas e externas do momento e parecem colocar as suas fichas com base nas ideologias dominantes em cada ciclo político e por razões de facilidade argumentativa podemos considerar cartas fora do baralho.

Não nego que todos os poderes têm a ambição de alargar a sua área de influência, com erros passados de ambos os lados, mas ninguém pode negar que nas democracias existe a liberdade de protesto e que os ciclos políticos acabam por corrigir os erros anteriores. Por exemplo, foram os protestos do povo americano, como de outros povos, que fizeram terminar a guerra do Vietnam. Ora agora, no caso da invasão da Ucrânia pela Rússia, os poucos russos que se atrevem a protestar são presos e os tribunais não são para aí chamados. Pior, a oligarquia russa não se inibe de usar a ameaça nuclear quando todos os países democráticos recusam essa possibilidade, como recusam a medição das probabilidades de sobrevivência. É previsível que o mesmo possa acontecer na China no caso da invasão de Taiwan.

É certo que nos Estados Unidos e na União Europeia, bem como na América do Sul, se vive uma onda de extremismo de esquerda e de direita, mas temos razões para crer que se trata não mais do que os habituais ciclos políticos resultantes de erros e de hesitações dos partidos democráticos no poder. Não vejo razões para pensar diferente de Winston Churchill, de que a democracia é ainda a mais defeituosa forma de governar, depois de excluídas todas as outras.

Em Portugal vivemos uma situação estranha, somos um país fracamente democrático, que acaba de sair de uma coligação de pendor esquerdista, onde o PCP defende de forma envergonhada a Rússia de Putin e usa uma retórica contorcionista anti NATO e anti União Europeia, enquanto o Bloco de Esquerda, sendo o mesmo, lá vai escondendo a sua vocação totalitária por detrás de uma malha de reivindicações que, por mais justas que sejam, escondem mal o desejo incontido de participação nas benesses do poder. Trata-se de um caso claro daquilo a que Lenine e Cunhal chamavam a doença infantil do comunismo. De qualquer forma, parece que a generalidade do povo português alinha sem dúvidas relevantes pelas democracias ocidentais e de defesa do direito do povo ucraniano a resistir ao invasor e a favor de fazer os sacrifícios necessários para sustentar essa vontade.

Claro que vivemos hoje num planeta complexo e cheio de contradições políticas, mas também económicas, sociais e ambientais, pleno de novidades tecnológicas e de oportunidades de mudança, mas também de desigualdades chocantes em que até alguns dos muitos ricos começam a considerar a injustiça da situação. Infelizmente, vivemos também num mundo de mudança, mas sem governação global, isto é, sem formas de organização política que evitem os excessos: a corrupção, a droga, os paraísos fiscais, a venda de armas, os perigos ambientais.

Pessoalmente, parece-me, pois, claro que precisamos de mais democracia e de alguma forma de governação global, porventura através da reforma da ONU. Como defendo há muitos anos, dotar as Nações Unidas dos meios financeiros necessários e fazê-lo através de uma taxa a aplicar aos cidadãos dos países da OCDE e às importações dos restantes, o que criará os meios necessários para investir na saúde e na educação dos povos subdesenvolvidos. Mas também a necessidade de encarar de frente que nesta fase da evolução humana não temos condições para suportar o crescimento das populações do Globo e a forma de o fazer é acabar com a pobreza e a ignorância. Esta é, aliás, a solução para as contradições da democracia portuguesa, em que o progresso nacional depende essencialmente de terminar com a pobreza e a ignorância que sobrevivem em metade das famílias portuguesas. 

Há tempo escrevi uma carta a António Guterres propondo que ele usasse a sua visibilidade pública para colocar na agenda política mundial três questões: (1) o financiamento da ONU como descrito; (2) o controlo da venda de armas; (3) terminar com os paraísos fiscais. Seria o princípio da tão necessária governação global pela via democrática. Infelizmente, nada foi feito.

Ainda sobre a questão da guerra da Ucrânia e conhecendo a posição da China de pedir o fim da guerra através de negociações, não compreendo que António Guterres não tenha ainda proposto essas negociações através de uma comissão de três países escolhida pelo Conselho de Segurança, ou pela Assembleia Geral, comissão a ser dirigida pela China. Seria uma forma do mundo ver de facto de que lado está China neste conflito. Uma forma também de reconhecer a importância da China na governação global e de procurar comprometer o governo chinês pela via democrática. ■