Mundo cão à portuguesa

0
1214

Foi um português quem escreveu, porventura não por acaso, que os “fracos reis fazem fracas as fortes gentes”. Assim é neste Portugal do século XXI, confirmando a veracidade da afirmação, em que governantes fracos, impreparados e centrados no seu próprio umbigo, convivem e determinam um ambiente político crescentemente mais adormecido, desencorajado e mais vergado às circunstâncias. Sob uma governação desinspirada, atrabiliária e sem a energia de outros tempos, os portugueses acomodam-se, vergam-se e morrem gemendo.  É, pelo menos, o quadro que vejo um pouco por todo o lado para que me volte.

Um cidadão estrangeiro morreu de pancada bruta no aeroporto de Lisboa, em instalações do Estado Português, mas nem o Presidente da República nem o Primeiro-Ministro tiveram o desejo de pegar no telefone para, em nome de todos os portugueses, pedirem perdão à viúva. Como estamos habituados sempre que há asneira grossa, os nossos governantes chutam para a justiça a responsabilidade de tratar do assunto. Neste caso, esperaram nove meses que a directora responsável pelo SEF-Serviço de Estrangeiros e Fronteiras saísse pelo seu pé. Seguiu-se o anúncio de uma reorganização e o ministro está tão confiante nos resultados de tal coisa que inventou um botão de pânico; supõe ele que quando matarem mais alguém, a culpa será do morto por não ter carregado no botão. 

Portugal viveu não há muito tempo um período negro de seis anos em que a lei e a Justiça se acomodaram perante um chefe todo poderoso. Preso este, o assunto foi entregue à justiça e o novo chefe proclamou que à justiça o que é da justiça. Fim da história. Ao mesmo tempo, bancos e empresas despareceram ou tiveram de ser salvos pelos contribuintes portugueses, a dívida cresceu, os impostos subiram, a economia mirrou e os outros países europeus passam-nos à frente, um a um. Mas não há problema, em breve teremos uma bazuca que virá para nos salvar. Entretanto, o chefe Sócrates vive bem e em paz, o seu processo chamado Marquês está bem entregue a um juiz sonolento, que já viu por doze vezes o Tribunal da Relação recusar as suas decisões. Paciência, é da vida, assim falava um antigo Primeiro-Ministro. O chefe, esse anda ultimamente muito calado, será para não perturbar as consciências. À justiça o que é da justiça.

Com a pandemia ganhámos uma festa na comunicação social, dia após dia, mês após mês, os portugueses não se cansam de ver agulhas a espetar braços. Nos lares para idosos do Estado, nas instituições sociais e privadas, legais e ilegais, os velhos foram abandonados pelas famílias a mando do Estado. E se morrem aos milhares é da vida, também morrem nos outros países. Outros milhares morrem em casa, o Sistema Nacional de Saúde não tem forma de os atender. Um milhão de consultas e cem mil cirurgias por fazer, mas não passa nada, a memória dos pais fundadores do SNS não está em causa. Os hotéis, que poderiam ter recebido esses idosos logo no início da pandemia, em quartos individuais com casas de banho, na tentativa de serem protegidos e poderem sobreviver mais uns anos, esses hotéis estão fechados e o pessoal desempregado. Mas não passa nada, há países piores. 

Durante meio século a empresa pública de transporte aéreo viveu chupando o biberão do Estado, até que um Primeiro-Ministro, pressionado por todos os lados e sem cheta, disse basta e privatizou a empresa. Depois, durante cerca de três anos, a empresa cresceu, criou empregos, desenvolveu novas rotas e, milagre dos milagres, não recebeu dinheiro do Estado. Só que pela mansidão chegou a pandemia e criou a oportunidade de o Estado se vingar e receber de volta a empresa desavinda para glória ministerial e para o regaço da grande família socialista. Três mil milhões para começar? Não passa nada, a bazuca vem a caminho. 

De entre os setenta governantes do País, existe um que todos conhecem pelo nome, chama-se João Galamba. A sua glória deriva de ter inventado uma nova energia que, milagre dos milagres, cumpre a necessidade de Portugal estar na linha da frente do novo mundo criado por uma jovem cujo país ficará assim atrasado em relação a Portugal, graças a esta nova invenção. Infelizmente, como é da história, em Portugal há sempre velhos do Restelo, agora chegados não de Belém, mas do Instituto Superior Técnico, que afirmam que esse novo caminho para a Índia dará asneira certa e não se ficará pelos setecentos milhões da bazuca milagreira. Mas não passa nada, a justiça que trate do assunto. 

Qual rainha de antigamente, temos um Presidente que não distribui rosas, mas beijos, abraços e fotografias. E tão contente anda e tão atarefado está na sua nobre missão, que não se dá conta de que em breve todos os países europeus nos passarão à frente e ficaremos a fazer companhia à Bulgária na carroça da Europa. E tão grande, elevada e soberana foi a sua obra durante os últimos cinco anos, que não precisa de se maçar a fazer campanha eleitoral, o bom povo português é compreensivo e a vitória está à vista e a estabilidade política assegurada. Além disso, o Presidente já disse que não vê razão para que a esquerda não possa governar até 2023 e o bom povo da esquerda, do centro e da direita também não vê razão para não votar no Presidente das selfies. Enfim, porque não? Vamos ter uma bazuca de dinheiro nos próximos cinco anos.

A corrupção mina e corrói o Estado e a sociedade. Os contratos públicos por ajuste directo, ou através de concursos faz de conta, para obras necessárias ou inúteis, tanto faz, sem planeamento e sem debate público, ou com o debate viciado à partida, consomem o dinheiro das autarquias e do Estado central. Era um porto no Barreiro que deixou de ser, um aeroporto no Montijo que não se sabe se será, a famosa linha circular do Metro em Lisboa e toda uma ferrovia nacional em bitola ibérica e sem ligação à Europa. São decisões improváveis em países com mais dinheiro e mais juízo, mas aqui não passa nada. São obras que consomem o dinheiro que não temos e cujo efeito no crescimento da economia não é conhecido. Que sejam obras mal pensadas e provavelmente mal executadas, que importa? Os sobrecustos, esses já fazem parte da tradição nacional, não são grande novidade e o importante é a próxima chegada da bazuca.

Termino com uma recente e educativa experiência pessoal sobre o efeito das proibições junto dos portugueses. Há dias fui ao centro comercial Colombo e deparei-me com três enormes filas de pessoas na rua e à chuva, à espera de lhes ser permitida a entrada. Fiquei a assistir e verifiquei que iam saindo muitas dezenas de clientes cheios de embrulhos, mas só entrava quem se dirigia ao funcionário à porta e murmurava qualquer coisa. Sem perceber bem o que se estava a passar, dirigi-me ao funcionário e perguntei-lhe qual era a nova regra de entrada. “São ordens”, foram as únicas palavras que lhe consegui arrancar. Chefe com quem pudesse falar, não havia.

Conhecedor das organizações à portuguesa, fui buscar o carro e entrei pela garagem sem qualquer problema, como previra. Dirigi-me ao mesmo funcionário e disse-lhe que tinha entrado pela garagem e ali estava a fim de ele me explicar a diferença na saúde dos portugueses de entrar pela garagem ou pela rua e se não lhe parecia ser o sistema que estavam a usar um pouco injusto. Respondeu de pronto: “sigo as ordens que me dão”. Em desespero de causa dirigi-me à multidão à chuva e berrei: “estão a ver, eu estava ali atrás na bicha, fui buscar o carro e entrei de imediato e sem problema. Se os senhores tivessem carro também entravam”, disse. Se os leitores pensam que consegui uma revolução, desiludam-se, apenas ouvi uns tantos queixumes em voz baixa. Ali, o único revoltado era eu. ■