O debate sobre o Estado da Nação na Assembleia da República, como já alguém disse, envergonhou o Estado e insultou a nação. António Costa não respondeu a nenhuma das 17 perguntas feitas pela oposição da esquerda e da direita e, pior, não usou a oportunidade para avaliar o ano que passou e recusou fazer a análise da situação da economia e da sociedade portuguesas. António Costa fez o que sabe fazer, um comício, em que, como de costume, a verdade e a isenção estiveram vergonhosamente ausentes. Ou seja, o único objectivo do primeiro-ministro é a manutenção do poder e o desejo do Partido Socialista é manter as mordomias conquistadas no Estado. O Estado da Nação não é para eles um problema que valha a pena debater. Uma vergonha.
Sobre a revisão das promessas feitas e não concretizadas, ou apenas falhadas, nem uma palavra. Mas António Costa aproveitou para fazer mais promessas, lá para Setembro, quando a inflação do ano tiver enchido os cofres do Estado, o primeiro-ministro pensará no resultado da inflação na vida dos portugueses. Para além disso usou todos os truques estudados pela miríade dos seus assessores, a fim de atacar o PSD e o seu novo líder parlamentar. Truques e mais truques é a agenda política do primeiro-ministro.
Marcelo Rebelo de Sousa gosta e, por isso, explicou ao país: “as declarações que eu faço são todas intencionais e visam picar balões”. Ou seja, temos em Portugal um primeiro-ministro e um Presidente da República que andam a picar balões enquanto o país empobrece e se afasta mais dos níveis de vida da União Europeia e desce em todos os índices económicos e sociais publicados.
Enquanto o Presidente da República pica balões, os fogos continuam a destruir o interior, os poucos haveres de muitas famílias e a matar pessoas. Enquanto o Presidente da República se diverte, as bichas no SNS crescem, as mortes de mais idosos já são consideradas o rejuvenescimento do país, no próximo ano lectivo o número de crianças sem professor aumentará e cresce o domínio do turismo sobre a economia portuguesa, para satisfação da ignorância dos políticos de serviço. O Governo aproveita para colocar mais remendos sobre os remendos anteriores. O ministro da Economia, por sua vez, sonha com o país das maravilhas.
Em Portugal, os meios de comunicação e o Governo silenciam que a vizinha Espanha soma grandes investimentos estrangeiros, em que apenas dois investimentos recentes, da Volkswagen e da Ford, atingem 20.000 milhões de euros, a que outros se seguirão como resultado da grande melhoria das infra-estruturas logísticas realizadas na Espanha durante os últimos trinta anos. Fazer hoje o que o futuro vai premiar compensa, enquanto em Portugal se trabalha afincadamente para enganar os portugueses sobre o seu próprio futuro. O Governo espanhol acaba de optar pela industrialização para reduzir a dependência do turismo, algo que defendo há anos e António Costa contraria.
A propósito da Espanha, não será difícil de prever que dentro de alguns anos, quando Portugal bater no fundo, se começará a falar da união ibérica e de quanto melhor vivem os espanhóis em relação aos portugueses. Muitos, como os oportunistas do tipo António Costa, pensarão, então, que ser uma província pobre da Espanha não será uma solução demasiado má, desde que o PS ganhe as eleições e mantenha todas as mordomias dos seus dirigentes.
Num qualquer país com melhores políticos e governantes talvez tivesse sido útil debater durante o Estado da Nação o modelo económico português, já que o modelo que estamos a usar nos está a conduzir para a irrelevância no contexto da União Europeia e não só. Talvez fosse bom debater as causas das baixas qualificações da maioria dos trabalhadores portugueses; de averiguar se o facto das empresas portuguesas pequenas e muito pequenas dominarem o panorama económico português é uma boa solução; se sermos o país da União Europeia da nossa dimensão que menos exporta é um problema ou uma virtude; se a aposta da economia portuguesa deve ser a industrialização ou o turismo; se devemos construir um novo aeroporto rapidamente custe o que custar, como pedem os empresários do turismo, ou apostar numa logística de mercadorias em relação à Europa e melhorar o aeroporto que temos; se na educação devemos dar a prioridade às novas gerações através das creches e do pré-escolar, com alimentação e transporte, ou privilegiar o ensino universitário como temos feito, através do baixo valor das propinas e da manutenção do corporativismo existente nas universidades; se devemos continuar a negar que a corrupção mina o Estado e a sociedade portuguesas, ou decidimos apostar na Justiça com a exigência e os meios necessários, para que os membros da corporação possam rapidamente mostrar o que valem; se continuamos focados no SNS público, ou aceitamos uma saudável concorrência entre o que é público, social e privado, com medições credíveis dos resultados; se vamos continuar a limitar a participação política dos portugueses através do controlo partidário dos eleitos, ou se aceitamos alterar as leis eleitorais dando aos portugueses o direito de escolherem os seus representantes, um a um.
Não faltam temas no Governo e na Assembleia da República à espera das necessárias opções e o tempo do Estado da Nação poderia ter sido essa oportunidade. Continuar a fazer de conta que se governa e sem fazer nenhuma das opções descritas é continuar a empobrecer os portugueses de forma irreversível. Vamos continuar a “picar balões”, ou, uma vez por todas, colocamos Portugal e os portugueses no princípio e no fim das nossas convicções? Vamos olhar para o que se passa no mundo e para os países que progridem, como é o caso da Irlanda, ou vamos continuar a deixar que a actividade política engorde e a barriga dos nossos políticos se avantaje; vamos reivindicar verdade e decência e algum pensamento no Governo, ou vamos continuar a deixar Portugal bater no fundo?
É urgente fazer opções, mas não como pedem os homens do turismo no caso do aeroporto, custe o que custar. As opções pedem inteligência e requerem qualidade e seriedade das pessoas e do debate, razão porque o aprofundamento da democracia e da liberdade de escolha é tão importante, nomeadamente num tempo em que grupos de interesses, os gabinetes de advogados e alguns meios de comunicação procuram dominar o espaço público.
É neste contexto que o silêncio da universidade portuguesa, como motor do conhecimento, é preocupante, em que há universidades que se deixam enredar nas malhas da política e dos interesses, como é o caso do ISCTE, e deixem de honrar o ideal universitário da participação democrática e do debate livre pelo conhecimento. Há, claro, excepções, mas, como sempre acontece, são isso mesmo, excepções. ■




