O gato e as sardinhas

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O atraso de Portugal relativamente à generalidade dos outros países da União Europeia não é um acaso, mas o resultado natural da má governação do País, em que a corrupção assume a maior papel. Vejamos alguns exemplos:

Erros de gestão

Nos últimos vinte anos, os meios de comunicação fizeram-se eco de dezenas de casos dos chamados erros de gestão: no Estado, nos bancos e em empresas ligadas ao Estado. Não trato os erros de gestão de empresas privadas, que também existem, porque esses erros são pagos pelos sócios ou pelos accionistas. E mesmo quando são os bancos a pagar, a culpa será dos gestores bancários que não cumpriram a sua missão, ou é natural risco do negócio.

Em Portugal, os erros de gestão raramente são considerados crime, quando de facto a esmagadora maioria dos casos conhecidos são claramente crimes que conduziram ao enriquecimento desses gestores. Oliveira Costa, Ricardo Salgado, António Mexia, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, Armando Vara e Manuel Pinho são casos tão evidentes que a Justiça foi alertada e têm processos em curso. Oliveira Costa já morreu. Mas isso não acontece com a maioria dos gestores, em que os erros de gestão são considerados apenas erros e os gestores ficam impunes.

Dou um exemplo entre muitos. O ex-ministro do PSD Dias Loureiro foi administrador do BPN e durante esse tempo comprou empresas em situação de falência a baixo preço, que depois vendeu ao banco muito mais caras, fazendo com isso volumosas mais valias. Nada aconteceu e Dias Loureiro, é hoje um membro influente da nossa sociedade e pertenceu ao Conselho de Estado.

Como é evidente, como os processos que existem levam muitos anos a ser julgados, os acusados lá vão gozando o dinheiro roubado em total impunidade, sendo que muitos morrerão antes de serem condenados. Os outros andam por aí, contentes e ricos. 

Pergunta-se: que melhor incentivo pode haver para que a festa continue e a economia portuguesa sofra esse efeito perverso dos erros de gestão e os portugueses tenham de pagar mais impostos para compensar o que é roubado?

Obras públicas e contratos

Em Portugal raramente são feitos estudos de custo/benefício das obras públicas. O resultado é termos gastos milhares de milhões de euros de obras públicas inúteis, em autoestradas, estádios, pavilhões e pracetas. Muitas destas obras têm custos de manutenção enormes, que afectam os orçamentos das autarquias e dos governos.

Mas a história não acaba aqui: muitas dessas obras são feitas sem concurso ou com concursos viciados. De facto, a razão de ser de muitas dessas obras é serem um meio de enriquecimento de governantes, autarcas e construtores. 

Uma outra questão, típica da má governação e vulgar nos países subdesenvolvidos, é construir de novo em vez de fazer a manutenção do que existe. Durante o Governo de António Guterres, iniciou-se o processo de construir na periferia das cidades para abandonar o centro, o que deu como resultado a urbanização de terrenos agrícolas e o enriquecimento dos promotores imobiliários, ao mesmo tempo que se assistiu ao desastre urbanístico das cidades.

Claro que os custos para a economia e para os portugueses são igualmente enormes, e lá estão os impostos para tratar do assunto.

Ausência de visão
e de estratégia

Claro que nunca se sabe se a ausência de visão dos governantes é real ou é uma forma de proteger interesses e a corrupção. Seja como for, o exemplo do Governo do PS e de António Costa, que resolveu manter a bitola ibérica na ferrovia portuguesa, nomeadamente no Corredor Atlântico decidido pela União Europeia, é de tal forma grave para o futuro da economia portuguesa, das exportações em particular, que dá para duvidar da sanidade mental de uma tal decisão. Seja porque contraria decisões da União Europeia, dos governos portugueses anteriores, da política ferroviária espanhola, país que teremos de atravessar para chegar aos outros países da União Europeia. Mas também porque contraria as nossas próprias políticas ambientais, energéticas e de atracção do investimento estrangeiro, porque nenhuma empresa industrial investirá em Portugal sem ligações ferroviárias com os outros países europeus.

Como o Governo não explica como pretende chegar com as nossas exportações à Europa com a bitola ibérica, ou como pretende que os operadores europeus cheguem a Portugal, só resta a convicção de que se trata de um enorme erro. Até porque não é credível que todos os outros estejam errados: União Europeia, três ou quatro governos espanhóis, os governos da Catalunha e do País Basco, os países da antiga Cortina de Ferro, porque todos aceitaram o apoio da União Europeia e mudaram, ou estão a mudar, a bitola das suas ligações internacionais. 

Fazer o contrário
do que se diz

A autarquia de Lisboa tem afirmado, com frequência, pretender evitar a entrada de carros na cidade e tem alterado muitas vias no sentido de dificultar o trânsito automóvel. Todavia, quando pela primeira vez pensou em alargar o Metro da cidade, não o fez ligando o centro à periferia, onde os utentes poderiam deixar os seus automóveis, mas inventou uma Linha Circular que não evita a entrada de qualquer carro na cidade.  Ou seja, mais 200 milhões de euros que não cumprem qualquer objectivo de desenvolvimento sustentável, ficando apenas por se saber quem são os beneficiados.

Democracia

Estes poucos exemplos de má gestão pública (e existem muitos mais) só são possíveis por não haver um verdadeiro regime democrático. Seja porque os deputados da Assembleia da República assistem a tudo isto e fazem de conta que não sabem, ou só tomam conhecimento passados anos para fazer inquéritos, seja porque a mentira e a desinformação tomaram conta do regime. 

Muito portugueses deixaram de votar, os partidos políticos são financiados pelo Estado e, pouco a pouco, depois do 25 de Abril foram perdendo qualidade, deixaram de estudar os problemas nacionais e de se preocupar com o futuro de Portugal e dos portugueses. Vivemos num ambiente político de verdadeira miséria moral.

Tem razão aquele holandês que afirmou que dar dinheiro aos políticos portugueses é o mesmo que colocar o gato a tomar conta das sardinhas. ■