Orthographia

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Dedico estas escriptas e doutas entradas da orthographia de 1734 de João Feyjó a Malaca Casteleiro, que entregou sua alma ao creador neste ano da Graça de MMXX, pae do acordo orthographico de MCMXC. Que Deos se apiade da sua alma de ferrabraz da língua Portugueza.

As razoens saõ claras e crystallinas, a saber antigo e contrário aos usos hodiernos.

Etymologia

Etymologia, palavra Grega, he o mesmo que origem de alguma dicçaõ, ou seja nome, ou verbo, ou outra qualquer palavra: e diz a regra da Orthografia, que observaremos esta origem, donde nasceraõ as palavras para as escrevermos, e pronunciarmos com acerto; porque esta mesma regra observaõ, e guardaõ os Latinos na sua Orthografia; v. g. Lectio, Lectus escrevemse no latim com C antes do T; porque tem a sua origem do Supino de Lego, que he Lectum, com C antes do T. Pelo contrario escrevem Auditio, e Auditus sem C antes do T; porque nascem do Supino de Audio, que he Auditum, sem C &c.

Dizem tambem, que a nossa lingua vay subindo ao auge da perfeiçaõ: e se examinarmos donde lhe nascem estes augmentos, diraõ, que he, porque esta filha cada dia se vay enriquecendo com a herança das palavras, que cada vez mais participa daquella mãy. O certo he, que as prosas, e poesias Portuguezas, que a fama canta, e todos applaudem por singulares na locuçaõ, saõ aquellas que estaõ mais cheyas de palavras latinas reduzidas com pouca differença á pronunciaçaõ Portugueza, quaes saõ os adjectivos, com que se elevaõ os periodos, e se ornaõ as oraçoens; como v. g. este Abc de alguns.

Pronúncia ou etymo?

“Se na Ortografia nos devemos conformar com o uso da pronunciaçaõ?

He sem duvida, que o uso muitas vezes prevalece contra algumas regras particulares, e passa a ser ley na materia, em que he uso. Mas este he aquele uso geralmente introduzido, e com algum fundamento, sem contrariedade dos prudentes; porque o mais he abuso. E eu tomara saber qual he o uso universal na pronunciaçaõ da nossa lingua, para me naõ desviar delle: se consultarmos o vulgo naõ acharemos senaõ abusos de palavras, e erros da pronunciaçaõ. Se consultarmos os sabios, estes saõ os que mais duvidaõ da pronunciaçaõ, e escripta de innumeraveis palavras, como elles confessaõ, porque a mesma sabedoria os faz prudentemente duvidar. Se consultarmos as Provincias, acharemos, que o uso introduzio em cada huma aquelles erros patrios, que os naturaes mutuamente reprovaõ huns aos outros, ou seja no escrever, ou no fallar. Se consultarmos os livros, nelles encontraremos o que já a cima se advertio: logo onde vay aqui o uso universal, e constante, para ser ley inviolavel da pronunciaçaõ, ou regra infallivel da Orthografia?

E como pode haver uso universal de fallar com acerto, se os idiomas cada dia se vaõ mudando, emendando, e aperfeiçoando tanto, que se compararmos naõ só a nossa lingua, mas a Castelhana, e outras no auge, em que hoje estaõ, com o que eraõ antigamente, e ainda ha poucos annos, veremos que senaõ parecem humas com outras: e he o que ja no seu tempo advertio Horacio, que as palavras saõ como as folhas das arvores, que cada anno se mudaõ acabando humas, e nascendo outras, que pela novidade tem mais vigor, quaes os mancebos na flor dos annos.” 

“Alimária, he palavra por abuso de Animária; porque ninguem diz Alimal, mas Animal. E se Joaõ de Barros nas Décadas, e Camões nos Cantos usáraõ da palavra Alimaria, foi mais por ser esta a pronunciaçaõ do vulgo, que a propriedade da palavra.” […]

“Auctor, Autor, Author, e Actor. Com toda esta diversidade acho escriptas as palavras referidas; a primeira Auctôr, imita a Orthografia Latina, que tem c, antes do t, Auctor. A segunda he usada daquelles, que so escrevem pelo som da pronunciação commua, sem nunca acabarem de dar a razaõ, porque se ha de escrever, e pronunciar Actôr, como todos os doutos escrevem, e porque naõ se ha de escrever, e pronunciar Auctor? A terceira Author anda taõ introduzida no uso commum, que athé nas imprensas sempre lhe aspiraõ [215] o t com h, ainda que os originaes o naõ tenhaõ. Eu confesso, que por ver que homens doutissimos, e Auctores de vocabulários escrevem Author, assim o escrevi também muitas vezes: mas quando para esta obra entrei a examinar as etymologias, as analogias, e os fundamentos da Orthografia, vi que naõ era taõ certo, e usado, escreverse Author com h assim no Portuguez, como no Latim, que naõ seja materia de duvida, e taõ controversa como aqui diremos; para que se veja quam difficil he, ou moralmente impossivel, dar regras certas para a Orthografia de todas as palavras.

Dizem huns, que este nome Auctôr no Portuguez, e Auctor, no Latim, tem a sua origem do verbo Augeo na significaçaõ de crear, ou fazer de novo algüa cousa, que nesta significaçaõ usou delle Propercio 1. 5. v. 323. E neste sentido chamou Virgilio a Dárdano Auctôr de Troya, porque foi o seu fundador. Troiæ Dardanus auctor. E daqui se infere, que senaõ ha de escrever Autor, nem Author, mas Auctor no Latim, diz o Lexicon verb. Auctor: Ex his Collige, non Autor, neque Author, sed Auctor, scribendum esse. Agora digo eu: pois se no Latim se deve escrever Auctor; porque razaõ, ou com que fundamento se ha de escrever no Portuguez Authôr com h? E se deve ter h, para que põem nos Vocabularios por palavra Portugueza Authôr, e por Latina adiante Auctor, dandonos a entender, que desta palavra Latina tem a sua origem aquella Portugueza?

Outros dizem, que esta palavra Authôr no Portuguez, e Author no Latim tem a sua etymologia da palavra Grega Authendes, ou Authentes, que significa o Senhor, e antigamente significava o que se mata a si mesmo; e depois começou a significar Author, e o mesmo que Authenticus, que he o que por si so tem authoridade, poder, ou dominio; e por isso diz o P. Nicolao de Mutier, authôr do livro intitulado Etymologiæ Sacræ; Graecolatinæ, que meIhor se escreve Author, que Auctor, allegando a Caramuel.

Nesta duvida dissera eu, que fizéssemos distinçaõ entre hüa, e outra palavra; e quando quizessemos significar o que por si so tem poder, e dominio, escrevêssemos Author assim no Portuguez, como no Latim, seguindo a etymologia Grega v. g. Deos Creador, e Author da natureza.

Authentica, ou Authenticas, as constituiçoens, que por si so tem toda a authoridade, e poder. E quando quiséssemos significar o inventor de algüa obra, ou livro escrevessemos Auctôr no Portuguez, e Auctor no Latim, seguindo a etymologia Latina de Augeo: e nas demandas dizer Auctôr, e Auctôra, ou Autôr, e Autôra: porque so assim escreveremos com melhor acerto para a propriedade das significaçoens de hüa, e outra palavra. Mas escrever no Portuguez Authôr, e Authoridade, e no Latim Auctor, e Auctoritas, he erro na Orthografia: e o mesmo se vê nos que escrevem no Portuguez Autentica, e Autentico, e no Latim Authenticus; porque se Auctor, e Auctoritas no Latim naõ tem h, para que o haõ de ter Authôr, e Authoridade no Portuguez? E se no Latim, e no Grego Authenticus, Authendes, e Authendeo, tem h, porque e naõ ha de ter Authentica, e Authentico, que saõ palavras alatinadas, ou Latinas aportuguezadas?”. ■