O que está em causa a 30 de Janeiro

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As sondagens, que valem o que valem, já dão um empate técnico entre o PSD e o PS, o que, aproximando-se a data das próximas eleições, não pode deixar de ter o significado de que muitos portugueses, que antes se dividiam por vários partidos, começam a concentrar o seu voto no PSD como o partido que melhor pode permitir a mudança e interromper um longo ciclo de empobrecimento do país de mais de 20 anos, período em que o PS foi hegemónico.

Ou seja, quem não vive contente com este longo ciclo de empobrecimento, de ausência de crescimento económico e de Portugal ser ultrapassado pelos outros países da União Europeia, nomeadamente pelos que até recentemente eram mais pobres do que nós, começa a concentrar o seu voto no PSD. Mas não só, muitos mais começam a compreender que o PS tem como única alternativa governar com o PCP e com o Bloco de Esquerda, ou seja, repetir as desavenças que conduziram à presente crise política e prosseguir as mesmas políticas que nos empobreceram e nos afastam do ciclo de progresso europeu que existe desde o fim guerra.

Isto é, a alternativa do voto em 30 de Janeiro é extremamente clara: de um lado está o PSD que aceita governar sozinho, ou com a companhia do CDS, Alternativa Liberal, PAN e mesmo através de acordos parlamentares com o PS. Do outro lado, está o PS que insiste em governar com o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, ou seja, repetir não apenas uma história recente que acabou mal, mas com a nota relevante de que ambos os partidos da extrema-esquerda pretendem que o PS faça maiores cedências num caminho que temos a obrigação de saber não teve bons resultados em lado algum.

Os portugueses têm a obrigação de saber que as alternativas propostas pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda são a via que nos conduzirá de crise em crise até à grande crise da revolução, que é o modelo antigo em que o desespero do povo possa conduzir ao poder estes dois partidos em posição de serem eles a controlar o PS e não o inverso. Sabedores de que isso nunca acontecerá pela via democrática do voto, em que aliás não acreditam muito, preferem a longa via da revolução, que vai da antiga União Soviética a Cuba e à Venezuela do nosso tempo.

A “geringonça” foi apenas um período inicial deste processo, um treino no caminho da revolução, em que a distribuição da riqueza produzida, não deixando de ser justa, se tornou num beco sem saída sem o crescimento económico correspondente, para mais com nacionalizações, (a TAP é um trunfo do PCP no caminho do desastre), impostos insuportáveis e o aumento da dívida que muitos consideram, loucamente, poderá não ser paga. Por isso, convenientemente, o Bloco e o PCP nunca explicaram como pagaríamos nesse caso a energia, os medicamentos, a maquinaria e até os alimentos de que nenhum país pode prescindir.

O PS sabe bem tudo isto, até pelo seu passado com Mário Soares, mas a “geringonça” foi a única saída que António Costa encontrou em 2015 para não terminar ali a sua carreira política. A sua sobrevivência política passava por aceitar uma solução que ele sabe não ter saída possível, mas não hesitou em colocar essa sobrevivência acima do futuro de Portugal, acreditando, ou não, poder controlar os dois parceiros da “geringonça”. Não podia e a presente crise, bem como as eleições que dela resultaram, são a demonstração disso mesmo, em que a ambição do poder a qualquer custo do PS foi um elemento determinante. Veremos isso melhor no futuro, quando o PS tiver de escolher entre Pedro Nuno Santos e um outro candidato a Secretário-Geral, que determinará a clarificação de todos estes anos de esquerdismo táctico.

Pessoalmente, estou em boa posição de ajuizar do futuro de Portugal com a continuação da “geringonça”. Antes e depois do 25 de Abril, viajei e fiz negócios na antiga União Soviética e assiste-se hoje em Portugal a uma repetição do que então aprendi: uma hierarquia a viver na opulência e o povo cada vez mais empobrecido e sem perspectivas de futuro, autoritarismo crescente do Estado perante a sociedade, a ausência de recursos para importar os bens necessários e não produzidos internamente, a falta de investimento, nomeadamente estrangeiro, e a incapacidade da burocracia do Estado em satisfazer as necessidades mais primárias dos cidadãos. Acresce que nada disto é matéria de opinião pessoal, já que assistimos todos à realidade da escolha dos povos da antiga Europa do Leste pela liberdade do Ocidente e à corrida dos alemães do Leste no sentido da reunificação. A escolha dos povos livres de todo o mundo é clara e só não escolhem a via da liberdade os que não podem.

Se ultrapassarmos a via dos debates de circunstância, as conhecidas promessas do momento e até mesmo as ideologias em presença, para olharmos para a grande imagem do que está em causa nas próximas eleições, não há dúvida sobre a necessidade de mudança. Honestamente, não estou em posição de garantir que Rui Rio será, finalmente, o político de que o país precisa, já tive sobre isso demasiadas desilusões, mas essa é a única escolha. Todavia, não tenho dúvida de que a mudança é necessária, de que o PS se transformou na grande família dos interesses, que utiliza o poder e a capacidade de distribuição do Estado para ganhar votos e sobreviver e que António Costa não tem a independência de espírito, a exigência individual e o conhecimento das alternativas que se abrem a Portugal para dirigir a mudança necessária.

A mudança não é um fim em si mesmo, mas uma oportunidade. Com a mudança teremos uma sociedade mais livre, maiores oportunidades de crescimento económico, maior abertura da sociedade e algumas novas caras ainda não consumidas pelo poder. Teremos principalmente uma nova oportunidade de participação democrática, em que a reforma das leis eleitorais assume um papel determinante. Claro que, como sempre, em democracia o poder de mudar está também em cada um de nós.

Vivi metade da minha vida em ditadura e a outra metade depois do 25 de Abril, sempre a desejar uma nova via para um Portugal moderno, economicamente competitivo e socialmente um país sem pobres, sem corrupção e com cidadãos livres e instituições fortes. Já não terei a oportunidade de festejar a realização destes meus desejos, mas gostaria ainda de ver algum caminho aberto nesse sentido. ■