Está a decorrer com notável sucesso o V Congresso da SEDES, com sessões de vários dias já realizadas em Lisboa, no Porto e em Coimbra e com os restantes debates previstos para Lisboa, bem como o seu encerramento em sessão pública a presidir pelo Presidente da República.
Não me recordo de se ter realizado em Portugal uma iniciativa desta dimensão, com debates internos entre os membros de cada temática, desde há quase um ano e com a apresentação de análises e de propostas referentes aos seguintes temas:
- Geopolítica: Portugal, União Europeia, Palops e o Mundo.
- Reforma do Sistema político.
- Estratégias de Desenvolvimento Económico.
- Finanças públicas, Sistema Financeiro e Estabilidade Económica.
- Estado da Saúde e Políticas da Saúde.
- Estado da Educação e Modernização das Políticas da Educação.
- Industrialização, Energia e Internacionalização da Economia.
- Reforma da Investigação e Desenvolvimento em Portugal.
- O Papel e o Futuro da Regulação em Portugal.
- Reforma do Sistema de Justiça.
Durante quase um ano estes diversos temas foram debatidos internamente pelas equipas constituídas para cada tema, com as conclusões agora apresentadas nas sessões públicas a decorrer, que aditadas e corrigidas como resultado desta fase do debate, serão publicadas em livro no próximo ano.
Nos debates internos e agora na apresentação das propostas em debate público, participaram alguns dos mais reputados especialistas portugueses e alguns estrangeiros, com a nota de que entre todos participaram muitos jovens especialistas de todos os temas, numa demonstração vibrante de que Portugal pode contar com a profundidade dos saberes dos jovens portugueses, bem com as suas relações internacionais, muitas das quais com outros portugueses a trabalhar em algumas das mais reputadas instituições internacionais. Foi muito interessante verificar quanto esses portugueses seguem com interesse crítico o que se passa em Portugal.
Durante todas as sessões e debates a que assisti, quer internos quer públicos, verifiquei um ponto particular que atravessou todos os trabalhos: a procura da verdade. Diferentemente de tudo o que se assiste presentemente em Portugal, bem como noutras partes do mundo, nos jornais, nas televisões e em sessões públicas, quer presenciais quer por meios digitais, as generalidades dos participantes têm agendas escondidas, sejam ideológicas, partidárias e profissionais, ou mesmo pessoais. Contrariamente, neste V Congresso para cada ideia ou crítica, ou para as muitas propostas apresentadas, foram sempre acompanhadas de dados estatísticos, nacionais e internacionais, que demonstrassem as afirmações feitas. Ao ponto de me apetecer afirmar que este V Congresso da SEDES ficará para a história como o Congresso da Verdade, um congresso sem agendas escondidas, com apenas uma preocupação dominante, conhecer para onde vai Portugal e a vontade de influenciar esse caminho.
Como tive a ocasião de afirmar numa das sessões do Congresso, depois de ler os jornais do dia e de ter visto os telejornais da noite anterior, aquela procura da verdade terminava à porta da sala do Congresso. Cá fora, “business as usual”, as mesmas afirmações e decisões feitas sem qualquer debate público, ou com um tempo interessadamente curto para o debate, investimentos sem qualquer estudo custo-benefício, indiferença em relação aos enormes investimentos feitos no passado recente e sem retorno. Saio da sala e leio no jornal “I” de hoje: “Sistema Eléctrico Nacional. Uma reforma à velocidade da Luz?”. Ou no jornal “Público”: “Empresas vão ter de devolver mil milhões de ajudas ilegais na Zona Franca da Madeira”.
Acontece que, como todos sabemos e foi demonstrado abundantemente durante este V Congresso, o sistema energético português é um desastre composto de más decisões acumuladas pelos governos, com a pretendida reforma a ter apenas 14 dias de debate público e o objectivo de sempre, distribuir o dinheiro europeu antes que a legislatura acabe. Ou que os mil milhões de ajudas consideradas pela União Europeia como ilegais, aposto, nunca entrarão nos cofres do Estado. São trocos, mil milhões de euros.
Se em vez da energia pensarmos na ferrovia, na Justiça, ou na corrupção, as conclusões não serão diferentes. Por exemplo, na ferrovia, o ministro Pedro Nuno Santos continua a recusar-se a explicar aos portugueses como é que as mercadorias portuguesas podem chegar à Europa em comboios de bitola ibérica, ou a esclarecer as afirmações feitas de que a Espanha ainda não fez nada em bitola UIC (vulgo europeia) ou que a bitola ibérica nos protege da concorrência internacional. São estas algumas das cenas que se passam fora das salas do V Congresso da SEDES.
Lá dentro é um mundo novo, jovens e outros menos jovens, mas todos bem preparados, profundos conhecedores dos temas tratados, professores nas melhores universidades nacionais e internacionais, empresários e profissionais dos mais diversos sectores de actividade. As conclusões deste V Congresso falarão por si, mas estou certo de que o poder político fará todo o possível para as desconhecer, como tem ignorado os trabalhos e as críticas que surgem dos mais variados sectores da sociedade portuguesa. É hoje afirmado, frequentemente, que Portugal tem a juventude mais bem preparada de sempre, mas, digo eu, sem emprego digno e útil ao país. Os empregos estão no Governo e nos muitos empregos distribuídos através da vontade de sobrevivência burocrática que atravessa setenta ministros e secretários de Estado, mantidos nos lugares pelos arames de um primeiro-ministro que se esgota no objectivo único da manutenção do poder.
Felizmente que muitos portugueses, reunidos na SEDES pelo entusiamo vibrante do seu Presidente, o Dr. Álvaro Beleza, que ressuscitou depois de 50 anos de bons serviços prestados ao país e decidiu realizar mais este Congresso sob a sábia coordenação do Professor Abel Mateus. Só espero que os portugueses dêem a este V Congresso da SEDES a importância que lhe é devida. ■




