O Valor Democrático da Verdade

2
1226

Ao longo do nosso regime democrático e de forma crescente, a principal vítima tem sido a verdade. Pouco a pouco, os portugueses têm assistido a que os partidos políticos faltem à verdade de forma continuada para ganhar votos e, quando no poder, faltem à verdade para recriar uma realidade inexistente.

Este facto, com efeitos pedagogicamente trágicos sobre a sociedade, contribui ainda para o clima de desorientação estratégica em que o País se encontra e para a ausência dos consensos necessários para criar algum sentido de orientação sobre o nosso modelo de desenvolvimento.

Como resultado, assistimos na Assembleia da República a debates inúteis para a fiscalização dos governos e a intervenções indigentes quanto às grandes decisões e estratégias essenciais a Portugal, porque toda a informação necessária é continuamente escamoteada ou distorcida pela propaganda do poder com o objectivo de servir a abertura dos telejornais e iludir os portugueses.

Neste ambiente, que é secundado na comunicação social através de debates com os mesmos intervenientes e com os mesmos objectivos de mera valorização partidária, nenhuma organização ou nação pode sobreviver durante muito tempo em boas condições.

Porque, apesar de haver no País muita gente séria e informada, que poderia defender a transparência, a verdade e a racionalidade junto da opinião pública, o facto é que o seu acesso à comunicação social é limitado e, frequentemente, assistimos à sua exclusão. Como disse um político conhecido num momento de particular candura, a má moeda expulsa a boa.

Estamos agora a subir um novo degrau no combate à informação independente do poder político; e numa semana assistimos a quatro tentativas nesse sentido: o condicionamento do Conselho das Finanças Públicas, a desvalorização do papel do Banco do Portugal, o ataque ao programa ‘Negócios da Semana’ da SIC e ao impedimento criado a Jaime Nogueira Pinto para fazer uma intervenção pública sobre um tema de óbvio interesse.

Ataque que é feito à essência do próprio regime democrático através da desvalorização da independência das instituições e da liberdade das pessoas de quem o poder político discorda, em vez do debate civilizado de procura da verdade, que é o factor que em democracia mais pode contribuir para o desenvolvimento e para o progresso económico e social.

Esta situação, que está em grande parte na raiz do empobrecimento dos portugueses, nomeadamente depois do impulso originado nos Governos de José Sócrates, tem em alguns dos seus continuadores no poder um factor perverso e preocupante: o de partirem de jovens, muitos deles oriundos das juventudes partidárias, algumas das mais violentas agressões à verdade, à racionalidade e à independência das instituições, dando mostras de uma preocupante ausência de cultura democrática.

É ainda preocupante que este clima de transgressão democrática não tenha eco no Presidente da República, o qual parece mais preocupado com a ausência de milagres nas contas públicas e com a abertura diária dos telejornais do que com o funcionamento democrático das instituições. Como ainda, em ano de eleições autárquicas, com as leis que discriminam as listas de candidatos independentes relativamente aos partidos.

Por isso pergunto: o que pode ser mais nobre numa democracia do que a procura da verdade? E o que pode ser mais útil no governo de uma nação do que a racionalidade?

COMPARTILHAR
  • Facebook User

    Gostei deste artigo do sr. Neto.Parabéns! Infelizmente o Povo partidário, muito aconchegado ao partido (os) vivem noutro planeta! Quem manda é o Partido. O Dr. Pedro Arrojo escreveu no JN é “Governar à Feira da Ladra”!.

  • Facebook User

    Falta acrescentar a esta situação vergonhosa, uma história que me contaram há muito tempo mas que está sempre actual,sobre um “comunista que chega a casa e encontra a mulher na cama com outro…” Pois é…